sábado, 26 de dezembro de 2015

18:18

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É no choque das forças opostas que tudo acontece.
Coisa mais estranha do mundo. Micros. Macros. Mundos.
 
Todos em choque permanente.
 
Um nome. Dois nomes. Relaxa, nem sei seu nome.
 
O que sei é que tem gente que vem pro mundo pra nos fazer acreditar. E os que vem para reforçar a descrença. Forças antagônicas destinadas ao choque. Choque e acontecimentos.
 
Toda segundo no mundo transbordando acontecimentos. Choques e mais choques de partículas opostas precipitando VIDA.
 
Uns choram com isso. Outros riem. Uns chegam outros calam, uns pensam outros param, uns vão ao mar enquanto outros, negar.
 
O ar tá aí pra todos. Substância. Distância. E cada um faz o que quer. Pegue sua métrica de rima e faça sua poesia. A prosa aqui, no entanto, é minha, sai do jeito que EU quiser.
 
A caixa é minha. A vida é minha. E você só não está nela porque não quer. Ou melhor, não é bem assim.
 
Assim:
Tem quem nasce pra amar. Tem quem nasce pra estragar tudo.
Rola o choque. Fica todo mundo infeliz. Fim.
 
 
*
 
 


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

15:15

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Você perde um pouco a fé.
Ninguém anda mais à pé.
Pé por pé. Na boa. Na fé.
 
Botar fé você bota, mas aí vem a vida, e te sabota.
A vida não, _ epa!, é a hora da xepa,
era tudo treta, a vida não tem nada com isso, eita!
 
Nem com isso, nem com aquilo,
são meus esses grilos, esses profanos delírios,
 
é que eu estava na mira,
não se admira,
caí na rima,
caí na lábia,
olhos de Arábia,
 
tenta resistir,
tenta não sorrir,
dá voltas,
cambalhotas a chamar,
_vem brincar!
vem experimentar alguma novidade que confirme,
alguma que desafie, desmistifique a sina de que se ralar
faz parte,
arde, mas passa,
não desiste,
 
logo eu, que nunca gostei de brincar.
Não curto piada.
Acho de mau tom a risada.
Dou a vez na calçada.
Sou educada demais pra cilada.
Meu negócio é tudo ou nada.
 
E a velha porta bem trancada...
Foi um segundo de nada
e eu destranquei
não me toquei
_ei, ei, vem cá, meu bem!
e eu olhei,
pouco desconfiei,
do velho vício, desencanei,
pensei:
_ me curei!
 
Era um rei.
Não tinha pra ninguém.
 
Peguei as malas e as cuias,
pra fora eu me mudei,
esperneei antes,
e me calei,
eu mesma me hipnotizei,
não foi alguém,
eu projetei,
e acreditei no reino
onde o príncipe era encantado,
abri todos os cadeados,
danem-se os cuidados
mergulhei!
 
E foi pouco.
Tinha mais delírio guardado.
Um estoque infindável.
 
O medo foi descartado
e súbito,
a fé, pé por pé,
havia reencontrado.
 
Descalça de avisos e resguardos,
corri pros seus braços,
e foi como se...
e foi como se sempre...
e foi como se nunca...
e foi como se fosse...
 
E foi como se não fosse a velha mania de ter fé na vida, a vida que não tem nada a ver com isso, tá lá na porta, me sorri o sorriso dos pais:
_ eu te falei!
Recolhe-se a vida e me leva com as mãos.
Volto pra dentro, não sem tormento, enquanto água quente me alivia ferimentos, lamentos,  e mais todas as outras feridas reabertas, foi por um triz, tudo vira cicatriz,  é a sina de quem não se atina aos sinais e às fumaças das catedrais.
 
Toma de volta tua canção. Quero, não!
Nunca foi meu o seu coração.
 
Nego, não!
 
 
 
*

domingo, 20 de dezembro de 2015

17:07

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Queria esse poder de atribuir. De fazer do acréscimo, mais que uma suposição. Queria dar ao acréscimo o poder da condição.

A condição de fazer ficar. A condição de inundar. A condição de se fazer maior do que a razão que insiste em verbos estranhos, afastar, desconfiar, descontrolar, afastar.

Às vezes, penso que somos movidos por astros antagônicos. Simultânea e ironicamente. Nada é transparente. Olho pra gente. Reconheço e desconheço. Me atiro e me retiro. Retidão e desalinho.

Que estranho esse caminho. Nada é retilíneo. São curvas. Beiradas. É um tudo e um nada enquanto o vento sopra nas calçadas a imprecisão.
 
O vento varre as palavras. Estão todas voando. O redemoinho que se forma, forma múltiplas formas que não sei identificar. Fantasmas, corpos, feras, janelas, corpos, um coração, quase se pode ver dois, depois não, depois sim, depois não de novo, enquanto soltas como folhas desprendidas dos galhos de alguma árvore da vida, todas aquelas palavras queridas, voam.
 
Voam. Penso no pouso. Penso onde irão depois que o vento sossegar. Penso nelas, quando a chuva cair. E molhar aquelas letras entrelaçadas em madrugadas, dias e noites, volúpias carregadas por uma insistente bruxa malvada que só conhece o não.
 
O tempo. O espaço. O lado de lá. O lado de cá. E todos os olhos. E todas as pernas. E todas as tentações. Não é porque sou feita de águas que não posso arder tempestades. E arderei cada uma delas, ainda que pelo lado inverso, ainda que seja fraca de verso.
 
Foi na semana passada. Ou na outra. Ou ainda. Ou nunca. Fica um pra sempre suspenso no topo de um prédio, preso aos ramos de um ninho, algum passarinho que desconcertou, e foi-se, bateu suas asas por causa do seu canto engasgado na guela.
 
Não se prende o que não é de se prender. Mas também não se solta, o que não é de se soltar. Vai passar. Vai passar como passa agora esse vento, nem festejos, nem lamentos, sem argumentos pra voltar.
 
Às vezes parece que os astros não gostam de ver o gostar se alastrar. Preferem outras cenas, muitas cenas, preferem atiçar as nuvens e ver a bagunça das carnes tremular.
 
Quem iria ficar. Ali, na calma de um instante que de antemão é sabido, finito para os filhos dos grandes elementos. E quem sou eu. Pouco mais que um sopro. Uma gota. Uma partícula de gota que pretende-se temporal.
 
Chove no quintal. De novo chove sobre as roupas do varal. Tudo igual. Véspera de Natal. O ano em cólicas pra terminar, como sempre, tudo igual. Um ano que não se valida. Massa falida. Tudo está certo neste ponto que sempre tratou-se, final.
 
 
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

14:38

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Em que século estou, a pergunta.
O século é quinze, a resposta.
É a Idade Média.
 
A fogueira arde e queima minha pele sem perdão. Demora a queimar. A primeira coisa que você sente é o cheiro. O cheiro do fogo onde antes eu assava o pão. Resguardo as mãos.
Depois, sente o cheiro dos outros corpos, ao seu lado, corpos de todas as outras mulheres que ali estão, queimadas, pela metade, terços, quartos, gritos, ainda vivos, os sons são longínquos, um som sinistro que anuncia que longa será essa dor, mais longa que todas as vidas já vividas por um mau agouro de ser escolhida pra descer à este inferno de águas claras, traiçoeiras, caí de uma estrela bem no meio da fogueira.
 
O fogo arde. Tem cheiro de enxofre os pedaços dos meus pés derretendo e alcançando minhas coxas tão lisas, em que deslizas com as mãos, um delírio no meio dessa aflição, um alivio de meia fração. Arde-me o ventre a dor de todos os pecados julgados por falos em forma de um mamífero a quem chamam homem, que por certeza da posse, do força, fez refém as fêmeas dessa espécie que deveria estar em extinção.
 
E a gente não morre. Nem eu. Nem todas essas mulheres aqui. O alivio do delírio dura a fração de uma volta. Porque não nos é permitido morrer, há que se sentir a dor do viver.
 
A idade é menos que média. É a barbárie. Condição: Mulher.
Maldito seja o dia em que seres de outras esferas nos roubaram o dom das feras, e nos jogaram aos leões, famintos de carne e escravidão.
 
Escravidão. Silenciosas, revoltas. Às rebeldes, queimemo-as vivas!, mas não sem antes abusar, violentar, socar-lhes os cornos até que sobrem apenas as frestas do chão. O chão que conhecemos. Lavados com nossos cabelos, o chão onde parimos os filhos, o chão que nos faz ninho, lambemos o chão do mundo, e as glandes, a merda, a fantasia da nossa condição.
 
Vamos escapar da fogueira! Vamos aos templos dos embelezamentos, vamos viver de hortaliças, vamos ser  magras e rijas, para sermos comidas, privilégio de ser escolhida, para que venham nos montar, cavalgar nossas ancas pra gozar um sentido, que por nós ser engolido, à mulher cabe engolir a porra toda, guela abaixo, pra depois correr e lavar os cabelos, aparar os pelos, trata-se de correr para não ser queimada viva.
 
Mas é tudo um blefe.
Quando a hora alta chegar, envelheceremos. Levas e levas de carne fresca no mercado do dia. A carne flácida, o cansaço de todos os usos e abusos gritarão. Mais cedo ou mais tarde, é a condição.
Nos tapiaremos umas às outras, com promessas de faca extirpando gorduras, usaremos ataduras, unguentos para dar a volta no tempo, e o que restará será o lamento.
 
Mulher não nasce. Mulher queima.
 
E teima que não. Atira-se em rodeios, mas a nome da esperança é NÃO. Talvez, em algum tempo, exceção. Talvez uma Presidenta, que não sei como aguenta, de algum país povoado por trogloditas, tente, enquanto concedem-lhe a alcunha de maldita, primitivos rótulos espelham a prima condição:
 
Ao homem cabe o poder. O direito cabal. O ponto final. Ao homem cabe o comando, cabe o direito  de nos gritar injúrias, em praça pública, o direito de nos mandar cobrir os peitos, as tetas que os alimentam, ou subir no mais alto dos tablados pra assegurar às feias o não privilégio ao estupro, e por fim, definir que o corpo feminino é um insulto às normas, masculinas normas, somos o pecado original diz a Bíblia, extirpou uma Lilith da vida, a primeira queimar na fogueira , e que queima ainda viva na pele de cada mulher que sente no lombo as chibatadas que antecedem o fogo, arde o couro, a carcaça, e todo esse tempo de mau agouro, tempos fálicos que estribilham em coro às rebeldes que teimam, que resistem, _ mal-comidas!, _mal-amadas!, abram-nos logo todas as feridas, enquanto aplaudimos o êxtase , macho alfa, beta, gama, a mulher se engana.
 
Só não, quando sangra. O privilégio de sangrar por conta própria é nosso, somos nosso próprio castigo.
 
O fogo chega-me às partes onde, feliz coincidência,o sangue escorre-me, abundante comprovando minha condição de mulher, e ali, a dor é quase familiar, ancestral, colo de ardores, amores que mais não. Perco sentido. Um desmaio. Um alivio. Não queime as minhas mãos fogo maldito!, lembro que grito, e uma lembrança surge, doce, suave, chega-me como um bálsamo pras minhas mil feridas, algum reino, alguma Vênus perdida, algum espaço onde éramos adoradas, cuidadas, amadas, as flores faziam-nos água pra banhar nossos longos cabelos, e éramos de todas as cores, de todas as formas, reverenciadas pela delicadeza, era só isso desde o começo, delicadeza, e não éramos gênero, éramos seres, amáveis seres, nem homem, nem mulher, éramos seres livres da dor,  existe ou invento, a agonia é sempre igual, um segundo colossal, enquanto clamo aos céus dos abandonos, _Pare essa dor!, conceda-nos, por clemência, a alternativa de um ponto final.
 
 
 
*

domingo, 6 de dezembro de 2015

18:18

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Daí chove lá fora, e você não está aqui.
Chove longamente, num ritmo que acelera ainda mais as vontades de água, de umidades reverberadas, que se estendem, feito uma noite de amor de uma qualquer madrugada.
 
Não quero rimar as palavras, quero algum inverso desse inverno que se estende por verões que não se espraiam, mas... essas vontades de um voo impossível, de um flerte entre um ser feito de sol, e uma criatura miúda, que corre e molha seus pés em poças de uma água já caída,  rimar parece a única saída, de me salvar.
 
Chove um mar de chuva , e você, te vejo em labaredas. As eiras e as beiras das casas gotejam a água que cai pra fazer a tua música tocar. Preferem sóis. Envolto. Envolvendo. Revivendo o respirar.
 
O fogo. O sol. Teus vermelhos labiais. E essa força muito louca de quem vai te afrontar. Vai rimar. Vai. Vai rimar porque tenho uma mania de rima, como se o verso me salvasse da dor de saber onde isso vai dar. Ou não vai dar. Ou ainda, te encontrar.
 
Quem ama chuvas, não teme as lágrimas que lhe chovem. O riso e seus raios quentes, solares olhos de queima, sem queixa nenhuma de nada, nada se ganha, algo se conquista quando percebo que conheço pouco, muito pouco, todos os meus nadas, desejosa desse sal. Talvez precise parar de chover. Pra ver acontecer as novas precipitações das minhas próprias moléculas estelares.
 
Acende. Apaga. O sol. A chuva. As calçadas, molhadas, e o primeiro poste ilumina a tua falta. Uma luz amarelada reflete raios sobre a chuvarada, e percebo, encantada, um momento único pra mim:
 
Luz e água se contém. Nessa cena tão pequena, queria fotografar pra você ver. Dos sinais, os bonitos não me escapam. Se não surgem, cabe a mim inventá-los, e o que eu faço, senão, inventar-me um pouco mais a cada dia, pra viver...
 
Fundem-se lindamente. Penetram-se. Aceitam-se como se, feitos uns para o outro, fossem. Uma explosão de onde nasce simplesmente, beleza. Sem mais, nem porquês. Sem hoje, nem amanhãs. Uma manhã anunciada apenas. 
 
A cena: a luz do poste acende, as pingos de chuva caem, e no meio desse caminho molhado e iluminado, uma fusão dos dois resulta num reflexo espelhado. Amarelado. Meio avermelhado. Tendo a mim por testemunha espantada. Vi o amor daqui da minha janela, uma boba, muito bem acomodada.
 
Estendo o olhar por esta mesma janela de frente ao arvoredo, e por entre todas essas folhas cansadas de serem verde, sempre verde, mais raios de luz. Outros postes se acendem. Te aceno. Te vejo em cada ponto destas luzes, como se o teu chegar, fosse anunciado.
 
A chuva anuncia. Recria. E eu quase que me esquecia como é possível sobreviver, mesmo sem. Mesmo com. Mesmo sendo chuva enamorando-se por sóis.
 
(isso sem contar a lua que nasce de vez em quando, uma em cada rua pra roubar sua atenção)
 
É que eu ia falar de ciúmes. Daí percebi que mudei. Sem perceber, me acalmei. Deve ser essa chuvarada molhando a minha alma penada.
 
 
*
 
 
 
 

sábado, 14 de novembro de 2015

16:42

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Neste exato momento no mundo alguém sorriu. Neste exato momento no mundo, alguém novinho em folha acabou de nascer. Neste exato momento no mundo, alguém está beijando alguém, pela primeira vez. E alguém voltou a falar com outro alguém, sem mais nem talvez.
Neste exato momento no mundo, alguém gozou. E alguém notou um brilho novo no olhar. Neste exato momento no mundo, alguém voltou. Voltou a andar, voltou a amar, voltou a acreditar, enquanto  um outro alguém resolveu parar de chorar.
 
Neste exato momento no mundo, alguém está viajando de avião, alguém está levando um sermão, e outro alguém está colhendo feijão e fazendo calos nas mãos. Neste exato momento no mundo alguém está em festa. Alguém está perdido na floresta, alguém levou um chifre na testa, enquanto outro alguém dispara uma flecha.
 
Neste exato momento no mundo, alguém está cansado. E alguém está casando. E alguém está cantando. E alguém está se apaixonando pela décima vez. Neste exato momento alguém está se formando no ventre de outro alguém. E esse alguém nem sabe se quer mesmo nascer.
 
Neste exato momento alguém está morrendo. Alguém está tremendo de medo do que pode ser capaz um outro alguém. Neste exato momento no mundo, alguém chora seu morto no cemitério, enquanto outro esbraveja o mistério, e um outro de outro hemisfério se recolhe contrito num monastério.
 
Neste exato momento no mundo, alguém se pergunta. E um outro também quer saber. Outro só faz se calar, enquanto outro quer reclamar, e um outro estende a mão pra alguém levantar. Neste exato momento no mundo, alguém está bem por estar vivo, enquanto alguém está mal porque queria estar noutro  nível.
 
Neste exato momento no mundo, alguém só quer um abraço. Outro alguém está pensando naquele amasso, alguém ensaia seus primeiros passos,  enquanto alguém comenta com outro alguém que sua vida é um fracasso.
 
Neste exato momento no mundo, alguém se pergunta porquê. Alguém se pergunta porque não. Outro alguém se pergunta porque comigo, enquanto outro alguém só quer um abrigo pra se esconder do perigo.
 
Neste exato momento no mundo, alguém adoeceu. Outro alguém se arrependeu. E outro alguém se condoeu com a dor de alguém que sofreu. Neste exato momento no mundo alguém abriu uma janela. Alguém viu uma flor. Outro alguém se deparou com a dor. Todo alguém desejou uma prova de amor.
 
Neste exato momento no mundo, todo tipo de alguém experimenta um lado da moeda que em seguida será de outro alguém. Alguém está subindo. Outro alguém está sumindo, enquanto alguém desce a ladeira pra rezar pelo mundo, numa missa de Domingo.
 
Neste exato momento no mundo, alguém respira. Outro alguém respira. E outro, e outro, respiram. Neste exato momento no mundo, toda gente, pira. E se retira por alguns segundos, pra tentar entender as alegrias e as dores do mundo.
 
Neste exato momento no mundo, o sentido se conforma em não fazer qualquer sentido, enquanto a Vida, que não sabe se é triste ou se é bonita, concede, em todo canto do mundo, giramundo, a gentileza de continuar.
 
 
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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

22:25




derretendo satélites



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22:22

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sobre plágio:
é tipo a flecha. A palavra. E ela sempre saberá de que arco partiu.


né, miga...



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20:33

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Essa alternância de HIATOS.

(hiato: intervalo, pausa, desconexão, distância, com ou sem intenção, tudo intercalado.)
 
Presença, ausência, paciência, nada se encaixa dentro destes nossos ensaios de viver em tempos descompassados.
 
E são tantos os tempos, adventos, contratempos, novos ventos, eu não aguento mais esse tormento, de onde me surge um novo argumento:
_ E se fossem outros os convites...

Por exemplo:
 
Hoje você poderia ser Dante, e eu, a sua Beatriz. Não aqueles dois deprimidos da ponte, mas dois seres que fogem para outros jardins. Podemos ser até crianças, Romeu e Julieta, crianças em idade de amar...
 
Podemos brincar de esconde-esconde, mas não entre céus e infernos, chega desse frio, chega desse inverno, deixemos o purgatório pra depois, vamos chutar as culpas, as cobranças, as lamúrias, vamos fazer delas pedras de um castelo moderno, sem breu, chega de tanto cinza, e de tanta lama, e de tanto drama,

vamos trocar temporais por litorais, vamos parar de ver vultos e vamos pular uns muros, correr na noite, destrancar o quarto, pular da cama, vamos calar o mundo e torna-lo só nosso,

se o pesadelo é possível, tudo é crível, podemos viver uma noite incrível, sem velas sem arandelas sem sentinelas a nos vigiar, podemos ser duas almas, mas também dois corpos, sangue nas veias, pulsações, excitações, outros toques,

e muitos beijos,
podemos mais do que supomos, embora sejamos dois bobos, colecionadores de hiatos, dois chatos, dois amantes que abrem mão da volúpia, pra ficar olhando as voltas que a cornucópia dá, ou deixa de dar,
 
se eu sou Beatriz, você é meu Dante, mas podemos ser outros tantos,  podemos usar o nome que melhor nos aprouver, Ana, Maria, Fausto, Miguel, que importância tem o céu e o Infinito se  todo  segredo está talhado em granito, somos guardiões, mas também somos corações, nunca teremos direito se sempre formos iguais, e é aqui que   essa outra que sou,  te convida para fugir destas fúnebres catedrais.
 
Vamos ser somente gente. Gente de carne e osso, tomados por uma paixão descabida, fechar as portas do ego, desse super ego infernal, e mergulhar na alma, na calma, na descoberta de palavras novas, para nós, tão pouco usais,
 
vamos falar de espumas, bolhas de sabão, vamos falar de almofadas, da delicia de não fazer nada, vamos falar de comidas, frívolas delicias, frutas da estação, vamos entrar na contramão daquela avenida, vamos deixar definida nenhuma condição, a não ser a que nos garanta uma nova sensação
 
uma sensação de conforto, intimidade, deletar a saudade do mapa, assinar nossos nomes na ata que nos desata dos nós marítimos, e se for para afundar, só ser for no mais alto do mar, pra mergulhar com um folego sem fim, sinta meu peito, assim, com todo o ar do mundo dentro de mim, assim , assim,

tudo verde, tudo azul, turquesa, esmeraldas, veja como são lindas as criaturas, vamos desenhar figuras na areia, deitar nosso corpos nus numa esteira, vamos abrir mão de eiras e beiras, vamos falar besteiras até o sol se pôr, e então  vamos correr até voar, vamos nos abraçar e sentir a vida, vamos botar a vida no meio, botar a vida bem dentro da gente, entre a gente,

vamos ao menos sonhar com isso, e se preferir, no lugar de convite, salve: compromisso,

_ Pense como seria
EXPERIMENTAR



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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

15:40

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Você sabe que eu não sei o tom do seu azul. Mas parece que nele, sempre chove. Deve ser de propósito, haja vista, você conhecer minha predileção pelas águas, pelos líquidos sentimentos que são os mais frágeis e os mais fortes, os que vencem as pedras sem que elas sequer percebam.
 
O que eu não sei é lidar com essa alternância. Pedra. Agua. Pedra. Agua. Pedra. Duais. Laterais. Tridimensionais. Excepcionais criaturas que na mistura são iguais.
 
Falo da tua indiferença, mas sou indiferente. Falo da tua mentira, mas mentiras me compõem dos pés às minhas tantas mentes que se alternam entre realidades, paralelos, fantasias, caos, cais, porto sem mar, mar sem areia, areia sem sal, sal sem alimento, comida sem fome, fome sem você, você e minha fome,
 
tua fome que me quer,
 
Silenciar turbilhões sentimentais é luxo que não nos cabe. Embora seja um luxo poder se dar ao luxo de divagar o inexistente como se a dor fosse real, poder fazer do pranto sua língua quando nada te molha, te falta, poder perambular madrugadas como se tudo fosse nada, e fazer verso, e reverso, e entregar-se à prosas sem nexo, tudo em nome de que...

Em nome de que, quem sabe,
 
Uma novidade avassaladora. Uma escapada no tempo. Paciência é advento do que há de vir, oque faz o verbo sorrir, acontecer, porque é disso que deveria se tratar toda palavra, toda rima, toda menção, todo refrão, tem que ser musica, e tem que tocar, e tem que abrir uma coisa alucinante no coração, algo que seja identificável, inegável, irrevogável,
 
algo que supere, ou então sente e espere o próximo trem chegar á estação.
 
 
*

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

22:27

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convive com teus poemas
antes de escrevê-los.

_o conselho é de Drummond


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22:20

coisas que não te contam:

dentro de uma poesia
escondem-se muitas MENTIRAS.



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18:08

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É tudo tão vasto, e a única palavra que me ocorre é hermética. Fechada. Lacrada. Secreta. Inalcançável. Uma casinha no mais alto do morros. Talvez um porão. Um sótão. Sem alçapão.
 
É tudo tão vasto. Tão imensidão. Tudo ao alcance das mãos. E ao mesmo tempo, _não!, tudo nos escapa, tudo é sopro, tudo é nada, o dia, a noite, uma madrugada.
 
É tudo tão vasto por dentro. É tudo tão restrito ao mesmo tempo. E o lado de fora que não supera a ânsia do mais e do mais e do mais.
 
Sentir-se pequeno. Parte de um imenso tão imenso que o que sobra é o nada.
 
Embora.
 
Vez ou outra, a sensação muda. Somos imensos também. Imensos quando despertados. Imensos quando acordados. Imensos quando amados. Imensos quando apaixonados.
 
Feito quando criança, subindo nos telhados. Os donos do mundo. O poder de voar. Ninguém pra te alcançar. A liberdade de sonhar.
 
Seguimos saltando de grandezas à pequenezas, dentro de uma única certeza:  A GENTE PASSA.
 
Tudo passa. Passo eu, passa você, passa o tempo, passa o vento, passa o pó e a vassoura, passam as folhas, as flores, o pássaro azul passa bonito, e o amor, aflito, agarrado a tanto pesar, passa, ferido por não conseguir durar.
 
Duradouro só mesmo o tempo dentro do tempo. Tudo passando, menos ele. Sempre ele dentro dele mesmo.
Chora o tempo por passar por tudo menos por si.
 
Imensidões.
 
Abro caixinha dos teus escritos hermeticamente guardados.
Surpresa: ali o tempo não passou.
 
Guardo-me então, também, hermeticamente fechada.
 
 
*

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

19:00

 
O gosto hoje é de DESGOSTO.
Gostar é um gesto fácil, e de durabilidade questionável. Há que se ter disposição para o 'fazer de conta' e fazer de conta é chato demais da conta.
 
A gente gosta do que vê ou do que imagina ver...
 
Quem se importa.
 
Jogo de conveniências. Interesses. Nada é real. Nada é perene. Já posso ouvir ao longe o barulho das sirenes. Chamei o hospício pra me levar. Enlouqueci com o jogo.
 
O TÉDIO é o lugar mais seguro do mundo. Só que não.
 
Tem aquela eterna madrugada que lateja novidades.
 
TUM TUM TUM TUM TUM
 
O coração quer bater mais rápido, tá cansado de quase ficar parado, cansado da lentidão de corriqueira existência, provoca-me,  atiça, dentro dele tem um diabo artista, que me chama, dia sim, dia não, e então, num dia qualquer,  vou até o portão, e pela milésima vez vejo a mesmo trem passar,
 
proibido pra mim, no entanto. Porque, não sei. Carma. Encosto.
Se um dia eu for, descarrilha. É O AVISO.
 
E aí o tédio, e o barulho do trem o tédio, o trem, o tédio, o trem
 
_ que mal tem _ pergunto.
 
E vou. Sem levar nada. Nem a roupa do corpo. A última peça sacode-se ao vento, morrerá ao relento.
 
Não são passos que me conduzem. São asas. Batendo. Eu corro. Eu voo. Apossa-se de mim uma energia divina e perigosa e as lágrimas que eu nem lembrava o gosto dão lugar à um riso pecaminoso que ignoro, perigoso.
 
Chego. Todos me olham. Todos vestidos. Todos absortos. Todos. Quem é essa gente toda. Porque me olham. Nem me dou conta da nudez. Passei tanto tempo do lado de dentro que esqueci que do lado de fora as pessoas não se despem, ao contrário, se trajam em excesso para ofuscar seus interiores macabros.
 
Risos. Gargalhadas. Dedos em riste. A loucura persiste. Estou no inferno. Olho e não vejo. Esbravejo, mas ninguém ouve, quase desfaleço, mas ainda penso. Pesadelo. Mais um pesadelo.
 
Vou me encolhendo. Sou Anna Kariênina. Vou me jogar. O trem nem precisa descarrilhar. Eu vou me jogar. Eu mesma vou me jogar.
 
TIRE SUAS MÃOS DE MIM.
 
 
 
*

17:36

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o que a gente guarda dentro da gente
é do tamanho da nossa ETERNIDADE,

é chão sagrado,
é um paraíso de dois,

não cabe estranhos!






*

17:30

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A abertura que você PENSA ver é MIRAGEM,

MIRAGEM,

você não tá nem perto!



*

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

12:52



sua sorte
é que a gente não se esbarra,
senão, esta seria a minha fala:

_ ou fala, ou eu atiro!



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12:44



De que órbita trata-se esse giro que que não se completa...
Eu penso que te engano. Você tem certeza que me engana. E brincamos de gato e rato pelos paralelos lunares.

Quem será o sol. Quem será a lua.

Qual será a rua daquela canção que nos escreve mas não nos define.

FAZER VALER A PENA.

E que pena quando perde-se a pena. Ou melhor, nunca a tivemos. Nem pena, nem dó nem piedade, nem tinta nem papel, a gente tem o que mesmo...

_Ah, sim!, temos o céu. Temos um céu só nosso, somos criaturas oscilantes que se criam e se recriam, somos tolos brincando de Deus,

brincando, provocando, enganando, trapaceando

(superlativos não vão me conquistar)

Enquanto isso, você sabe da minha preferência pelos silêncios, pelas rondas, pelos escuros, pelos becos, pelos trechos saltitados de um livro antigo, você sabe  como eu te prefiro, mas você

_ NÃO!

e aquela canção, hein...

'sei que você gosta de brincar, de amores, mas só, comigo não'

eu canto daqui, você canta daí, enquanto a lua e o sol continuam a perseguição amorosa que não tem fim.

_ai de você!, ai de mim! ai desse amor que dói assim!



*

12:28

 
aqui
você é
IMAGINÁRIO
 
mas em algum lugar
você
é
 
REAL
 
 
*

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

22:22

.


HÁ QUE SE DANÇAR OS PASSOS!



.

22:20

 
se você pode escolher
ser
tanta coisa
 
VAI ESCOLHER SER TRISTE
 
porque ( interrogação_)
 
 
*


sábado, 10 de outubro de 2015

18:38

Tentei me armar. Como se fosse para uma guerra. Em um lugar longínquo, ermo, e de temperaturas glaciais. Vesti todo tipo de agasalho. Peça sobre peça. E depois uma armadura. E mais armas. E me sentei a beira do abismo, sem saber qual seria a hora certa pra este incerto confronto.
 
Me achei esperta. Estava certa que desta vez eu não seria tão absolutamente PREVISÍVEL. Há que se abrir um parênteses:
 
(uma vez previsível, sempre previsível)
 
Há quem chame de transparência. Há quem veja o despudor. Ou a nudez que não se cobre com vestes de guerra.
 
E você veio pela incontável vez. Tuas horas não se contam. Teus passos não se ouve. Teus pensamentos não colidem. Teu controle não se perde. Tua vista tudo alcança. Teu poder não enfraquece. É tudo teu. O enredo. A razão. TODOS OS PORQUÊS. E ainda o teu egoísmo. E aquele humor que retalha. Você não tarda nem falha. E não precisa de armas. Nem de fogo. Nem de água. Nem de um fôlego para descansar. Você guarda. Você monta guarda. Todos os lugares te são possíveis, e o impossível te cabe. Te veste. Te protege e te dota de sobrenaturalidades.
 
É uma guerra impossível. É o mar frente a praia. É o vento frente a folha, é o inseto frente a janela, fechada, por telas, é a flor do mato frente a construção, é o pragmatismo frente a indecisão, é a luz frente a escuridão.
 
Você veio. E lançou a isca. Previsível o andamento das peças. Um xadrez de mestre. Uma duas três jogadas e CHEQUE MATE. Eu caí com todos os meus peões no tabuleiro.
 
Todas as minhas armas eram nada. Todas as peças de roupas usadas pra me proteger do frio deste jogo insano que não se faz revelar, foram, uma à uma, caindo no chão. E então, lá estava eu, nua, desarmada e amarrada pelas mãos.
 
_VOCÊ NÃO ESCAPA MAIS!
 
Foi sua sentença. Sem mais explicação. Sou a única refém, ou serão quantas. Seus movimentos sugerem tantas. O enredo é de dois, mas serão quantos, quantas, e eu ainda encontro espaço e tempo e ensandecimento para sentir ciúme da tua fúria. Ciúme da tua atenção. Da tua atração. Do teu calor que congela. Da tua noite sem luz. E todos os teus tons de azul.
 
Respiro fundo. Tudo parece igual de todas as outras vezes. Só que impera um silêncio estranho, aquele som nenhum que antecede a caça, o bichinho bobo corre pela floresta verde sem perceber-se alvo em mira.
 
Será abatido. Possivelmente. Ou não. Há que se abrir um novo parênteses:
 
(De tanto dar voltas e dar no mesmo lugar, pode acontecer de algo mudar. Não há lugar pra distração na guerra da paixão. E se o jogo resolvesse virar só para variar...)
 
UM JOGO.
DESTINOS SELADOS.
O QUE ESCREVER.
SÓ O TEMPO DIRÁ.
 
 
 
*

terça-feira, 6 de outubro de 2015

14:14

É.
É como entrar num quarto escuro. No primeiro momento você estranha, tropeça, sente medo, quer voltar, não acha a saída, a respiração sofre, o coração descompassa, e você para.
PARA.
Para onde está. Aos poucos, você volta a respirar. E o coração se acalma. Uma longa respiração te traz os sentido de volta. E o escuro já não é mais tão escuro. Os olhos se acostumam. E descobrem algo.
NÃO ESTÁ TÃO ESCURO ASSIM.
Nem tão quieto. Nem tão pavoroso. Nem tão devastador a ponto de significar um fim. Dá até para perceber algumas coisas. Um pequeno passo para o lado. Um tatear. Talvez nada. Talvez uma estranha paz.
PAZ.
E uma luz ínfima, que não revela, exceto algumas partículas velhas que insistem no movimento de permanecer. Há vida. Há até um suave aroma de alguma coisa que resistiu. Uma rosa seca. Uma taça onde restam gotas de alguma bebida doce, talvez um licor de aniz.
SENTIR.
Não há tempo aqui. Há um relógio na parede onde alcançam minhas mãos. Está parado. Tateando, descubro as horas paradas. Duas horas. Parece madrugada. Esbarro numa mesa de carvalho. Dá pra sentir a antiguidade de sua pátina. Deslizo as mãos por esta madeira e encontro conforto. 
ONDE.
Folhas e mais folhas de papéis. Meus pés tocam as que repousam suas letras que chegaram ao chão. Vou catando, uma a uma, desamassando-as como se para trazê-las de volta. As palavras falham, mas nem por isso, as intenções. Não posso ler o que está escrito, mas posso sentir o sabor. Levo a boca. Sinto gosto de lágrima. De álcool. De sândalo. De dor. E de amor.
AMOR.
Como acontece. Como aconteceu de eu parar aqui. Dentro deste lugar sem portas. Sem janela. Iluminado e sem luz. E porque, estranhamente, me sinto bem aqui...
ALGUÉM MORA AQUI.
A última coisa que me lembro é que eu estava dormindo. Sonhando com você. Sem rosto. Sem presença. Sem alma. Sem existir. Então, acordei no meio da noite, levantei e fui à janela, como quem vai ao encontro de um chamado.
DUAS  HORAS.
Da madrugada. E ali estava um vulto. De um alguém, vestido de preto, de costas, alguém que chama mas não quer resposta. Só quer a pergunta. Só quer a luta. O jogo. Sem regras. No escuro. No tudo, no nada. Sem tréguas. Roleta russa. Vida e morte.
Um convite. Um alerta. Um adeus. Um desespero. Um apelo. Uma saudade que não cede. Uma fuga. Um pecado. Uma vingança. Um amor. Uma loucura dividida. Um sim. Um não...
E AQUI ESTOU.
Dentro deste quarto escuro. Onde você parece estar sem estar. Onde eu estou sem estar. Onde tudo faz sentido. Sentido de labirinto. Onde não existe o segundo, onde não existe mais ninguém. Um lugar onde o tempo parou. Um lugar que revela-se rubro. Rubro-coração. Parece o teu coração. E eu dentro dele. Eu aqui.
NÃO SEI O QUE FAZER AGORA.



 
 
 
 
 
*

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

23:23

.

se você conseguir fazer
a MÁGICA acontecer,

TUDO pode ser.


*

20:08


*

DEIXA ESTA NOITE PRA DEPOIS


*

20:02

.

por mim,
seria sempre entardecer.
o dia ME ensurdece,
exceção quando amanhece, bem cedinho,
tudo mudo, caladinho,

_ ah, o mundo e seus barulhos!,
a gente só emburrece, ou entristece, nada apetece quando a luz é demais,

excessos se apequenam por excesso,
acho que vou ter uma acesso,
eu me atravesso no que posso evitar,
pra que provocar o dia, se a gente pode esperar a calma de uma noite fria ( pergunto)

me escondo do dia, não me revelo na noite,
quero passar despercebida pelas avenidas, ainda que quisesse
te fazer notar,

e mais uma meia dúzia de pares de olhos,
frondosos, amorosos, calorosos, carinhosos que não me fizessem
ter medo de amar,

a noite é boa pra quem não deseja se revelar, nem se transformar, só deseja uma janela baixa, ampla, pra apoiar o queixo e sonhar
sonhar, sem precisar levantar, um sonho preguiçoso,

todo sonho é espaçoso, quase nos rouba a vida,
gente é bicho encolhido, esse mundaréu de possibilidades pensantes, e somos apenas criaturas errantes que têm pressa de chegar,

aonde, tanto faz,
talvez algum canto de noite, onde dê pra respirar um bombocado de ar, degustando um refresco até a MADRUGADA chegar.

Bem sossegada.



*

14:40

me dissolva
essa URGÊNCIA

AGONIA de saber,
por certa,
nossa inviável ( sem via, sem rua, sem mar)

PERMANÊNCIA.


*

14:20

.


me faça acreditar
que isso não é só
PIRRAÇA

não me deixe tão sem graça
aqui, no meio desta praça
com essa cara de palhaça
que não se cansa de esperar!



*

terça-feira, 29 de setembro de 2015

15:15

tão a nossa cara
esse negócio de ficar
sem dar as caras


(cadê coragem pra dar a cara à tapa)
INTERROGAÇÃO



*

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

17:17

.


(nada nos espanta mais)

Exceções, no entanto, existem.
Veja você!



*

17:10

e se eu fizesse mágica
te regava com água de flor
que era pra ver se te tirava essa dor...

17:07

.
 
Nem tudo está perdido se a gente se recolhe, voltar-se pra o que de menor nos compõe:
 
a mesma cama, a mesma casa, a mesma vida de sempre, as mesmas pessoas que nos conhecem desde sempre, ainda que superficialmente, o programa preferido, os livros, o pão, com manteiga e o café fresquinho, as pernas, as calçadas, as canções, o perfume das estações, o sol que insiste, a chuva que vem, os sonhos, o sono, o balanço do sono, os calores, os amores, as dores, as flores que ainda encontram espaço pra florescer, o amanhecer, o entardecer, e a noite, na janela, as estrelas que se alternam, os laços que se apertam, por solidão, por medo da contramão, o medo, conhecido, que nos protege do inimigo mais íntimo, o ser que não desiste de ir além, como se além preenchesse os vazios, os ecos, os vácuos, o labirinto do que sinto;
 
 
recolher-se do mundo no aconchego das coisas pequenas talvez seja, a única salvação.
 
 
 
*

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

14:13







horas passam
corações sentem
mas sentem breve demais!

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

23:13

*


a PAIXÃO é composta:

dois seres
dois signos
dois sóis

dois corações sós.



*

sexta-feira, 31 de julho de 2015

16:00





no lado de dentro dos meus olhos
            tem uma avenida,
a vida passa por ela
          bem mais atrevida...






*

quinta-feira, 18 de junho de 2015

13:23

*



Chove
uma chuva
de flores
vindouras




*

13:05

Oras, pois.
Chove. Para de chover. Daí vem o frio.
O céu está cinza. Parece que sol viajou para algum outro lugar do mundo.
E o mundo, fica cinza sem  sol.
Agora que está cinza, permitido é aos pensamentos,
acinzentarem-se também.
Embora aja o vício de estar no rosa, ainda que cinza esteja.
Estou sempre atrás dos raios rosa.
Insisto na busca, tenho gosto pela busca. Até mais do que pelos alcances.
Porque uma vez que se alcance, era uma vez a busca, e Fim.
O cinza está cheio de possibilidades, é bem interessante.
Observando o cinza, sinto seus ares de rosa.
Mergulho com gosto para dentro deste cinza porque consigo
alcançar-lhe a beleza costumeiramente oculta.


Um dia sem sol não é um dia perdido, de forma alguma.
Um dia cinza é cheio de desafios. Há que se perceber sem o
acréscimo daqueles raios que nos presenteiam com todas as cores.
De todas, a que prefiro é o rosa. As horas cor-de-rosa lembram as
rosas do jardim da minha vó, onde nunca houve uma flor cinza.


Flores cinzas. Flores frias. Flores de mistério.
Quero m buquê de rosas frias e cinzas. Posso sentir-lhe o perfume.
E é bom, tem cheiro de chuva e folha. Seu toque, é molhado.
Há que se ver a cor, a partir do cinza. Seu brilho de água.
Dias cinzas suscitam a memória dos sentidos.
O cultivo de uma nova cor de flor. Flor sem cor,
mas o cinza deste dia está tão cheio de cor...


Um dia cinza com ares de rosa.
Flor fria, inspira-me o calor.
Sinto pelos dias cinzas, amor!






*





quinta-feira, 4 de junho de 2015

18:08

.



às vezes o amor
faz a ronda, denuncia
 aquele seu cheiro de onda,

_e aí, pronto!
se apronta,

é só saudade que aponta.





[infinitos que se arrastam sem demora...]



*

sexta-feira, 15 de maio de 2015

02:08

À beira de ti, escorro-me, insinuações. A noite sem estrelas reforça teu perfume de brumas. Misturo-me às nuvens, às vezes, sinto que evaporo. E resto. Partícula. O tempo do sonho deveria ser JÁ. Fecham-se meu par de olhos castanhos, par de brilho âmbar por você, e reabertos, deparam-se nos teus, azuis tempestade que se anuncia. Nuvens vem, nuvens vão. Você não. Somos um par de contramão. Vias opostas sem conformes, enquanto o sonho vai virando desimportância, a gente cansa e para de sonhar. Ainda que haja nuvem, hajam estrelas e haja até um bem-te-vi, pássaro que não se cansa de cantar. Sonhadores pares de asas. Não devem envelhecer,  JÁ que cantam e sonham sem parar. Bom seria dar uma cambalhota no ar, agora que as nuvens baixaram mais. E dar uma boa cambalhota na lógica, no tempo e nesta impossibilidade que já se concretizou. A janela de onde faço mirante, reflete meu rosto, no reflexo, choro. Mas não sinto mais o gosto das lágrimas. Junto às minhas insinuações, arma-se um aguaçal. Um aguaçal de lembranças, de palavras, um aguaçal de uma saudade que tem saudade de sentir saudades tuas. Onde te guardei, não sei, sei que não rasguei nenhuma das tuas frases, quase sempre estranhas, nem a meia dúzia de sorrisos de nossas conciliações. O acaso virou a esquina. sumiu do mapa, deixou só este gosto de nada, nada que contemplo agora defronte à esta janela. E esta noite que já parece velha, enquanto o sono  não vem,  sonho. O  nada é feito aquele tipo de sacanagem que não resta, mas resta, nem que seja um cisco, e machuca, os olhos, das lembranças, e os olhos da alma. Faz sentido dormir. Mergulhar no inconsciente e sumir. É hora de ir. Foi bom estar do teu lado, no meio da chuva, sonhando passos que não serão dados, mas que mesmo assim, ecoam pela avenida, comprida, como essa vida, e os ecos de tua pessoa querida.



*

quinta-feira, 14 de maio de 2015

23:14

.

.
 
 
é como se não fosse possível
unir o que está em cima
com o que está em baixo
 
 
o que de fato não é possível, mesmo!
 
 
isso é o vazio.
 
 
Você não sente vazio?
_ uau!!!
 
 
 
*
 
 


20:24

.

 
Então você diz alguma coisa, e o que foi dito, já não é mais a mesma coisa. Porque antes a gente pensa. E a coisa pensada também não é só uma coisa. Mistura muitas outras. E outras. E não há linguagem que faça caber nas palavras a coisa que se sente. E se quer dizer. Botar pra fora. Fazer florir. Mas não há como traduzir. Coisa que se sente é de um sentido tão fino que parece escorregar das palavras.
 
Coisa que se diz, ou melhor, coisa que se quer muito dizer, tem que abusar das palavras, e buscar sentidos além, pedir o embalo das mãos,  pedir aos gestos, auxílio aos olhos, _dancem!, aos poros, às ânsias, ao delírio, coisa que se quer muito dizer, tem que exalar, e abusar de algum extra sentido que se faça perceber. Surpreender.
 
Senão, é essa torre de Babel. Parece a mesma língua, mas é língua que todo mundo fala, mas ninguém entende. Talvez no beijo. E olhe lá!. Gastam-se os beijos quando dados por dar, e parece que dar por dar virou a forma de amar. Onde foi parar o deslumbrar? Errou de caminho?
 
 Falar. Escutar. Não tá funcionando. O que se diz, chega aos ouvidos de quem ouve, cansado, esgotado, roubado de tantos significados, que fica lá pelo meio desta viagem um gosto amargo, uma frustração de não conseguir dizer, não conseguir ouvir, não conseguir alcançar a palavra, o sentido, a pessoa, a emoção...
 
Tem salvação? Talvez não. Ou sim. Depende como sempre, do amor. Mais bota força no amor... Vontade, muita vontade, porque quando você 'garra" no amor com força, e usa toda a certeza do teu ser pra fazer aquele ser, ali na sua frente entender, você agrega à todas as tuas palavras, o teu gosto, o teu cheiro, o teu toque, teu, e reveste tudo de amor, lambuza, abusa de todo jeito deste sentimento que parece, todo mundo pode, ou deveria poder, entender:
 
O amor, alimenta a fome da gente. A fome monstruosa que a gente tem por dentro. Fome, tristeza, separação, frustração, a sensação de abandono, de ter sido esquecido neste mundo sem Deus, fome de afeto, desespero por sentir-se amigo, querido, ganhar colo, calar o gemido de criança que fica, quando finalmente alguém te dá o amor, amor que conduz a palavra, palavra amorosa que cala, no abstrato do seu mundo, e seu leito de confortos que nos faz sentir, alimentados, alimentados de amor.
 
 
Alimentados de amor.
Alimentados de amor.
 
 
[A fome não é um pavor? Dor]
 
 
 
*

sexta-feira, 27 de março de 2015

20:48

.


oferecer nossas belezas ao ser amado,
é moleza,
somos exibicionistas, temos sede por adoração,

AGORA,
oferecer nossas decadências, nosso lado doentio, feio, lúgubre
expor o que em nós dói,

este sim, é um grande gesto de AMOR.


[eu acho]



*

quinta-feira, 26 de março de 2015

20:15

.

 
Deve ter sido coisa daquele passarinho cantando na minha janela. Só sei que acordei com carinho. Um carinho enorme no coração. Pelo ser humano. Todo ELE. Toda gente, toda forma de ente, é tanto que chega doer  no coração. De tanto carinho. Pelo ser, humano. Todos sem exceção. Os que estão à direita. Os que estão à esquerda. Os que estão ao meu lado, os que estão longe, os que combinam comigo, e todos os que não, os que eu consigo entender, e todos os que me parecem estranhos no ninho. Os estranhos e seus caminhos. Até me lembram passarinhos, esses seres humanozinhos.
Destitua o ser humano de suas roupas, das suas coisas todas, seu lugar social, seu vil metal, e ali estará um ser passarinho. "Metaformize": tão bonitinho, tão puro e desprotegido esse ser quando desprovido... Quem é o ser humano sem as suas materialidades? Observado ente, observante ser.
Dá tanto carinho no coração... Um único ser é um mundo todo, e ao mesmo tempo, é um nada. Nada versos nada. Um grão. Um sopro. Um pó. Tão só... Nasce, sofre pra crescer, sofre pra entender oque fazer do corpo, e de todo sentimento que se acumula em sua cabecinha ululante, e ainda que cresça, e ainda que faça e aconteça, não haverá fortaleza que o proteja de um giro próprio, um giro que não lhe permite decidir. Só se iludir. Só da pra ir. E cair. E tornar a ir, e se possível se pondo a rir de sua própria insignificância.
Rir pra não chorar. Ah!, este mar de estrelas em que está contido mesmo sem notar... Tão engraçado o ser humano. Pensa que vai pro céu num dia desses, e se benze, _ Deus nos livre e guarde!, sem se dar conta que já está no céu, só sente seus pés tão firmes no chão, ser da terra, quando de fato, está flutuando pela imensidão do tudo. Do Todo. 'Metaforize': Imagine a terra. Rodando, rodando. Agora imagine-a de longe, mais longe ainda, suspensa por entre estrelas e espaço que se expande ao infinito. Deixe-se levar. E vá além. E mais além, e então, olhe todas as estrelas ao redor, as constelações, os planetas, as novas, as super novas, os sóis, as luas, e solte-se mais, e sinta o silêncio canção, e por instante, um instante só, volte seu olhar para trás.
Procure alguém. Onde foram parar os seres humanos? Cadê os passarinhos e seus ninhos, onde foram parar seus caminhos e seus descaminhos? Não dá um imenso carinho no coração imaginar o ser humano no meio dessa imensidão?
 
 
 
 
*