quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

20:31

.

Sobre ESCREVER.
 
 
Houve um tempo em que o que havia era a pena. Ao lado dela, o tinteiro. Havia a pena, a tinta e o papel. Sobre uma mesa. Em frente à um ser estranho  que fazia-se voz  neste conjunto. Talvez a luz fosse a vela. Talvez a cor fosse a amarela. E talvez o tom das coisas escritas lembrassem mais a pátina de uma aquarela do que a explosão de cor que ninguém suporia, iria haver. Nesse tempo o que havia era o tempo passando mais lento. Fora isso, havia o nada, o amontoado de nadas que se multiplicam até hoje, em tempos de letras rápidas, pensamentos lépidos, raciocínios intrépidos, e o ontem. Tanto nada e já é ontem.
 
Um amigo usou o termo. "O que escrevemos não passa de um amontoado de nadas". E mais o pressuposto que de fato, somos nada. Viemos de um nada que ninguém sabe explicar. Voltaremos para algum nada que ninguém se atreve sequer a pensar.
 
 
Há quem fale. E saiba bem falar. Há quem cante, e saiba bem cantar. Há quem dance, há quem construa, há quem cozinhe, há quem cuide, há quem cure, nadas e nadas na tentativa de trazer algum sentido ao vazio. Não fui quem criou o vazio. O vazio nos criou. Muitos fazem bem o que fazem. Outros apenas o fazem. Porque é o que nos cabe. Fazer. Bem ou mal feito, fazer.
 
Cantam-se nadas em chuveiros, mas há o direito a cantar. Dançam sem graça muitos nadas na avenida, mas há o direito a dançar. Aprender faz-se no tentar. Cozinhar com maestria não desmerece o arroz que saiu uma papa, pois há o direito a tentar, aprendizes, amadores, estamos todos de passagem, prezados, fazer bem, _ que sorte você tem!, mas há quem faça meia-boca mesmo, se atrapalhe, tenha que refazer muitas vezes, e há quem tente e tente e não aprenda, mais nem por isso é-lhe privado o direito de fazer.
 
Como escrever. A pena, o tinteiro, o papel, as máquinas de fazer as letras voarem mais rápido do que o som, estão a disposição dos que bem fazem, e dos que nada fazem além de amontoar nadas sobre nadas, mas ainda assim, cabe-nos, e nesse caso me incluo por repetir o vazio e o nada de forma desconsertada, cabe-nos o direito de escrever, sim! Foi paga a pena, a tinta e o papel com os níqueis que saíram dos nossos bolsos. Se não escrevemos nenhum colosso, é só porque não somos esse talento estrondoso, somos os tímidos, os reprimidos, os não escolhidos, os que fazem da escrita um nada que nos abrigue nesta estrada cheia de nadas.
 
Porque no final, bem feito ou mal feito, bem escrito, ou um lixo, voltaremos ao pó, nossos papéis, nossas tolices, nossa completa falta de sentido, voltaremos ao que somos todos, os mais lindos, e os desmerecidos, um amontoado de nada, relatando lindamente ou de forma errada,  que o que resta é o que é, e o que  sempre será,   um monte de nada sobre nada, e mais nada.
 
 
*
 
 
 
[Afora isso, a porta da rua, é a serventia da casa. Perdão!]
 
 
 
*

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

17:27

.

 
Daí o assunto LIBERDADE entrou no salão para dançar. Não houve quem não parou pra olhar. Suas vestes, seu caminhar, seu olhar a desafiar quem sem atreve, suspiros, espanto, como pode tanto encanto por aqui se aproximar. Dança só. Não escolhe ninguém como par. Liberdade é uma miragem pra quem tem coragem de olhar. E todos olham. Embasbacados de vontade de tocar.
 
............................
 
 
Um paizinho lindo de barba clara. Uma bicicleta de dois lugares. Uma menininha linda, vestido cor-de-rosa, cabelos cacheadinhos, claros como os do pai, na garupa, agarrada naquele ser que seus olhos declaravam herói, passeando contra o vento, a favor do vento,  rindo os dois, às gargalhadas, divertidos,  bonitos, nem acredito no que meus olhos veem, uma poesia sobre alegria em frente aos meus olhos passando, desfilando em um ensolarado feriado de carnaval.
Ecoa nos meus ouvidos um terceiro riso. Feliz, feliz.
Sim, um terceiro riso!, o paizinho, a garotinha linda e a LIBERDADE.
 
 
Pude vê-la ao vivo e em cores. Eram só amores. Babava até de se ver viva na espontaneidade do momento daqueles dos amáveis seres que mergulharam no amor sem medo, vi a  liberdade mudar de nome, FELICIDADE.
 
.................................
 
Por outro passeio, desta vez na rede, passei por um jardim esquisito, cactos, bonitos mas, ásperos, fazendo-se valer da liberdade de se expressar. Um dos espinhos se ardia em palavras contra o direito do escritor ser prezado somente quando não fala de suas particularidades e  quando não se expõe de forma pessoal. Tomei a pedra por todos os autores que fazem uso da palavra de forma absolutamente pessoal, Clarice, Manoel, Rubem, Raquel... Eis a LIBERDADE, de uma forma ou de outra, visões são sempre pessoais. A palavra não é nada desprovida de vida. De energia. De detalhes. De exposição. De enredo. De algo que agregue à ela uma substância infalível: a experimentação.
 
Vi a liberdade ali também. Arrogante. Pretensiosa. Toda prosa no palavreado, e vi a mesma liberdade instigar-me aqui, exercida no direito de quem escreve, não uma artista, mas uma equilibrista que dança na corda bamba com as palavras,  quero expor,  expor que horas acordei, o que sonhei, a cor da minha calcinha, no caso, hoje, preta, de renda combinando com meu sutiã de alças finas, e ainda falar das dores, dos bálsamos, das simplicidades que de tão simples fazem-se complexas como só a liberdade saberia explicar.
 
.........................................
 
Penso ainda mais sobre a liberdade. Nos seus extremos. Onde a sua realidade se faz. Efêmera, linda, reluzente, toda gente já teve um ou mais instantes que permitem relembrar.
Porque desconheço sensação mais livre do que mãos que se dão. No começo de uma estação. Na primavera de um romance que se inaugura. É tanta liberdade que ultrapassa a possível sensação de prisão que uma paixão possa sugerir. Livre querer de juntar os corpos. Livre delírio de alcançar juntos um prazer onde a liberdade se confirma, e geme tanto ou ainda mais, porque a liberdade é quase isso, uma felicidade. Ao menos quando se decide assim. Liberdade não é exatamente uma opção. Muito menos a felicidade. Mas quando a circunstância faz-se vizinhança, abram-se os portões.
 
........................................
 
Aí lembro do preço. Não há nada na vida que não cobre seu valor. Correspondente. O paizinho e sua linda menina passeando de mãos dadas com a liberdade, e claramente  com a felicidade, têm mais responsabilidades do que eu possa supor admirando-os e morrendo de amor. A pessoa que critica provoca o atrito, paga o preço do conflito que toda palavra, quando é dita, livremente, instiga, e a resposta, e a palavra, e o compromisso que poderia ser livre à todos, aquele de fazer-se livre pra o que conta, liberdade pra cabeça, abraço, beijo, festa, floresta, orquestra, ballet, o sabor daquela comida delicia, os cabelos cheirosos no afago das mãos de quem se quer, e que te quer também, correr na chuva,  livres se sentem os pingos quando precipitam-se em queda, assim como livres são as flores que engolem os pingos para livres virarem seiva, essência, liberdade justifica-se na felicidade que se alcança.
 
........................................
 
Esperança. Não sou livre. Ninguém é. A gente se faz só. Assim como feliz não se é, se está. Quando se quer. A roda é maior. A música que toca define os passos da ciranda. Sonhamo-nos livres. Mas estamos presos. Presos no corpo, presos nos desejos, presos nos amores, presos nos receios. Estamos presos nos vícios, presos à beira de abismos, presos nos pensamentos, nas dores, nas esperas, nas demoras. Presos nas chegadas, presos de partida, estamos presos na gravidade do mundo, da órbita, dos costumes, das morais e ditames, estamos presos nos julgamentos, presos dos sentimentos que nos aprisionam em tristezas, em fraquezas, somos livres sem grandeza.
 
...........................................
 
Feito a lua. Só parece. Feito as estrelas. Só parecem. Feitos os astros. Só parecem. Feito as partículas que compõem o Infinito. E só parecem. Livres. Felizes. Somos espiões da aparente liberdade alheia. Somos observadores da felicidade que paira breve, nossa, do lado, passeando agarrada ao pai, cabelos ao vento, nem o vento, o elemento de aparência tão livre, refém também, das correntes, dos comandos, dos controles. Nada sobre controle. Tudo nos escapa. Tudo nos detém.
 
 
..............................
 
E o que convém. Não me convém sair. Não me convém me arrumar pra sair. Me convém me perfumar pra ficar. Minha liberdade é ínfima. Mas eu a exerço do avesso. Flerto com versos. Com palavras que me revelam comum, a mais comum das mortais, minha liberdade se faz escrita, lida, vivida nos pequenos gestos, no amor que invento, na lamento da paixão que aguento, nos meus objetos, nas minhas músicas, quando quero danço, quando quero choro, quando quero sonho, quando quero mando às favas, quando quero me iludo que posso, mas não posso, e sou livre pra saber que o limite não existe pra mim. Ele existe pra você.
 
.........................................
 
Daí eu lembro do mar. O mar imenso. Azul. Sempre azul em tons. A onda vai. A onda vem. Lembro da sensação quase erótica de entrar em suas águas, as águas  penetrando todo meu corpo, um mergulho, o corpo solto, boiar com azuis por cima, com azuis por baixo, avanço, mar adentro, não tenho medo, e copulo com o mar suavemente, sem que ninguém veja, sem que ninguém perceba, exceto ela, a LIBERDADE.
 
A liberdade de não querer ser livre. A felicidade de não querer ser feliz. A livre felicidade de me aceitar cativa de mim.
 
 
 
*
 
 


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

22:12


.

 
Recebi um poema de presente. Um encaixe de rimas expressivas, vibrante composição de sentimentos, ponto a ponto enlaçados, desenhos delicados e coloridos que me fizeram sentir querida, e como é bem vinda a sensação! Um afago em meio à tormenta.
Junto ao poema, metáforas de coração. Num bem feito pacote de presente, laço de fita, caixa bonita, um mundo de novas palavras pra eu usar. Um bilhete que dizia:
_ Todas as palavras são suas.
 
Quase encabulada, agradeço. E me comprometo à usá-las com mais suavidade. Curiosa que sou, abri sem cuidado o presente, um mundo de palavras só minhas, antes de abrir já pressentia a alegria de subirem à minha frente as cortinas para novos atos. Experimentar novas sensações através das palavras. Fazer delas novidade. Explorar a variedade infinita que uma única palavra é capaz de navegar. Palavra é mar de possibilidades, precisa é habilidade para fazê-las tocar. Palavra que vire toque. Tentar tocá-las sem desafinar. Ouvir-lhe a melodia. Uma por dia...
 
Então, encontrando-me em meio desse mundo de palavras, fiz o sorteio de uma, ao acaso. Uma palavra para o dia. Uma palavra para expressar algo que ultrapasse a agonia dos dias recentes. SUAVIDADE foi a sorteada. Sorte apreciada. O dia transcorreu suave como suave estava o gosto dos pastéis de Belém, saboreados sem pressa no Doce Fado.
 
Começo do dia.

Não lembro o que sonhei. O que já é uma vantagem. Sei que chorei no sonho porque o travesseiro estava úmido. Mas como devo experimentar novas emoções, posso considerar um choro de alegria, o choro por alguma coisa genuína, algo que de tão bom,  fez-se molhado, mas não quis ser lembrado, pra não ser maculado de expectativas.
 
Acordei tarde. O café da manhã foi servido tarde. E já era tarde quando resolvi bater pernas pela cidade. Um banho, e os cabelos soltos ao vento. Não deu tempo de saber como você os preferiria: soltos e rebeldes, ou lisos e comportados. Eu escolhi soltos e rebeldes, e cada fio vibrou de alegria pela liberdade de sacudir-se ao carinho do vento, acrescendo ao meu rosto uma rebeldia delicada, um ar de expectativas, porém, controladas.
 
A curiosidade reside nos olhos que avisto. Deixei que meus olhos sorrissem um pouco, dar-lhes um tempo, cansa ser olhos de lamento, ardem  de tanto  tormento, dei-lhes folga, saí pra ver o mundo em recreio, e creio que fiz bem. Meus olhos à tempos não se sentiam tão bem. Zanzei sem compromisso. Deixei o relógio em casa. Não fazia diferença nenhuma as horas, de vez em quando é bom não marcar o tempo que insiste em tiquetaquear que não sou sua.
 
Pelas ruas da cidade um sossego raro. Todos nos litorais. Restam os contidos, os recolhidos, os tímidos, os introvertidos, meus preferidos, que na pausa não falam, sussurram sem pressa, como se o mundo lhes fosse de uma calma secreta, uma confraria de prazeres discretos. Nada contra os baderneiros e seus pandeiros na cadência do samba, mas bamba é esse silêncio bonito, nada de atrito, o acesso é restrito, há que se ter um coração aflito pra se aliviar enquanto os alegres saem pra viajar. É um alívio. Os gatos saem e os ratos fazem a festa.
 
Voltei já era noite feita. Um calor quase carinho. Uma brisa suave, e um chá geladinho de gengibre, tudo aberto, tudo livre, a noite também quer ver o desfile da suavidade passar.
 
No meio desse devaneio suave, agradeci as felicidades. Tenho tanta coisa pra agradecer, e não se trata de esquecer, mas só fiz me aborrecer nesta falta de você,  entristecer faz a gente desconsiderar o que há de bom. Inclusive na perda. Inclusive na rejeição. Inclusive experimentando o chão.
 
Reconhecer. Enquanto zanzava pelas ruas da cidade pude refletir sobre mim. Sobre essa nova que surgiu em mim. Que você trouxe. Pelas mãos. Já te agradeci por isso. Nos relatos enviados quando você se refugiava nas suas montanhas. Lembrei do que escrevi. E não menti em nenhuma palavra. Você me acresceu. Minha ideia de vida cresceu. Meus pontos de vista. As emoções. Talvez se justifique essa resistência em te esquecer justamente porque o melhor que a tempos em mim não via, tenha vindo através de você, e foi tão bom, tão vibrante, tão delirante me ver nos seus olhos refletida como a mais bonita, a mais querida, como não lamentar perder um sol desse tamanho, um sol que me acendia e deixava minha pele em chamas, enquanto por dentro a alma era só  dança,  alma que canta, a alma não se reconhecia tão cheia de encanto e o pranto, de quando acaba, é o mínimo porque literalmente tudo vem ao chão. Corpo, coração, mente, e a alma, ah, a alma!, foi um baque, ela ainda não aceita, segue contrariada, tão boba, se sentiu amada, e agora somos eu, meu coração e minha mente tentando fazer com que  ela, a alma, volte a ser uma menina animada.
 
Alma minha. Suave na nave. Um dia de cada de vez. Uma palavra por dia. Os olhos haverão de enxergar novas alegrias pra te fazer consolar, devagar, até que chegue um dia em que não mais haverás de chorar. Ganhamos de presente todas as palavras. Farei todo o possível pra escolher as mais delicadas, aguenta minha alma, se não nos é possível esquecer,  pelo menos vamos desanuviar a tristeza, vamos nos lembrar da beleza que tanto nos encantou, quem sabe um belo dia, haveremos de acordar refletidas dentro de nós mesmas, bonitas, eu você o coração a mente, tudo junto, quem sabe até o moço chega junto, e a tristeza resolve passar. Um dia ela vai passar, um dia ela vai passar.
 
 
*

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

17:21

.

É que se a beleza não vem, você tem que embelezar. Se a alegria não vem, você tem que alegrar, se a saudade não passa, você tem sentir, e se a paixão não cessa, você tem que sangrar, se o acaso não conspira, você aceita e pira, se a lágrima quer cair, você não tem como reprimir.
 
Porque existem as ventanias. E elas são de ir.
Porque existem os temporais. E eles são colossais.
Porque existem os amores. E alguns, oceânicos.
 
E você tem que se afogar. Deixar cada gota te levar.
É que se tem vida, você tem que viver. Se não tem acolhida, tem que correr. Se não existe a fome, é quase um morrer. É na sede que não se pode ceder. É que quando é pra acontecer, a gente só precisa comparecer.
 
Porque existem as vontades. E elas são fome.
Porque existem os destinos. E eles são norte.
Porque existem os avisos. Asas de sorte.
 
Ou não. É que quando existe a dúvida, você tem que escutar. É que quando dá bandeira, você se ajeita, mas se alguém te rejeita, você faz que aceita, porque existem as escolhas, e em alguma delas você vai sobrar. E se arder, tem que soprar. E se for de entristecer, a gente tem que fazer sementes pra renascer.
 
Porque existem os caminhos. E eles não param.
Porque existem os carinhos. E eles falham.
Porque existem os enganos. E como eles falam...
 
 
É que quando o coração bate, você tem que respirar. É que quando está frio, você conhece o arrepio. É que quando um coração se abre, você tem que ser doce. É que se existe o abuso, você tem que suspender o uso, é que quando fica escuro, você tem que se acender pra iluminar.
 
Porque existem os medos. E eles não tolos.
Porque existem as manipulações. E elas não são máquinas.
Porque existem as asperezas. E elas ferem as delicadezas.
 
 
É que realmente existe a beleza. E dela a gente quer a cama e a mesa. Precisa saber fazer sobremesa. Com calda de framboesa. Servir com a proeza de uma fina meretriz, sem perder a classe naquele triz que desperta as cenas, sereia, princesa, submissa, agressiva, ordinária, extraordinária como uma atriz.
 
Porque existem as fantasias. E elas são reais.
Porque existem as loucuras. E elas são divinais.
Porque existem as urgências. E não há tempo, elas são terminais.
 
 
É que existe a vida. E não tem como evitar as armadilhas. Os lobos uivam, eles precisam  seguir com a matilha. É que existem os sonhos. E eles devem ser acordados. Devem ser realizados. Os sonhos precisam ser superados para serem alcançados.

porque existe o sonho.
 
Porque existe você. E você é imenso
Porque existo eu. E eu sou mínima.
Porque existia um NÓS. E os nós, às vezes, nos largam à sós.
 
É que existe a vida. E a vida é assim. Porque existe o fim.
 
 
*
 
 


quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

21:36





.

 
Tenho tido sonhos ruins. Dias ruins. Sensações ruins. Estou ruim agora. E é muito ruim se sentir assim. Tive um sonho especialmente ruim na noite passada.
 
Sonhei que acordava no meio da noite. Ao acordar, acendia uma pequena lâmpada azulada do abajour de cristal que ganhei no natal. Ao acender, no entanto, a luz não era mais azul, mas cinza. Um cinza assombrado. Estranhava a cor no abrir dos olhos, quando percebia que o quarto estava todo pichado. Todas as paredes, todos os lados, tudo riscado à carvão. Pelo chão, tocos de cigarros, alguns ainda mal apagados, misturados aos pedaços que restaram do carvão. Assustada eu corria pra sala, e mais daquela palavra pichada. Rabiscada. Em todas as formas de letra, de todos os tamanhos, estranho presságio. Era a palavra o que mais me assustava, mais que todo estrago que percebia. A noite estava fria, a pele arrepiada fazia  perceber que a chuva fina respingava pra dentro pelas janelas vazias de imagens e cortinas igualmente marcadas e rasgadas.
 
Tua foto, que guardava no porta retrato de prata, estava rasgada em mil pedaços, e o vidro quebrado revelava que alguém se cortara. Havia gotas de sangue no chão. Então me dei conta, dentro do sonho, de um som. Sinistro eco da palavra reverberava estridente numa repetição alucinante em vozes multiplicadas como um coro desarranjado de maestria. As portas estavam todas abertas, as chaves sumiram, corria de um lado para o outro, desci de pronto a escadaria, e lá fora, o eco se alastrava pela calçada, onde todos os anúncios repetiam a palavra.
 
Placas de trânsito, placas de lojas, placas de carros parados, placas de propaganda, panfletos esquecidos no lixo, um jornal largado no banco do ponto de ônibus trazia, em letra garrafal, a palavra em plural, por toda parte, tudo igual, a palavra, insistente, um ônibus parado trazia como destino a palavra, na porta da loja de flores, a palavra, no açougue, na locadora, na padaria era a oferta do outro dia,  no jardim de infância, e uma ânsia desesperada de entender me fez correr, a rua ao lado, a rua acima, a rua abaixo, tudo vazio, tudo repleto desta única palavra.
 
Meus ouvidos, minha cabeça, latejam com o som que só aumenta o eco de palavra, quanto mais me distancio de casa, mais vozes entram no coro, mil tons, fantasmagóricas notas anunciavam a palavra, volto pra casa, em disparada, são três horas da madrugada, olho pro céu tentando uma súplica, vejo que as estrelas sumiram, uma nuvem gigante resta apenas, um desenho mal formado da maldita palavra.
 
Na sala, onde tudo é esta palavra, num segundo de distração, olho minhas mãos e percebo que estou toda marcada, mãos, braços, pernas, ventre, seios, meu rosto, olho no espelho maior, dou-me conta da nudez vestida por esta triste palavra em mim riscada, uma de cada vez, a ferro marcada.
 
A palavra que mais me assustava, a palavra que eu tanto evitava, a palavra que eu jurava não ler, não querer, não considerar, não aceitar, refutar com todas as minhas forças, a palavra que não tinha cabimento, o atrevimento da palavra que não permitia o arrependimento, a palavra que tornaria o afastamento definitivo, todo seu teor aflitivo, a palavra que eu não queria ouvir, a palavra na qual me negava refletir, a palavra que te tirava de mim, assim, por todos lados, anunciada, a palavra mais odiada pelo meu coração, a palavra que superava o não sequer pronunciado, definitivamente, revelado,
 _foi justo esta a infeliz palavra que a minha mente acumulava:
                                     .NUNCA.
 
Nunca, nem nos meus piores sonhos, houve palavra mais fria.
 
 
*
 
 
 
 
 


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

20:41

.
 
Se rasgar
é pra quem sabe
REMENDAR
 
 
 
*

19:29

.


E ONDE MENOS VOCE ESPERAR.

[Capital Inicial, Eu vou estar]



*

17:29

.
 
 
Não seria correto considerar que te chateio com meus escritos, considerando-se que aqui é a minha casa, e sendo minha esta casa, boto nela as cores que eu quiser. Falo as merdas que eu quiser. Subo o volume da música que eu preferir. Ando nua se assim desejar, grito, canto, danço na varanda pra Iemanjá, acendo mais velas que posso contar, durmo na sala, viro o quarto de lado, penduro coisas na janela, coloco toda teimosia pra cozinhar em banho maria enquanto tomo um banho de água fria pra me relaxar. Você pensa que eu sou vazia. Que eu preciso de você pra me preencher. Pra fazer acontecer. Como se eu não existisse...
 
EQUÍVOCO
 
Eu para comigo, encho de sentido cada fragmento que se sonhe vazio. Meu temperamento é o excesso. Minha virtude é a paixão. Minha única falta de medo é a solidão. Não sou só. Nem sozinha. Vivo em meio à mil companhias. Reais. Inventadas. Tenho virtudes aladas. Que me permitem ultrapassar. Nada passa. Só o que eu quero que passe. Daí é um sumiço sem volta. Se você está aqui é porque eu quero. Suspeito que quero demais. Sou eu que aguento os meus ais. Se tem visita, só posso dizer o reclame: _ desculpa a bagunça, senta ali, na balança, enquanto procuro uma bebida pra gente tomar. Água de cores. Uma jarra de vidro, agua com gás, e frutas coloridas dentro. Gotas múltiplas de limão. O acréscimo de álcool fica em suas mãos.

Não seria má companhia na sua vida. Pareço excessiva como uma invasão, mas é só uma impressão. Na verdade, gosto da introspecção. Se bem que teria aquela coisa da emoção, sei não, desconfio que seria sua do jeito certo. Pelo menos na minha imaginação. Que não aceita o não. Acontece de fulano querer sicrana, que quer beltrana, que sei lá, blablabla, o excesso de afeto dos outros me irrita também. Penso se os meus excessos de te querer soam incômodos, cômodo por cômodo confiro se deixo pistas de você, me alivio, mas não suponho, vai que né...

Você disse que me queria para além das minhas retinas. Queria sua a alma minha. Guardei esse dito. E nela você está. E em tudo mais como a canção que acabou de tocar. Nos meus lápis, sobretudo, Tenho muitos. Todos com a ponta sem apontar, alguns quebrados, de todas as cores, resolvo dar um trato neles, aproveito pra contar: 162 lápis de escrever. Todos apontados e distribuídos de forma bonita, bem na minha vista. Como são lindos. Como estão repletos de saber. De você!

Mas o que seria do lápis sem o papel... De onde conclui-se que tenho muito papel. Cadernos de capa-dura, muitos, agendas, pequenas, imensas, tenho a letra grande, corrida, ocupo um página toda só com meia dúzia de palavras, e ela só foi aumentando, a minha letra corrida de tanto escrever teu nome perfeito pra fazer par com o meu.

Embora não saiba o seu nome. O seu nome de dentro. O nome que te toca. O nome que chama. O nome que te desperta. O nome que te coloca em alerta. O nome que usas pra fazer serestas, pra atravessar as frestas que te consomem, coisa de homem essa coisa de não querer se envolver, desaparecer, deixar-se fazer crescer pra depois do susto ou do riso ou do gozo, sentir o vento soprando em seu rosto, chamando outros mundos pra explorar.

O que faria a diferença. O que te faria ficar. É uma pergunta que insiste na ponta dos meus lápis. Persiste em cada folha de papel em branco que eu volto a rabiscar. Teu nome. Quero o teu nome. O único nome de homem que me faz uma coisa na alma, e me arrepia cada centímetro de pele, pele em branco, minha pele, que você não quis explorar.

Não vou chorar. Não hoje. Não na semana de Iemanjá. Não quando penso que a vida é um ir e vir constante. Não quando eu me sinto assim, flamejante de lembranças, e a casa é minha, e eu faço nela o que eu quiser. Escrevo seu nome na paredes. Desenho corações. Estrelas. Lua. Céu. Desenho o vento que te leva, desenho o vento que não te traz. Escrevo meu nome junto ao seu. Esse mundo aqui é meu. Esse mundo agora é seu. Um pedaço seu que virou meu, esbreveje você quanto quiser, não se entra na alma de uma mulher insana sem assobiar e chupar cana, faço a cama que continua sendo o seu lugar,  o seu trono, o meu sonho, sim meu SONHO, todo mundo sonha, me deixa sonhar em paz, tanto faz se você me engana,  olhar o infinito, os atritos que fazem a energia navegar, eu nem ligo, mantenho a chama acesa, porque eu quero assim, porque eu sou assim, e porque  só eu sei o que você significa pra mim.

Eu amo o infinito.
Eu tenho um infinito em mim.
E é um infinito de você.



*

domingo, 31 de janeiro de 2016

00:00

.

se eu soubesse o quanto
isso ia doer
teria construído um muro
intransponível
inacessível
teria me feito
invisível,
 
 
razão estranha
essa vida
tudo de ruim se repete
 
só as coisas bonitas,
 estas,
NUNCA ACONTECEM.
 
 
 
*

20:00

.

 
Dez horas da manhã. A cama não mais convida. Levanto com  espanto, como todo dia. Passo pelo espelho grande, olho meu reflexo, e é nesta única hora do dia que me acredito bonita. Acordo com jeito de menina. Cabelos bagunçados, olhos apertados, um ar de surpresa que não se explica, meu corpo parece até um convite sob a camisola de malha preta. Todo dia passo por esse espelho. E todo dia diante dele paro e penso: Ele me acharia bonita pela manhã. Daí a beleza se arrasta pelo resto do dia inconsolável, vai se perdendo no eco de um não, até se confirmar desfeita.
 
Silêncio de um dia de Domingo. A casa quieta. Dormiram todas as janelas abertas. Tem sol, tem nuvem, tem calor, tem aqueles raios de claridade que deixam a casa com outra cor. Cor de qualquer coisa bonita. Um cor que você acredita. Vou até a varanda. Preguiça de acordar pro fato. Preguiça de voltar a dormir. Preguiça de carregar essa sensação. Mal acordei e já me dói o coração. Arrasto meus pés descalços até a cozinha. Ladrilha fria.
 
Laranja, mamão, tangerina, umas fatias de pera, outras de maçã, numa tigela de vidro amarela. Na boca um leve frescor. Penso num beijo matinal. Um beijo de malemolência, não desprovido de ardência, e aquela urgência que parecia que, na minha mente, seria tal e só faria-se aumentar. Espanto o pensamento. Vai virar lamento e ainda é cedo pra tal.
 
Sento no banco forrado de almofadas floridas. A velha árvore do jardim faz a sombra que se alonga sobre o dia. Sinto pena da árvore. Deve ser dureza ser árvore. Anos e anos ali, no mesmo lugar. Presa pela raiz que se cortada, não lhe resta nada. Suas folhas se soltam e voam, seus galhos caem e se transformam, os ninhos dos passarinhos comemoram novos pássaros, saem todos em revoada, e só a árvore resta ali. Dou um sorriso amarelo para a velha amiga árvore. Te entendo, cara amiga! Não vou te deixar sozinha. Confia. Lembro de como me disse isso aquele lindo alguém: confia! Confiei. Sigo confiando como esta árvore que deve crer-se livre por não haver outro fim.
 
A noite foi confusa. Houve pedras na janela. Os vidros não quebram porque deixo abertas as janelas. Por prudência, no entanto, deixo a cama longe. Por saber da existência dos jogadores. De pedras. Vez ou outra, quando cochilo, finjo no sonho que são flores, recados de amor, bolhas de sabão,  mas quando as pedras são jogadas com não poupada violência, eu acordo com o barulho, me assusto como se fossem alguma novidade, avisos maldosos, defeituosos gestos que nesta noite com mais uma pedra quebraram um vidro de perfume lindo . Atingiu a penteadeira que foi da minha vó. O vidro caiu no chão e o perfume suave se espalhou. Um segundo antes eu sonhava com flores. Deve ter sido o perfume. Juntei os cacos na hora, pra não correr o risco de pisar sobre eles. Não acendo a luz nunca. E também não olho. Deve ser oque querem, que eu bote o rosto na janela, e a pedra me acerte em cheio. Receio que um dia aconteça.
 
Os jogadores de pedra não se cansam. Penso se existiria algum lugar no mundo onde eu pudesse estar fora do seu alcance. Fico buscando entender. Mas nenhuma coisa faz sentido. Repetidas são as pedras e seu som agressivo, incômodo, insano, pedras jogando pedras no caminho. Assusta no início, mas acostuma-se à tudo na vida.
 
 
Podiam ser apenas flores. Penso num motivo pra não serem flores. Penso no mal que possa ter feito. Refeito. Bem feito. É tão estreito esse ínfimo portal, sei que existe, mas ele insiste em se fazer visto mas impenetrável. O imponderável ronda.
 
Já falei que não tenho medo de fantasmas. Nem de nada. Mas ando cansada. Cansada de tantas charadas, cansada de sentir tudo sozinha, enquanto, _ lembrei de uma pedra!, a melhor amiga, enigma, os jogadores de pedra realmente acham que alguma coisa será capaz de me chocar...
 
Podemos bater outra aposta. Aumentar o lance. Quebrar a banca. Outro desafio. Enquanto não se rompem todos os fios, haverá cacife...
_A única coisa que iria me espantar, sobretudo e sobremaneira, seria a existência do amor.
 
E aí, rola a aposta ( interrogação)
_ eu aposto que não!
 
 
*

sábado, 30 de janeiro de 2016

16:36

.

Porquê é tipo beber o morto. Você tem que mergulhar no todo que se foi, escarafunchar, lembrar, lembrar, lembrar, como se fosse a derradeira tentativa de trazê-lo à vida de novo. Você não quer olhar a partida. Você não quer sentir esse cheiro de flores mal colhidas. Você quer retardar o fato. Ao máximo. Bebe-se ao morto como se ele ainda estivesse presente, restos mortais que irão se deteriorar no ausente passar das tuas horas, mas você ignora, você quer reter o tempo, você quer matar o tempo, você garra ódio do tempo, sempre o tempo, que passa, e mata nossas melhores horas.
 
O que você passa com alguém é dos dois. Mas quando acaba, cada um bebe a sua parte. Aos meus restos não coube bebidas. Fui largada sem delongas em alguma vala fria. Aos seus, ainda não me dei conta sequer de que morreu. Segue vivo e virou meu. Cada qual com sua parte. O que eu te dei, você esqueceu. Problema seu. O que você me deu é meu,  e destas memórias eu construo mais e mais histórias, eu concedo o dom da vitória à verdade, o tabuleiro é sempre pra dois, do meu lado da história éramos vivos, tuas juras eram flores da manhã,  ainda que depois tenham sido escarnadas, ainda que confirmadas como vãs, não são mais suas as tuas falas, são minhas, saíram do seu território mal juradas, chegaram pelas mãos de um vento bravo, e foram recebidas como só as palavras mais queridas merecem ser.
 
Hora errada. Outras muradas. Impedimentos. Constrangimentos. Erros meus. Exageros meus. As suas falhas justificadas por ser a hora errada. Que patacada. A hora pode ser soberana, mas há uma coisa que a engana com exatidão: a paixão. Nada a contém. Nada nem ninguém. Não há força mais intensa. Nem tente, se convença. Quando a razão vence, não era paixão. Então, não venha com essa de hora incerta não, arrume seu mundinho e dê as suas mãos ao que te interessa.
 
Quanto à mim, estou sem pressa de beber o morto, embora, entre calafrios,  já possa sentir que rompem-se os últimos fios. De realidade. Que nos ligava. Vai virando tudo fantasia. Teu rosto. O tom da sua voz. Falamos pouco por voz. Seu recado chegou. Outra. Real. Que legal! Boa sorte! que os ventos  do norte sejam suaves na sua reconstrução.
 
Os ventos do sul são intensos. Por onde passam, mais que beleza, causam impacto. Perturbei sua paz. Mas você a refaz. Nem canto mais a sua canção. Não é minha. Nunca fui de me apoderar do que não me pertence. Só não me venha solicitar o silêncio aqui, onde bebo a morte de uma ilusão perfeita, que será refeita todos os dias,  até eu desistir.
 
Tenha fé. Tudo é possível. Até eu recobrar meu respeito. Por mim mesma. E resolva fechar finalmente este portal. Mas não agora, há de ser em outra hora, em que o último fio se rompa, em que a sua felicidade se confirme, e as provas afirmem sua alegria  à mais extrema distância de mim.  A distância. Aquela. Que nos separa. Aquela, que sempre existiu.
 
Li hoje em algum desses cantos que "as pessoas vão te tratar como você se trata". Descubra em você o que busca no outro.
 
Relativizei. Pensei sobre. Depois achei bobo. Depois reconsiderei. Mas aí, cansei. Vou fazer alguma coisa agora. Dar uma volta lá fora. Sei lá. Vou ali. Catar umas penas. Que perdi.
 
 
 
*

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

15:30

.

De algum lugar, todas as crianças que fomos, nos espiam pasmas. A exclamação é quase invariável: _ mas não é nada disso que eu imaginei pra você, mano!
 
Parei uns minutos pra fumar um cigarro, no portão lateral da loja, e a cena me trouxe pra perto a lógica das crianças. Dois meninos de bicicleta. Uns onze anos. Bonitinhos. Um ia um pouco mais à frente, quando a bicicleta do menino de trás, pára porque caiu a correia. O da frente pára imediatamente ao perceber, larga sua bike no chão, e vai, sem que se faça pedido, arrumar a correia da bicicleta do amigo. Arruma direitinho, comentam que é foda, dão risadas, e saem de novo, em disparada carreira  à este tempinho mágico de alvoradas, ruas livres, pequenos pássaros.
 
 
Observei calada, admirada, me deu tanto amor no coração por aqueles dois guris pedalando pelas calçadas, um orgulho de ter a percepção e a oportunidade de notar que ainda que não, a delicadeza paira, nos gestos invisíveis, os gestos que não atentamos, o  porque,  eu não sei não!
 
Lembrei de mim mesma, menina. Brinquei na rua. Do bairro. Subimos em pé de árvore. Comemos fruta verde. Metemos o dedo em formigueiro. Invadimos galinheiros. Enlouquecemos o doceiro.  Atravessamos tardes e mais tardes inventando mundos só nossos, toda a meninada do bairro, às vezes um se ralava, ou a gente quebrava alguma coisa, todo mundo cooperava, na minha infância, ninguém ficava pra trás também não.
 
Já joguei muita pedra na minha própria Geni por aqui. Atirei pedras em mim, mesmo quando pareceu ser noutro ser. Mas aí, vendo aqueles meninos pelo portão, olhei pra mim mesma e senti que não sou tão mal assim. Não perdi a conexão com a minha criança. Ainda sou dessas que pára na rua se alguém cai, que compra briga de amigo, que dá passagem pra o outro passar, que sorri pra estranho pra que o mundo não parece tão cruel e insano, recebo com alegria, reclamo muito, mais volto, chamo, dou o braço a torcer, concordo em retroceder, divido o que tenho, faço das tripas coração pra que a alegria reine, pra que as festas sejam divertidas, pra que as pessoas adiem partidas, sinto dor mas não economizo sorriso, não choro pitangas, e quando choro, rio da minhas próprias feridas, amo fazer pessoas se sentirem queridas,
 
me esculhambo a mim mesma para que a pessoa que tá no chão, não se sinta sozinha na aspereza do chão, garro na mão, não largo,  sento no gelado de qualquer madrugada até o ultima lágrima de um amigo secar, faço bolo, mando pros vizinhos, compro doce pra criança que chora no mercado, abraço todo mundo, apertado, deixo povo encabulado, dou atenção, olho nos olhos, morro de amor, pelo ser humano, mesmo em meio a tanto desengano, tenho dó dos corações que enganam, penso que à eles cabe o pior papel: nos fazer perseguir razões pra apesar de tudo, sorrir. E eu morro de rir.
 
Eu pareço que choro nas palavras. Mas é só nelas. Foda é quando você não tem tempo de se revelar. Deduzimos rápido demais. Classificamos pessoas rápido demais. Desfazemos da sua serventia rápido demais. Queremos mais, sempre.
 
Nos jogos amorosos é um pouco pior. A maneira mais eficaz de chegar ao coração de alguém é não querer esse alguém. Tantos corações meninos e meninas magoados. Todos ali, logo ao lado, olhando a gente se fazer de rogado ao amor. Dureza é que nem quando velhos a gente  aceita, e  deveria saber ,feito lição, decor e salteado:  _ninguém é obrigado! Ninguém é obrigado a retribuir sentimentos à ninguém. É meio difícil pra criança entender isso porque, não é o que a gente aprende pedalando na rua, nem quando chega uma criança nova na turma, quando criança a gente só aprende a gostar. E se rolar uma treta, ainda assim, criança só sossega quando tudo acerta.
 
 
Quando a gente se machuca a gente não machuca só o adulto daqui. A gente fere a criança. A da gente. A do outro. A gente fere fundo mesmo é a criança. Que está logo ali, no lado, consertando a correia da bicicleta do amigo atrapalhado.
 
 
......................................................
 
 
Trabalho. Coisas. Fazer. Seguir. Aceitar. Lembrar de dizer uma coisa engasgada, um p.s. de última hora:
 
 
_ não quero personagens novos, não quero novos capítulos, quero ficar livre dessa ciranda de apostas, estão todas abertas, todas as portas, todas as janelas,  não precisa de nenhuma resposta, apenas botar ficha na aposta que eu desafio:
 
_ Se não for você, não será mais ninguém.
 
Teimosia de menina. A minha menina que me pisca um SIM.
 
 
 
*
 
 
 


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

19:48



Num universo paralelo eu estou
dentro de uma canção,
dentro de um avião,
dentro de um coração,
 
que saltita excitação.
 
 
 
*


16:06

.

 
Não é prosa. Também não é poesia. É só um buraco negro no meio de mais uma tarde vazia. Embora o vazio nem exista. O vazio está cheio de substância. A substância que está em todas as coisas, com ou sem concordância. O que é deveras interessante. Existe o vazio. Existe a substância que ocupa todo o vazio. E existem substâncias que se agrupam e escapam do vazio. Formando as coisas. Palpáveis. E as intocáveis. E ainda assim, tudo parece, à todos,  vazio. O que me faz pensar que esse mundo onde vivemos agora além de ser limitado, é habitado por seres incapazes de criar bem com as substâncias que têm . Nós  no caso. Não nós dois, três, quatro, mas todas as criaturas do pedaço.
 
Tem tanta gente no mundo. Carteiros, padeiros, carpinteiros, jardineiros, donas de casa,  artesãs, cortesãs, doutoras, doutores, amadores, pais, mães, filhos, avós, moradores de casas, de calçadas, coisas e mais coisas e mais coisas, a alegria morando junto à agonia, de manter, permanecer, pertencer, crescer na vida, sentir-se acolhida, gente querida, gente sofrida, e toda gente tentando tocar o vazio com as mãos. E criar desenhos no ar.
 
Transformar o intangível em algo possível, ignoram a ronda do destino, fazem, correm, rezam, velam, se descabelam, meio modernos, meio homens das cavernas, bebemos em casernas, comemos em landernas, acendemos arandelas para o mal se afastar, para o bem suplantar a dor, ignorando ainda o mistério, da fusão, que possibilita. Quem se habilita à alguma explicação... cientistas, analistas, artistas, equilibristas, os reis do mundo, os bem nascidos, os mal dormidos, os tranquilos, na madrugada, ou o senhor que dorme logo ali, na outra calçada...
 
 
 
Na substância está a cura e a loucura. Está o amor e o desamor. Está a beleza e a podridão. Está o conforto e a agonia. Os devaneios e as noites frias. Os paralelos que nunca são alcançados. Os peixes içados, os laços dados, os nós desatados, os sonhos sonhados, os enlaces, os impasses, enquanto corremos tateando nossas parcas conquistas, perdemos de vista a confirmação de que tudo é composto de vazios de ilusão, um imenso buraco negro disfarçado de céu.
 
[Devoradores de estrelas]
 
 
 
*

13:50

.


havia um tempo em que toda gente cria
que as estrelas estavam ao alcance das mãos:

tempo ido,
meninas e meninos,
tristes por terem crescido.



*

13:38


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

00:00

(...)
 
 
Nada de prosa, nada de prosa, nada de prosa, nada de costas, se enxuga, resmunga, noite quente, e se fizer de conta que é poesia, tentar manter a linha, levar tudo na rima, será que pode, será que não, é que pra tudo tem exceção, e teve aquela interrogação lida:
 
 
_ quem sempre esteve presente em todas as suas tristezas...
 
 
EU. EU. EU. EU.

[preciso aprender a escrever 'eu' com letra minúscula]
 
 
 
Eu sou a culpada. Eu e minha coleção de nada. Olho o que fiz na vida. O que eu fiz com as pessoas. O que eu acreditei. O crédito que eu me dei sem cacife nenhum pra bancar. Eu delirei. Além de criar todas as fantasias, devorei todas sozinha, não dei espaço à ninguém, insana, não deixei nada pra se revelar, pra sintonizar, talvez, porque o que fosse revelado fosse tão desengonçado, tão mal acabado, nada de prosa mas é final de noite de ficha caída, sem saída, atravessada por essa adaga que eu mesma me cravei, eu não sou nada disso, eu não passo de um falso precipício, uma janelinha de porão, eu sou o chão, rasteiro, de terra, batida, sem viço pra fecundação, eu sou a infertilidade dessa terra em que semente não brota, eu sou quase uma folha morta, levanta, sacode a poeira, esquece que existe em cima, segue embaixo, da média, eu sou uma comédia sem público se achando engraçada, uma piada, a estrada abandonada, eu sou o meio do dia, nem muito pra lá, nem muito pra cá, sempre menos, menos do que se pode imaginar, uma coisa sem importância, a verdadeira e cruel irrelevância, não conhecia a distância que havia entre essa que se metia a se fantasiar de algo raro, quando de caro, nem seus órgãos vitais, desgastados pela repetição de dias e dias sempre todos iguais, eu nunca fui meia-noite, eu nunca fui a grande amante, eu sou mesmo essa farsante que posa de poesia, quando estou na condição de qualquer coisa fria, uma utilidade qualquer, uma pia, uma calçada de pedras quebradas que não dão em nada, uma figura atormentada por uma imaginação tosca, onde nunca a imagem se fará sequer reflexo de ação, eu sou a contramão, a desilusão, a frustração, sou alguma coisa a caminho do lixo, do lixo para algum depósito de lixo, depois fragmento de lixo, depois bactéria, na melhor das ideias viro subpartícula de alguma coisa que possa querer se reiniciar, nas profundezas, nas baixezas dos subprodutos, faz-se uso, sem notar, nunca tinha parado pra pensar que a insignificância me cabia, sob medida, estou vestida com os trapos de uma mendiga, que ao meu lado, ouve  o fim da mesma canção:
 
TÃO SIMPLES ASSIM.
 
 
 
*

23:11



Quando uma canção
te revela no ato:

'você se imagina mais do que
consegue ser'


[FATO]


*

22:44

 



Rudes ruídos
alteraram a rota
de uma doce
FANTASIA.

[quando se perde a sincronia]


*

22:28




Não sou suave
Sou tormenta,

Embora seja sempre o lado da corda
que se arrebenta.


*