domingo, 24 de abril de 2016

14:14

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Entre pistas de um buscar por fora,
surgem evidências de onde estava o tempo todo.
Em estado de se apaixonar.
 
Buscando em outros rostos,
outros corpos, relatos alheios
de fatos em passeios que não são meus,
 
sensação de estar sempre do lado de fora,
esquecida a chave, ninguém pra abrir,
e é sempre gelado, é sempre assustador,
 
percorrer léguas submarinas,
sem perceber o que correto estava o célebre
D I T A D O
 
_ Busque-se a si mesmo!
 
pareciam palavras vulgares de
pouca ajuda,
best-sellers saindo em fornadas,
 
está em você
busque em você
ache-se
aceite-se
ame-se
queira-se
faça-se,
 
 
melodias marteladas refugadas
sem sentido,
palavreado encarcerado
em labirintos descabidos,
perguntando sempre,
 
como
por onde
de que jeito
não tem lógica
é muita retórica
sempre tão fraca,
pobre, sede
do outro,
 
o outro,
sempre o outro,
o socorro, o espelho, o reflexo,
a dependência, a carência, a urgência,
 
[sucessão de dores atrozes, vozes, passagens, velozes]
 
.
.
.
 
Até que um dia você se nota. E você perdoa toda a podridão vestida, sentida, ferida, todas as milhares de flechas que abriram um caminho até você, que descobre que existe sim, UM VOCÊ. Uma novidade. Uma sensação inusitada de experimentar um ser próprio. Um algo inédito de prazer. Inóspita, desconhecida, linda figura que se pode amar, sem medo de errar.
 
QUANDO VOCE PODE AMAR, E AMAR E AMAR E SE DERRAMAR E SE LAMBUZAR E SE ESPARRAMAR E AINDA HAVER UM MAR QUE TE DIZ SIM, SIM, UMA GALÁXIA INTEIRA DE AMOR POR ESSA CRIATURA QUE ME HABITA.
 
[não é vaidade. é RESTAURO. É reencontro. É aceitação. é a firmeza de um chão que te recebe, e te esperava, e te aguardava por mundos e vidas sem fim]
 
 
Todas as voltas que meu mundo deu me trouxeram até mim. Tateio com suavidade, controlo meu exagero no que seja amar, ou descontrolo, esta é enfim a hora de extrapolar, e mimar, e chamar pra ninar, e acarinhar sem medo de ser excessiva, enfim, não haverá fuga, não haverá rejeição, nem frustração, nem um NÃO, aos carinhos, à proximidade, nenhuma queixa será feita à falta de liberdade porque enfim o cativeiro liberta, dentro da gente existe um portal.
 
Ser meu pão.
Ser minha comida.
Eu, apaixonada por mim mesma,
sem saber, mas sentindo,
eu era a minha saída.
 
 
 
*


sexta-feira, 22 de abril de 2016

17:22

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Tardes solares,
outonos que se recusam,
amarelos perpétuos,
 
tudo pede frescor,
e uma nudez refrescante
suave chama chega brisa
 
 
escancaradas janelas
apressadas preces pra ficar
prolongar
permanecer
a beleza aguda das tardes
de sol de
um outono vadio
adiando o frio de dentro
de fora,
corações aquecidos
querido
outono,
 
tarde,
faça-se tarde a frieza,
a esperteza,
faça a fineza de ficar
e resgatar o que o calor
 
de um verão gelado
onde nada aqueceu,
doeu, vira a página,
guardo os livros pra depois,
 
um xodó pra mim,
tardes de luz,
amarela nudez
que resta, brilha, reluz
 
o corpo que cintila,
há estrela,
há fases, e lua,
há urgência em estado de
paradoxo,
sossegada,
como quem vive sem viver,
 
estado de sim,
estado de flor,
estado de ser oque seria,
amada,
 
mesmo sem estar aqui,
quem, alguém, ninguém,
 
 
toda materialidade presente
pressente
que ausente é só um estar
do não estar,
estás,
 
mesmo que não,
mesmo que além,
 
minha boca,
minha pele,
minha cor,
minha sombra está alegre,
 
lá, de onde está, reflete,
tudo suave e leve como este
verão outonal, casual,
desigual,
 
você é mais lindo de longe
você faz amor comigo
na mente,
não mente,
ardente,
feito a tarde onde faço
da nudez,  poema líquido,
sem busca,
sem sentido de ser, sendo
 
 
sem procura, puxo
pra soltar o ar bem devagar
como quem sabe que
vai amar,
amando,
 
 muito nua. E crua.
 
 
 
*

quinta-feira, 21 de abril de 2016

00:33

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Sempre maior se faz o que já se foi.
Palavras antigas. Vespertinas.
Matutinas.
Mas ainda é noite.
E espreita.
 
Nas noites onde todos os gatos
são pardos.
E todo azul, escuro.
Um manto repleto de estrelas,
enquanto uns dormem,
outros não,
insônias em vão,
 
Rondas.
Silêncios que falam mais,
passos madrugam janelas
cortinas camuflam rostos
rostos que não escondem
delírios repetidos
antigos, repassados,
 
De um tempo a outro,
sonhos,
De um sonho a outro,
convulsão,
De uma paixão a outra,
a permanência de uma
ou outra,
exaustão.
 
Sempre maior é o que resta.
O que foi, não.
O que fica é encanto.
Lavado em cachoeira.
Águas que não lavam,
correnteza que não leva
leva lava leve brisa
sopra outra aurora
 
Noite, meia,
lua cheia de pudor,
quanto amor uivando
ao seu redor
à alguns, já conhece
de cor,
de cores e rumores de
que por ali,
uma alma
duas almas
150 almas
vezes 1000 outras tantas
 
tateiam vidros,
soltam gemidos de dor
algum prazer de supor
em vão, então
ouvem-se passos,
em todo canto uma sombra
sua nuance,
sua sombra,
 
sempre tem alguém ali,
por alguém aqui,
e versos, vices,
versam enredos, desejos,
imensidões,
 
 
debruçam-se parapeitos
trancadas janelas
soltas promessas
o anel, o motor, o avião,
 
que pende,
que ronca,
que voa,
 
e este chão, que é espaço
que recebe e solta e chama
águas,
ventos,
elementos,
passagens,
 
todos prontos pra viagem,
de dentro,
o apito noturno do guarda
que sonha, e lembra
também, de alguém,
denuncia
afugenta
 
 
imperceptível presença,
fantasmas de almas amantes
de dias
de noites
de fins e começos
e danças e tropeços,
 
todos salvos,
todos sãos,
faz-se alta, a noite dos
suspiros não reprimidos
 que serão,
mas exaustos bocejam,
 
é o tempo
que ronda e não traz,
passos atrás, a frente, rente, quase se sente
 
 
insistente o sonho
real, palpável, e um sono
que não é fadiga,
é apenas o alivio de não ter
sido percebido,
 
o íntimo caminho
percorrido.
 
 
 
*

terça-feira, 19 de abril de 2016

17:38

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Peguei a dor pela mão,
A coloquei pra dormir,
Ela sonhou que era flor.
 
Era uma vez uma dor
que desabrochou
e sorriu.
 
 
 
 
 
*

 
 
 


segunda-feira, 18 de abril de 2016

00:00




Me exibi pra paixão. E acabei marcada pela dor. Aí era uma vez. Decidi escrever. Convidei a dor pra entrar, e tirei  dela substância, ainda que parca, para me escrever. Escrevi de mim para mim. E me descobri.  Peguei gosto e segui. Letra por letra me atrevi. Escrevi sobre a dor e suas dobraduras porque aos meus olhos elas me pareciam bonitas... (Ah, olhos meus!, gosto estranho o teu) . Olhos que veem e mãos escrevendo.  Escrevi sobre a dor e suas pétalas caídas. Vi poesia. Vi beleza. Vi o lado escuro aceso.  Escrevi sobre a dor líquida, ouvi seu choro, chorei junto à ela, e deixei a  dor febril dos dias dos descobrimentos arder e queimar e me levar ao grande pequeno espetáculo do sentir. Escrevi sobre as avenidas da dor. E por elas transitei. Me perdi. Me encontrei. E depois afundei sem quase voltar.  Escrevi  sobre a loucura.  Porque dor é uma loucura em graduações. Amplifiquei seus sons. Equalizei seus tons. Aderi ao bloco. E cantei enquanto dançava com a dor seus passos descompassados de uma dança insana de rodopios e meias pontas. Alucinei. Porque é o que a dor e as paixões fazem. Alucinam. E nos visitam sorrateiras, uma tão ligeira, enquanto a outra perpetua-nos em ais. Vi poesia nas chegadas. Vi cenas que queriam partir. E rimei alhos com bugalhos porque escrever quebra um galho danado. Passa-se atestado de insanidade mas nos mantém, porém.   Espiei sua rima estranha com o amor. E me atrevi mais. Fui além. Passei quadras. Errei a mão mil vezes mil, e conheci seu lado vil.  Não me poupei, queria essa beleza estranha da dor. Porque eu a vi. A conheci. Virei íntima da dor pra poder chamá-la de amiga. Amei cada pedaço de dor abstrata que vivi. E criei. E chorei. E parti. Parti a louca dor em pedaços, e depois eu mesmo colei seus cacos. Chamei a dor de loucura por tanto insistir. Excessiva.  Fui. Fomos. Somos. Louca pra escrever toda a dor. Escrevi tentando captar sua extra sonoridade. Ora, vazia, ora odiada, ora caminha, ora me escapa, a reconheço por todos os meus passos, e sobre a dor escrevi pra alcançar seu pico. E nele pulei. E dele caí. Me feri e me curei. Gritei e me calei. Fuji e chorei. Fui e voltei. Morri sem morrer. Amei e me enganei. Nas palavras mergulhei sem saber nadar suas letras. Mas foi tudo pela dor. Muitas, causei. Certamente. Causei e virei as costas como carrasca que também sabe instrumentar. Machuquei as letras. Mas respirei e segui. E cantei pra subir. Com a dor. De correr os riscos. A dor de arcar com os prejuízos. A dor que faz perder o juízo, e ainda sim, ficar. Algo como um pecado original. A dor é raiz. Do primeiro segundo. A dor dos átomos. A sina que precipita-se a cada colisão, que repete-se infinita, se exceção. E, então, acordei um dia e,  eis que surge uma flor, e depois um jardim. Semeado de dor. Um mundo de flor por nascer, ou renascer. O inverso possível. A experiência é incrível, mas a gente só descobre depois.
 
 
 
Novas horas.
Algum Repouso.
Hora de mudar.
 
De assunto.
 
 
 
*


quinta-feira, 24 de março de 2016

20:11

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A ciência explica
que os espermatozóides
ao serem liberados no gozo

saem em disparada carreira rumo
ao óvulo para fecundar e virar UM.

LEDO ENGANO.

Quando liberados, eles disparam
apavorados, pensando tratar-se o óvulo
ser uma passagem pra voltar pro jardim.

Quem ganha.
Perde.

FIM.


{breve explanação sobre fecundação}



*

16:41



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Uma coisa é inegavelmente fato ----------------->
A VIDA SEGUE.


E é um espanto. Um soco na boca do estômago a cada olhar. A cada constatar que sim, ela segue. Você pode espernear. Você pode gritar. Você pode se acabar de chorar. A vida. Ela segue. E tem gente que fica pra trás. Azar. Chora, bebê!
 
Pode chorar. E resolvi chorar. Chorar toda a vida que seguiu sem que eu notasse. Devo ter parado ainda antes da colisão da partícula do meu pai com a partícula da minha mãe. Imagino um grande jardim, cheio de Lisyanthus, aquelas flores que têm todos os tons de rosa, passam pelo branco e terminam nos roxos, rosa, lilás, tantos tons, tanto perfume, parece tão bom na lembrança descabida, mas a proposta, tão atrevida, um anjo malvado pergunta, _ quem quer dar um pulinho por aí, fazer parte da vida de algum planeta, não especificou nada, Vênus, Marte, Terra, vagas abertas, e no atrevimento ergo as mãos pensando frente ao novo e a emoção.
 
Fui escolhida pra vida. Na Terra. Mas quando fui pra salinha escura da espera, um arrepio percorreu todo meu ser não-etéreo, e eu tenho certeza que eu quis voltar. Eu pedi pra sair. Eu desisti. Eu pedi. Me deixa aqui. Foi engano. Coisa de criança. Por favor! Pro favor! Já dá pra sentir aqui a dor que é esse negócio de existir. Por favor! Pro favor! Não tinha ninguém ali. A solidão. A vinda. Eu queria voltar. Mas não havia volta. Eu estava ali, na boca do existir. E pensei no recente dom da consciência:
_ que cagada! que cagada! que cagada!
 
[minha mãe sempre conta. Teve que ficar os nove meses da minha gravidez de repouso. Já havia perdido dois bebês antes de mim. Penso que foi sorte deles. Eu também quase não vinguei. Ela quase me perdeu umas tantas vezes. Hoje, sentindo essa dor remota, ancestral, penso que eu não queria. Eu já tinha desistido antes da colisão. Mas nada volta. Nem uma decisão. E aí eu vim, uma bebê cor-de-rosa que não chorou, tamanha tristeza. Não havia como voltar atrás. Estava feito. Ficar. Mamãe conta que eu era o bebê mais quieto do mundo. Não chorava. Não mamava. Ela tinha que forçar. Vomitar. Vomitava a não possibilidade de desistir. Vinguei. E não gostei.]
 
 
As lembranças me doem. Viver não compensa o gasto. Não existe querer. Existe a corrida dos dias, onde nada fica, só a vida que segue, sem que nada se possa fazer, ajeitar, remexer pra lembrar aquele jardim de flores de tons de rosa,
 
AMO tanto as flores, cor de rosa, lilás, brancas, nem precisa perfume, a cor inunda os sentidos, bom de tocar, bom de cheirar, bom de ver, bom de escutar, bom de tocar de novo, bom de lembrar, de intuir... naquele jardim sim, havia o livre acontecer, tão leve lembrar outrora vividos, nunca esquecidos, lembrar nem é o nome, lembrar...
 
NÃO esta coisa terrena, extrema de dor, de coisas feias, de vida que segue, queria vomitar todas as experiências, nada valeu a pena, nada que eu queira voltar, aqui não é o lugar, aqui é a cilada do tempo, da vida piada sem graça  AQUI A VIDA SÓ SEGUE
------------------------------------->
 
pra lugar nenhum.
Vez ou outra há um vislumbre de jardim. Algo que parece. Olhos de assim. Assim. Eu não quero estar aqui. Eu cansei daqui. Eu cansei daí. Eu cansei antes de vir. Eu não queria vir. Eu não queria vir.
 
Saudade. Palavra sem explicação. A gente pensa que sente saudade do vivido aqui. Mas não é não. Aprendida lição. A saudade é de outro lugar. Outro ar. Outro tempo. Espaço sem corpo. Almas livres. Nada a provar. Nada a conquistar. Nada a sentir . O lixo da paixão. O castigo de optar e vir. Renegar o jardim. O pecado do atrevimento. Tudo trocado por NADA.
 
NADA
ESTE É O NOME DO JOGO ----------------->
VIDA QUE SEGUE
 
E só faz magoar. Decepcionar. Magoar. Pisotear. Te provar o minúsculo, o mínimo, a insignificância da sua vaidade. O nome da condição. Sobrevivência. Sofrência.
 
VAIDADE.
Quem nunca, que seja hipócrita, e atire a primeira pedra.
Tudo é vaidade. A raiz de todo mal. O nome da rosa. A vida que segue. VAIDADES. Flores sem cor, murchas de dor, é tudo vaidade, sinônimos de dor. Tudo ORDINÁRIO. Tudo comum. É o que temos em comum. Todos. Não pense em exceção. VAIDADE.
 
A vaidade das mães. A vaidade dos filhos. A vaidade dos idealistas. A vaidade dos artistas. Dos poetas, dos velhos, das crianças, das fianças, das confianças, da esperança, vaidade do adormecer, do meter, do foder, de cada amanhecer, vaidade em dar, vaidade amar, vaidade levantar, vaidade até em cair, vaidade em cada sorriso, o nome do gesto, o nome do gosto, o nome da vida VAIDADE.
 
VAIDADE É VIDA QUE SEGUE -------------->
 
 
Tudo é só vaidade.
O preço a se pagar. Querer vir pra este lugar terrível, triste , onde o único gesto que fala é o chorar.
 
se bem que até chorar, é VAIDADE.
 
 
Vai lá.
No que você  faz é muito bem.
Se fosse eu, corria daqui também.
 
[o nome da licença hoje é foda-se, tô triste demais pra ter que pedir licença pra chorar até dentro da   minha própria casa]
 
 
*

quarta-feira, 23 de março de 2016

00:28

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Dei um pulinho no céu, que é o que a gente faz cada vez que visita aquelas lembranças, azuis que são,  de tanto céu, azuis que são de tanto mar, mergulhos de sonhar, não dormir pra acordar, lá dentro, no mais afetuoso lugar, aquele azul bonito que se intensifica, qualifica sempre mais e mais e mais, banho de sais, perfumes que pairam nas ondas de cada gota desse mar céu azul de lembrar.
 
 
Nem um som. Nem um movimento. É tudo por dentro. Até respirar pede pausa. Como se entre uma puxada de ar e outra, algo raro, único, irretornável, fosse escapar. Não escapa. Pode respirar. Transbordam águas que sempre voltam ao mesmo lugar.
 
A primeira intimidade. O suspiro. A reação. Outra ação. Tão delicada. Noite longa. Madrugada. Nem um toque poderia ter tanto poder quanto a palavra encantada. Despertada. Noites de lua. E estrelas. Ora chuvas. Ora poeira. E aquela zonzeira boa de tocar o irreal, o celestial momento de estar. No outro. E o outro. Te invadir. Sentir. Poderoso verbo. Sentir. Nada te rouba o sentido. São dos sentidos o território seguinte. Portal. Abram-se instantes. De novo. E de novo. Infinitamente dentro e além. Não é da mente. É mais. É céu azul. E mar. Quando nos pomos a imaginar...
 

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Dei um pulinho no mar. E ara tanto azul. Que parecia mais que mar. Já era céu quando fechei os olhos. E as estrelas se sumiram pra deixar o azul ser todo meu. Por uma meia hora. Ou um pouco mais. Estávamos juntos. Como o combinado. Lá no início. Pra Março. As estrelas tocavam pra nós, e a multidão sumia. Sorrir junto era a prova dos nove. Dos dez. Dos milhares de dias que negociamos ficar. Sua mão na minha. Minha mão na sua. Juntas, bocas sempre a procura, a sua à minha, como se a minha não estive a um palmo da sua. Dançamos como loucos. Alucinamos. E rimos. E rimos juntos como se só a gente soubesse o segredo dos sorrisos. O que te fato fazia sentido. Invadimos as portas do céu. Retomamos nosso estado de anjo. Eu, o seu. Você, o meu. E havia invasão. Angelicais eram nossos passos em direção aos nossos próprios passos, que se faziam prazer em compasso. Quando tudo é um prazer. Ou era. Acordar. Abrir os olhos. Despertar. Dentro. E ir e vir e nunca pensar em verbos finitos. Só os bonitos. Outra é a forma de ser dentro do amor. Ali não cabia nada mais, além do amor. Era céu. Azul do mar. Onde eu fui mergulhar. E você veio atrás.  Dei um pulinho no azul, e era tudo azul demais, azul que é a cor da fantasia que só se confidencia à lua, à cama, às aguas do céu às estrelas do mar...
 
.
 
Que lugar é este pra onde a gente vai sem ir, e quer lá ficar , pra sempre, sem nunca mais ter que voltar... Será que o céu é um pedaço de tudo que se perdeu e se amou e se quis, será que o céu é descobrir que a gente era capaz de ser feliz, e assim, como o azul é azul em tanta matriz, ganhar um cantinho lá dentro, anjo ser de um, para o outro, pra dentro, mar, além, é tanto céu, fechar os olhos, e de repente ver a lua,  contemplar o tamanho da lua, e ali na janela, seminua, cantar baixinho qualquer canção que continua, nos ecos, dos suspiros, dos corações vadios, que antes de dormir, acordam pra bulir com sonhos, lembranças, pulos de prazer, azul do céu, bem fundo, no mar, dentro, fora, acima, embaixo, vontade de ir, e lá ficar!
 
 
 
*

segunda-feira, 21 de março de 2016

23:01

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Parece que ontem foi o dia da Felicidade. Hoje, segundo consta, é dia da Poesia. Parece, inclusive, que todo dia é dia de alguma coisa. Boa. Faz sentido. Comemorar. Se eu pudesse inventar um dia para alguma coisa, inventaria o dia das Mãos. Dadas.
 
Senão penso: Quando penso em mãos penso logo em carinho. Porque tudo que é carinho passa necessariamente pelas mãos.  A comida, as casas, as poesias, os contratos, os agrados, a cura. Pelas mãos nascem os bebês, pelas mãos, por cada par de mãos passa a construção de uma história. Histórias de conquistas, de batalhas, de avanços. Grandes e pequenas coisas começam a se concretizar pelas mãos.
 
 
As mãos que obedecem aos pensamentos. Penso no grande, e nos delicados gestos das mãos. Como tem amor nas mãos... O amor, esse convite da paixão pra se estender e ficar nas mãos de alguém. Pro querer. São as mãos que acenam de longe o símbolo do que vem pra ficar. Tem felicidade nas mãos. E dizem que ela ali está. Em nossas mãos...

Felicidade. Quanta felicidade já não passou pelas palmas das mãos de cada um... Quanta poesia foi escrita no alto das noites, lápis, papel, um teclado, AS MÃOS, ponte que nos permite expressar para além das palavras, no GESTO. De abraçar. Porque o abraço começa nas mãos. De pegar o telefone, e teclar. Mãos chamam.São as mãos que enxugam as lágrimas do rosto, e perfumam a pele do corpo. São as mãos que convidam. São as mãos que aceitam.
 
Mãos divinas. Mãos feridas. Mãos deviam ser sempre o bem, embora hajam para o mal. Pensamento, pés, boca, olhos, regidos. Tudo tem lado. Tem movimento a ser escolhido. Mãos. Feitas para o belo. Poderia... Mãos - convite. Porque convite é pra ser pra algo bom. Ninguém convida alguém para algo que não se justifique honrado:
_ vem faxinar comigo aqui em casa, hoje!, ou _ vem fazer as contas aqui comigo, ou _ vem se foder comigo pra eu não me foder sozinho!..., não, convite é coisa boa que pressupõe honraria. Como as mãos. E a felicidade. E a poesia.
 
E as mãos, ali. Em convite. Me dê suas mãos, vamos ver o sol nascer. Me dê suas mãos, vamos dançar até a música cansar. Me dê suas mãos, vamos sair pelas ruas e sentir a chuva nos lamber vontades. Pelas mãos selam-se intenções, pelas mãos passam correntes, pelas mãos conectamos o corpo ao corpo desejado, com as mãos sentimos tudo que é amado.
 
Amor é uma coisa de mãos. Vivas, às mãos. Dia do amor. Vivas, ao amor. Todo santo dia. A gente junta as mãos sem sentir e faz pedidos. E fala com elas. E come com elas. E sente com elas. E convida com elas. Nasce na alma, pega o trem dos pensamentos, e vem até elas, o comando, os convites, os gestos de amor.
 
Amor amplo. Variado. Irrestrito. Tanta gente. Tanto amor. Tantas mãos. Entrelaçadas. Às vezes, afastadas, nem por isso, não sonhadas, o toque, o delírio, a aproximação, o calor que vem das mãos, e que a gente passa, transmite, emite, nas mãos, o convite é pra fazer de todo dia, dia de amor.
 
Dias de amor. Dia das mãos. Mãos que se dão. Convite:
Aceita, ou não...
 
 
 
*

22:33

 
.
 
aquele raro instante
em que os olhos
se fecham
pra sentir
o perfume
do
CÉU
 
 
 
*

domingo, 20 de março de 2016

16:06


.

 
De repente fiquei tímida:
 
não sei o que fazer com a pena.
não sei o que fazer com as tintas.
não sei o que fazer com os livros.
não sei o que fazer com as rimas.
não sei o que fazer com as linhas.
 
tecer
tecer
tecer
um fio é puxado.
Um fio inicial.
 
Chamado vida.
Que vem de onde, o fio original,
o tal que a tudo integra, grande trama
Universo de vidas e
energias.
 
Tecer.
Um fio. outro fio. amarra. dá o nó.
ou um laço. tem que ser bem dado.
nem muito fraco, nem apertado demais.
o próximo fio. passa, amarra, dá um nó,
ou outro laço, nem muito, nem pouco,
 
senão escapa o ponto, tem que voltar,
recomeçar, desmanchar anteriores
pra não ficar um bordado esquisito
tem que ficar bonito de olhar.
 
mais um fio. mais um nó. outro laço.
vai crescendo. formando um desenho.
tomando forma. já não é uma colcha.
nem um tapete. vai virando manto.
que aquece a vida.
 
fio por fio. uma vida composta de
nós, laços, apertos, presentes ligados
laçados, bem dados, recomeçados,
desmanchados, desejados, caprichados
e já é mais que um manto,
 
já é um mar inteiro, um pedaço de céu
tem estrelas, tem nuvens, tem tantas formas
coração, dragão, pétala, gotas, uma flecha,
tudo mira na trama, nos nós, nos fios,
 
Um nome para o fio: VIDA
Um nome para o nó: PAIXÃO
Um nome para o laço: AMOR
 
 
Feito digitais. Nunca iguais. Tramas amarram-se em outras tramas, feito a vida, esbarrando em outras vidas, emaranhando-se todas, um bolo, uma confusão, bom de olhar, hora não, abre a janela, tem que ter luz, e provocar a expectativa, a vida de cada um, querendo se juntar a vida de outro algum, o que nos faz próximos de uns, enquanto outros nos passam comuns, aos olhos, fios coincidentes,
_ por aqui quero me enrolar,
 
lá vem a vida, cheia de paixão, querendo bordar amor no coração de um, e de outro. Sucessivamente. Numa ciranda de sim e não. Pontos que se dão. Pontos que não. Fios de algodão. Tão macio ao toque. Embrenhar-se na trama do outro a ponto de virar uma trama só e gostar de ficar. E querer ali estar. E querer dali, continuar...
 
 
[aprendi com minha avó a bordar tapetes. Em um ponto chamado Arraiolo. Para tanto se faz necessário uma tela de bordar,  cheia de buracos vazios, onde se farão os pontos com lã. Lãs de todas as cores. Uma agulha grossa. E uma tesoura. E uma ideia de desenho. Talvez um rascunho riscado sobre a tela na intenção do que se imagina para o tapete. Você escolhe dizia vovó, que sempre preferia bordar à mão livre, formando na intuição do saber-fazer a beleza do resultado. Devo ter herdado dela a rebeldia, a indisciplina, a resistência em aceitar um plano traçado. Faz tempo que não bordo um tapete novo. O último adorna uma parede lateral pequena que tenho aqui. Gosto de olhar pra ele. É abstrato de forma e cor, embora perceba-se nele um padrão, uma simetria despretensiosa que se deseja agradável, apenas e essencialmente aos olhos de quem fez. Eu no caso. Sorrio pro tapete. Ele tem um pouco de mim. Demora pra fazer. Devo ter estado na companhia dos fios, dos pontos, por meses. E hoje ele é um dos muitos pontos de quem sou. De quem vou sendo.]
 
 
Ser é isso, pra mim. Se tecer. um ponto a cada minuto. Às vezes, precisando ser refeito. Às vezes percorrendo rápido a tela que é o dia. Às vezes, esquecido num canto de expectativas. Um tapete que pode virar um manto, não obstante, tem até pranto, não se pode negar, um dedo furado, uns calos por onde o ponto resolve dar nó. E sempre o fio. A atenção. O cuidado. O apuro. O respeito ao tempo. E aquele gosto aprazível de em certo ponto perceber que tá indo, já não é só uma tela vazia, já dá pra ver o formato, já dá até pra sentir prazer por ser aquilo que se tece, ponto por ponto, alternando dor, alegria, esforço, beleza, carinho, cansaço, nós delicados, paixões, laços bem dados, no AMOR.
 
 
[licença solicitada para TECER sem rascunho.]
 
 
*

quinta-feira, 17 de março de 2016

23:13



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Tudo tão quieto. Um silêncio que parece imensidão de algo prestes a se romper. Nem um pio. Nem das folhas. Nem dos bichinhos da noite. Nada. Uma semana insana. Num país de insanos. Irracionais enganos. Dia 17 de Março. Véspera de acontecimentos. Um gigante perseguido. Assaltos de esperança. Sustos sucessivos. A soberania por um triz. Será que era uma vez uma país... A gente querendo só ser feliz, e tudo ruindo, bem embaixo do nosso nariz.
 
Narizes, marquises, príncipes desencantados, uma corte mal assombrada, gente sendo enganada por excesso, esquecidos tempos de falta, onde nada era nada, hoje tudo é tão comum, ter, verbo que trai, distrai, rouba o foco, consumir, rir de tudo, há que se pagar, e o preço, é absurdo.
 
Camuflados. Flagelados já foi uma palavra presente. Ninguém lembra. Ingratidão. Cospe-se no prato que está cheio, por quem as panelas batem, estado de alerta, não fale, não diga, se contradiga, se disfarce, o perigo é a cor da camisa, vermelho sempre foi a cor proibida, a temporada de caça declarada nas páginas dos jornais.
 
Irracionais. Imorais. Perseguir virou sinônimo de se divertir. Joguem aos leões. Heróis em nós de gravatas estrangeiras, idolatrados são os símbolos de um poder que escraviza, mas o ego idealiza, ter, ter, ter, status, altivez, chega de mistura, a contra cultura, os 'vida dura' pra lá, os ditadura pra cá, a inescapável briga de classes, desde que o mundo é mundo, o submundo rege, ainda que vez ou outra algo pareça melhor.
 
 
Os cães ladram. A caravana passa. Noite de vigília. Que a passagem desta noite faça da manhã uma aurora que concilia. Reconcilia. Novo dia. Uma chance à ousadia dos que resistem, insistem que não se derrube o que tanto custou para estar.
 
As ruas. Um país. A batalha. Nos corações.


[p.s. solicitada licença cidadã]
 
 
 
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terça-feira, 15 de março de 2016

23:19



Nostalgia. Deve haver uma definição precisa por aí, mas por aqui, nostalgia é uma sensação do que poderia ter sido se fosse o eu de hoje no comando do ontem.
 
Porque no frigir dos ovos, mal um minuto chegou e já passou a bola pro próximo minuto, pro outro, e o próximo,  assim ininterruptamente, ininterrupta_ mente,  adoro essa palavra, ininterrupta, que pra mim significa que nunca cessa, que nunca nunca para, nem pra respirar.
 
Mas acaba. E a vida continua. Ainda que nula. Anula. São só tempos de nostalgia. E parece meio que pra todo mundo. Embora , não.
 
Tudo tão chato. Tudo tão definido. Tudo tão passageiro. Nada permanece. Tudo já é ontem. Tempos chatos onde todo mundo sabe de tudo. Política. História. Poesia. Ética. Psicologia. Medicina. Arte. Comportamento. Amor.

A NOVIDADE. A NOVIDADE. A NOVIDADE.


Até da dor todos são especialistas. Sobraram poucos anarquistas. Idealista natos, hoje, um bando de ingrato, todos a cuspir nos pratos em que não tenha sido um banquete, fartaram-se. Falta senso. Falta imenso, sangue nas veias que pulsou em outrora quando a hora cabia na hora.

Roubaram das horas a primazia. Escravos da alegria. Efêmeros. Ligeiros. Fagueiros. Trapaceiros. Traficantes de ilusões. Roubaram o dom da retidão. O posto do coração. A qualidade mudou de mão. Contramão.


[o que me faz lembrar de uma palavra recente: SAGACIDADE. Seus sinônimos, agudeza, manha, malícia, aptidão para aprender por indícios. Vontade de vomitar quando penso nessa palavra dos espertos. Dos sagazes. Ama-se o sagaz. Linda! Sagaz!
Parece o oposto da palavra ingenuidade, que de repente, parece ser a palavra errada, a qualidade retardada, a palavra da hora é sagaz. Socar a cara, dizer o que der na telha, ser categórico, dono das verdades, teóricos de araque, meia pataca, é disso que você gosta, SAGACIDADE. parabéns! ]


Nostalgia é coisa de gente esquisita. Que sobra. Que resta. Que não se encaixa nos moldes sagazes dos jogos vorazes que urgência se faz que se atrasem as horas, que volte o tempo, que regrida a história, embora equívoco notável, a história só se repete, de trás pra frente, de frente pra trás, rumo aos céus ou aos confins dos infernos dantescos onde deitaremos nossas carcaças, os bobos, os puros sem pudor, os que cultivaram o erro, o grande erro de sentir sem medir. Os despudorados de coração. O chão. Dê-se razão à

Darwin. Os fracos devem ser eliminados, os fortes perpetuem a espécie. Os sagazes. Os valentes. As grandes mentes. Que dizem coisas enormes. Que provocam nestes corações pequenos interrogações que podem soar estranhas, mas nascem das entranhas, a gente não tem manha, mas sonha, onde é a porta de saída, abrimos mão de despedidas.


Tomaram o posto dos poetas. Roubaram as palavras. Encheram de arrogância as letras. Não se faz mais poema, os sagazes controem TEOREMAS. Descobriram ao Santo Gral. São eles mesmos, os sem igual. Os raros. Nós, os ratos. Em venenos. Morreremos. Nestes tempos ligeiros, nesses tempos traiçoeiros, até pra ser poeta você tem que ser  MAIS, o nome da rosa é sagaz.


[MAS A GENTE SABE DIZER FODAM-SE!, MESMO QUE PAREÇA DOR DE COTOVELO, QUE SEJA, SAIBA DESSA DOR]



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segunda-feira, 14 de março de 2016

00:16

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era dia de poesia. e a noite, fria. esfriou sem mais. passou-se tempo demais. além do mais, gastei todos os meus ais. a palavra afastou-se, e a distância completou-se. Nunca foi pra mim. assim. tão doce. meu orgulho afogou-se. separou-se de mim, enfim. e o dia era poesia. a linda face de um poema. o e dilema resolvido. o que resta depois. o pó. o sopro. a falta de ar. a falta de chão pra pisar. a cara no espelho pra olhar. a vergonha pra encarar. a tolice. o excesso de meninice. de altas horas. de quem vive na demora. de quem nunca mais. poesia. arde feito brasa. a vontade de restar. de guardar. de rimar. de escrever pra salvar. se enganar. teimosia. hoje não. hoje é permitido. um só. um minúsculo poeminha.
 
Só porque hoje é dia de POESIA:
 
 
Trocava toda poesia
por sua boca
colada à minha,
 
linha por linha,
nunca mais poesia!
só a sua boca
na minha
 
finalmente saberia
 POESIA.
 
 
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domingo, 13 de março de 2016

19:34


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Todo momento quer ser único.
Imagino que seja difícil para o tempo também.
Imaginar-se o próximo minuto, a próxima hora,

a próxima data, o dia seguinte,
estar à beira de entrar no jogo da vida daquela pessoa,
com a vontade imensa de se fazer marcar.

Talvez o tempo nos ame.
Talvez a gente se ame. A gente mesmo, quero dizer.
Talvez a vida seja amiga. Talvez a circunstância também seja.
Em incógnitas reveladas nos futuros.
Talvez tudo anseie o prazer de ser favorável,
embora nem sempre seja viável.


[Lembro tanto dessa frase que vi num filme uma vez:
_ Até um tijolo quer ser mais que um tijolo. Ele quer ser

 parte da casa, do sonho, do abrigo de alguém.]


Nestas noites que se iniciam estranhas aos Domingos, imagino nostalgias. Não do que houve. Mas do que poderia ter sido. Ao meu lado, sinto as horas que não foram, as circunstancias que não favoreceram, sinto as partículas que não se concretizaram tão nostálgicas quanto eu.
Tudo queria ser mais. Ser melhor. Ser parte. Ser arte.
 
Embora em se tratando de arte, vejo arte por toda parte.
 
 
 
Lembro de uma ocasião pequena. Fazia escola de arte num museu aqui da cidade. Primeiro semestre. Acanhada, queria me expressar de alguma forma e mesmo tendo a certeza do não-talento fui aceita no curso. Ao final do semestre, a professora nos chamou para um exercício que revelaria os que poderiam participar de uma exposição. Levou-nos até o jardim nos fundos do museu, e mandou que a gente observasse as folhas. Os seus movimentos, as suas cores, suas formas, para em seguida nos colocar na sala dos cavaletes para, todos ao mesmo tempo pintarmos, ou tentarmos pintar a nossa interpretação de FOLHAS.
Não era boa em formas. Fazia os exercícios propostos pela mestra sempre com muita dificuldade por não conseguir traduzir a realidade e escapar sempre para a abstração do objeto proposto. Ela gostava disso, mas me cobrava disciplina nas tentativas. No dia da prova, nada de concreto me ocorria. Então resolvi apenas deixar fluir. Ultrapassar a rigidez da forma exata e pintar alguma coisa que falasse de folhas. Nos primeiros traços, nos segundos, apreensão, coragem, intercalados, verdes agressivos, até que resolvi usar vermelhos, e amarelos, e nesta hora a professora direcionou sua banqueta alta em minha direção. Senti interesse. Mas na mesma hora, dois cavaletes vizinhos onde faziam suas artes duas senhoras de fino traço e que reproduziam detalhadamente e com perfeição arvores e folhas mais reais que as reais, ouvi delas o comentário que não se fez discreto: _ as pessoas deveriam ter mais senso critico.
PQP! Travei na hora. Senti o ridículo do meu borrão agressivo, larguei o pincel, abaixei a cabeça e já seguia no movimento de fechar meu material quando a professora chamou o meu nome para ir logo mais à frente, perto das janelas imensas de vidro de onde se podia ver o jardim. Ela disse: "Nem pense em fechar seu material e partir. Olhe a pintura daquelas pessoas, está vendo, agora olhe para as folhas destas árvores, iguais, e eu quero a novidade. Estou vendo técnica. Quando olhei seu trabalho, me surpreendi pela primeira vez neste dia, eu não estava vendo um fotografia, estava vendo a POESIA das folhas do seu jardim. Agora volte e termine."
 
Foi um grande momento.  Nostalgia daquele dia e do dia em que estava lá, olhando a pintura fria e esquisita que fiz, exposta junto à tantos trabalhos interessantes daqueles alunos da escola de arte que queriam, como o tempo, como os tijolos, como as horas, como as pessoas, todas,
ser alguma coisa mais do que o comum.
 
 
 
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quarta-feira, 9 de março de 2016

00:22


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Tempo. Demanda tempo.
A dor. O amor. A angústia.
O gosto amargo. O doce.
O céu. O fel. Os véus.
Tudo quer passar.
Aos olhos.
Tudo quer escapar.
Das mãos.
Tudo quer provocar.
Os fios. Delicados.
Tudo exige tempo.
Tempo lição.
Tempo aporrinhação.
Tudo pede tempo, e
Quem manda é o tempo, e
Quem passa é o tempo.


PASSATEMPO




[Sem tempo pra vê-lo passar por mim]


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terça-feira, 8 de março de 2016

14:14

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Doa a quem doer:

Dia 8 de Março, Dia da Mulher,
flores, palavras, uns versos, alguma prosa,

mas o fato a lembrar de fato é que

[ tirando as mamãezinhas, as filhinhas, as sobrinhas, as esposinhas, as mulheres da família]

o mundo machista em vigor continua achando
tratando considerando menosprezando E SE COMPORTANDO em todos os cantos como

 se mulher servisse só pra METER.

[E É COM TRISTEZA IMENSA E CONSTATADA QUE ESCREVO ISSO]


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domingo, 6 de março de 2016

15:50


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O lado bom da crítica repetida e repetida e repetida é que você acostuma com ela. Vira balela. Se expor é um lance sacana. Quase uma auto sabotagem. No início parece que falta peça na engrenagem, mais aos poucos você percebe até vantagem e rola solto na bobagem.
 
Não fazer sentido é libertador. Conhecer o que pensam de você, idem. E vice e versa. Versos livres. Rimo e sou o que quiser.
Sou puta, pergunta, _ Sou puta. Sou dramática, pergunta, _sou dramática. Sou paranóica, pergunta, _sou paranóica. Sou sem noção,pergunta, _ sou sem sem noção. E danço até o chão. Perde tempo criticando, não!, sou um caso sem solução.
 
Por isso, dou-me o direito de falar do que eu quiser, inclusive de AMOR. E sem pedir licença. O verbo amar é meu. Tanto quanto seu. E de todo mundo. Ninguém é dono do verbo, talvez dos advérbios, mais ou menos ébrios, falo e faço o amor que puder.
 
Embora dele, do amor, saiba quase nada.
 
Sei, ou desconfio, do que ele não seja, e com certeza amor não é ter que mudar. Se você não pode ser amada como é, então, é furada. Roubada. É fim da estrada. Ou encruzilhada. Muitas vezes é o que acontece, a gente vai seguindo, tentando fazer bonitinho, e a bifurcação surge:
 
ser ou não ser,
quem sou ou quem deveria ser,
mudar pra agradar ou se autenticar...
 
 
Quem ama agrada. Mas não TEM QUE agradar. Quem ama não prende, mas também não afasta. Quem ama quer se surpreender, mas também quer ser surpreendida.
 
Me lembra o verbo PROSTITUIR.
Algo em troca de algo.
 
Amar é pra sorrir. Isto tem quem ser fato. Se não for, vira relato de dor e tristeza por não aceito como se é. Coisa de mané.
 
Mudar é importante. Evoluir. Melhorar. Se estender. Perceber e ir além. E o amor nos permite isso. O que não significa sem limite.
 
 
ás vezes a gente cruza com uma pessoa que parece uma ave rara, voo lindo, asas longas, canto sereno, sedução sem fim, e a gente quer amar aquele pássaro, a gente quer pra perto, a gente quer pra gente, a gente quer porque quer. Só que às vezes, a gente não é da mesma espécie. A gente é uma ave mais calma. Mais casa, comida e roupa lavada. Mais um do outro. Mais démodé. Mais antiquado. Nossas asas são normais, nosso canto até desafina, não tem como virar ave de rapina da noite pro dia, nem do dia pra noite, nem tem por onde. Não bate. Não rola. Não combina. Cada macaco no seu galho. Amor não se presta a quebrar galhos.
 
Então você aprende que não tem como.
 
 
Aprende que, às vezes, ou até, frequentemente, querer não é poder. Não tem como se adulterar, se macular, se judiar em nome do amor. Porque não deve ser disso que se trata o amor. 
 
Penso até que o amor parte do pressuposto de um SIM.
Sim, você é doida, mas eu gosto da sua loucura. Não quero te empurrar goela abaixo uma cura. Quero te abraçar e mergulhar na sua loucura. Amor é complicado demais pra gente ainda por cima ter que se mutilar. TER QUE ACEITAR. Amor é aceitar e ponto. E não 'ter que'.
 
O que tem é que ser bom. Ser junto. Ser querer por perto. Ser preferencial. Ser diferencial. Ser desejo. Ser ansiedade. Ser ciúme, sim, ciúme medido, porque pouco caso no amor não existe, querer pra si coexiste.
 
Amor é sem cabimento, e é de um descabimento sem tamanho pensar que o amor aguenta a ausência tanto quanto supor que não vai haver dor quando se é preterido.
 
Amor te faz, sempre, PREFERIDO.
o MAIS QUERIDO. o ser mais que bem vindo.
 
Se não for assim, não é amor. Nem pra um, nem pra ninguém.
 
E amor que suga o natural do seu ser pode ser chamado de tudo, menos de amor, coração!
 
Surpreendente é o nome da LIÇÃO.
 
 
 
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quinta-feira, 3 de março de 2016

22:22

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Aí um anjo lindo disse _ fica!
E eu fiquei.
 
Nasci outra vez. Estranho pensar na palavra nascer. Parece que a gente só faz isso uma vez, mas nasce sempre. Todo dia.
 
Feito as palavras. Sempre repetidas. Feito as intenções. Mesmo as descabidas. Feitos os sonhos. Tão longínquos. Feito as ilusões. Sempre desmedidas. Feito o sol da manhã,  e sua luz  refletida. Feito a lua no céu. Mesmo entre nuvens escondida. Feito o amor. Nunca merecido. Feito a esperança. Mesmo a mais criança. Feito a vida. Que paga a fiança. Na confiança. Renascida porque sim. Mesmo que não. Me dá sua mão. Deixa nascer. Ou renascer...
 
Segue a dança.
 
 
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16:06

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Fico pensando se essas fossem as minhas últimas palavras aqui escritas. O que seria mais importante dizer. Ainda. Vida que finda. Ou inicia. Reinicia. Começa. Atravessa a exclusiva palavra 'fresta'.
 
Amontoado de nada por nada eu fui me salvando como podia da insistente agonia que nos permeia, nos rodeia, à uns, sem quase incômodo aparente, à outros, sublimadas com efêmeras emoções, aquisições, tanta gente no mundo, quanto mundo, meu Deus!, e tem uma tipo de gente feito eu, substância mínima, confusa, imatura, quase infantil...
 
Queria ter sido um monte de coisa na vida. Bailarina, sobretudo. Dançar dia e noite até os pés não suportarem mas ainda estarem prontos sempre, para a apresentação da beleza, da realeza que é tomar o corpo e oferta-lo à uma arte, aos gestos, à delicada inspiração...
 
Queria ter sido cientista, uma astro-física renomada, conhecer os movimentos celestiais, viver dia e noite com os olhos naqueles instrumentos que permitem, que ilusão!, tão somente a observação. O vai e vem do mistério. A noite. A esperança. O menor sinal virar um motivo de comemoração. Queria brincar de espiar as artes de Deus.
 
Queria também ser jornalista. Dessas que viajam o mundo cobrindo os movimentos do mundo, os acontecimentos, passá-los o mais perto do real, informar, levar a verdade à passear, a inundar as mentes, escrever urgente em alguma matéria sensacional, tipo, descobriu-se a cura, houve paz a essa altura, a cultura como assunto principal...
 
Queria ser cozinheira. Queria ser aventureira. Queria ser costureira. Queria ser essas enfermeiras que dão o primeiro banho nos bebês no hospital. Queria saber tirar a dor. De dentro das pessoas. De fora das pessoas. Com as minhas mãos. Com as minhas palavras. Que fosse com os meus ouvidos. Queria ser atriz. Viver num palco. Mudar toda hora de ato, de hiato em hiato, viver e morrer tantas vezes que não temesse mais nada que não fosse o chão.
 
O frio. O chão. Queria ter sido um monte de coisa. E ainda mais. Queria ter sido mais doce, mais compreensiva, muito muito muito mais amiga, ter sido divertida, sobremaneira queria ter sido atrevida  o suficiente para ter uma coisa contente por dia, pra guardar num baú de lindezas, ah como eu queria!, ter dado mais alegria, ter vibrado de euforia a cada nascer do dia,
 
A gente pensa nisso, sim, em quantas vezes o sol nasceu nesses tempo de vida, e no quão poucas foram as vezes em que acordou para ver. Ao lado. De. Correr. Como eu queria ter corrido. Vivido de doer. Fazer o pulso sentir-se querido não por pouco, sobreviver é poço, fundo, queria ter abraçado todo mundo antes de sentir parte de um fim.
 
Assim. Dream. Descobrir. O que. O que. Quando. Como.
 
Um amontoado de nada eu escrevi aqui. Um amontoado de nada eu tentei fazer existir. Mas nunca, nunca, nenhum dia eu deixei de sorrir. Poderei dizer às estrelas, às esferas, às partículas que eu sorri sim, todo santo dia, pelo menos uma vez por dia, eu fiz um carinho no dia, e sorri.
 
Não fazer sentido é um prazer, meu caro!
Espero que descubra isso, e consiga, exatamente por isso, um motivo pra sorrir.
 
 
[a foto do taxi não é pra fazer sentido, é só que eu gostei. E vou]
 
 
 
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