terça-feira, 10 de dezembro de 2013

23:00

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_ Doa! Tomara que doa muito. Dane-se!, tome sua linha e doa, doa, doa!

E doeu mesmo. Porque a gente pede um sinal. Pede pra Deus, que o tempo ensinou que é mais chegado do que a gente imagina, e se folga, tá crente que caiu na camaradagem Dele, daí pede sinal pra tudo, pede de tudo a toda hora, perde a noção, e quando a água bate, você se dá conta que tá abusando e... _putz, mas eu preciso de um sinal. Eu preciso de um sinal. Pede. Negocia. Argumenta. ( é irresistível a rima com jumenta), e senta e tenta colocar os neurônios mais lentos que são os que tratam de certas emoções pra funcionar, toma um café, dois, nada, olha as horas, duas, quatro, sete, nada, vasculha os becos, os guetos emocionais, e começa a chover, e já passam das nove, e parece que não haverá um sinal. Pensa na chuva, nas tantas histórias molhadas por sua poesia, pensa no mar, no sonho de viver de maresia e letras e bronzes e tal, e então a ficha cai. Demora muito, mas parece que cai. Um não-sinal é um sinal. Não é isso?

E aí o não-sinal ganha vida própria dentro dos pensamentos e resolve associar-se aos sinais que _ sim, foram muitos!, sinais sucessivos de que não era guerra, mas também não era paz. O nada tem a propriedade de falar. O X da questão é ter a propriedade para ouví-lo. Com a correnteza, o nada encontra seu caminho destravado, e flui. E revela. Revelações que doem. Porque a gente se sabota tanto? Você sabe oque é sabotagem? ou melhor, você sabe o que é auto-sabotagem? É essa coisa aí, você dá permissão para o outro vir e te esfolar vivo. Tem gente que carrega esse ônus, por portar o bônus da chamada Boa Fé. Acreditar de forma ingênua no outro porque, simplesmente você acredita. E também por que não faz parte da sua linda e burra índole crer que alguém quer, deliberadamente, que você doa.

Que te doam as dignidades, que te doam as sinceridades, que te doam as ingenuidades, que te doam, e muito, as sentimentalidades, e as tuas vontades, que elas te ardam, te queimem, te dilacerem, porque é disto que se trata o espetáculo: de dor. Que concluo ser um tipo de amor doentio. Outro ônus de quem aprecia a poesia da dor, que consegue ver a beleza, que procura o avesso do avesso, que não teme espionar as sombras, porque crê perigosamente que em toda sombra cabe a luz.

Sabotagem é quando se articulam meios para se ferrar alguém. Auto-sabotagem, pressupõe, pois, que a gente que é desse tipo procura meios pra se ferrar. Simples, não? Só que é uma sabotagem dupla, a auto, e a do outro, aquele que deseja que você doa. A pergunta: o que impulsiona alguém a querer a dor no outro? Doido isso, não? Fazia tempo que não entrava nessas piras de pensar sobre isso, deve ter sido esse achegamento meu com Deus, de quem me tornei amiga, só que meio abusada, e aí, fui ficando diboa, diboa, achando que todo mundo é gente boa, até aquele ato-falho teu denunciar: DOA!

Se a lição será aprendida? ( sim, não, talvez), se retornarei ao erro? ( sim, não, talvez), se está doendo?
De boa? nada se comparado ao que deve doer em você!


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