segunda-feira, 7 de julho de 2014

18:44

.

Eu gosto de falar de solidão. Gosto de falar com a solidão. Tenho um caso de amor com tudo que abraça a solidão. Sou parceira dessas dores ocultas entre páginas, perfis e pessoas. Já provoquei muito pé na bunda por isso. Não pés na bunda amorosos, que isso é clichê, e tudo que é muito clichê parece estar fugindo do estado sozinho de ser, mas pés na bunda da vida mesmo, aquele negócio que acomete pessoas com tendências solitárias. Parece ruim, e de fato, não é moleza. Você tem que ter um punhado grande, mas muito grande de coragem para decidir por ela. É um salto para um lugar desconhecido. Dá medo, tontura, desnorteamentos e formigamentos de toda natureza e a gente até se pergunta: _ porra!, eu não podia gostar de outra coisa na vida? Tinha que ser caída justo por algo de aparência tão assustadora e anti-social? Tinha que ser tão longe da casa da alegria, da casa da euforia, da casa das gratidões e dos grandes corações?... Amar a solidão é uma coisa de gente de coração pequeno. Ou grande demais. Depende do ponto de vista. Porque cabe tanta coisa, e ao mesmo tempo, nada pára por lá. Quando se faz uma exceção, dá ferida. Machuca, arde, queima, agride e aí a solidão acaba sendo um bom lugar.Ou o lugar que resta. Ou o único lugar.

Para a solidão, ou na solidão, eu fecho os olhos e finalmente respiro quem sou. Quem sou? Certamente, ninguém que conte. Os solitários dão sempre um jeito, bastante eficiente de não se fazer notar, ou pior, se fazer notar pelo estranhamento que causam, seus comportamentos, opiniões, e sensibilidade. Parece que a gente é sempre do contra. De esquerda. Extrema esquerda. Uma espécie de terrorista da alegria, sempre com um olho em algum ponto obscuro, que não raro são muitos, e que não interessa à ninguém notar. Faz parte. À Cezar oque é de Cezar!, oras pois. Não é comum haver alegria nas solidões. Quem diz o contrário, não é um solitário, é um hiper relacionado que por opção, vez ou outra, tem a escolha de desfrutar um pouco de si mesmo, sozinho. Isso não é solidão. Isso é elevação. E como são bonitos os elevados!, bonitos, flanam pelas páginas da vida, solicitados e solícitos.

Não!, o solitário de verdade não tem escolha. Mesmo quando o destino abre uma exceção, ele dá um jeito de fazer alguma cagada pra melar tudo e voltar cativo à sua cela vazia de solidão. Solidão... Parece tão silencioso, um silêncio enganoso, como há barulho na solidão!, barulho, gritos, ecos, brumas e fantasmas, muitos fantasmas, torturadores, acusadores, julgadores, juízes de uma história sem graça e sem fim. Amarga é a solidão. Mas, às vezes, quando acostuma-se à ela, finalmente, parece que surge uma trégua. É nessas horas que se deve tomar cuidado: um solitário sempre será tentado a perder a sua réstia de paz. A tentação será um sorriso. Uma palavra. Um aceno mais bem dado. Qualquer coisa ilude o pobre coração de um solitário.

Por isso, solitários, anônimos ou declarados, uni-vos!, protejam-se, cutuquem suas feridas, de forma bem doída, que é pra lembrar que dói sair e depois voltar para o mesmo lugar, e a ferida sangra,e se a gente não dá conta de uma, imagine outras, tantas, novas... pra que? se a gente já sabe que só há um lugar seguro, e esse lugar sagrado se chama solidão.

Dois ditados, pouco populares, pertinentes aos solitários:
'não é permitido ser mordido mais que três vezes pelo mesmo cachorro", e
'quem nasceu pra tostão, nunca vai virar mil-réis'.

É A VIDA COMO ELA É.




*

Nenhum comentário: