quinta-feira, 14 de maio de 2015

20:24

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Então você diz alguma coisa, e o que foi dito, já não é mais a mesma coisa. Porque antes a gente pensa. E a coisa pensada também não é só uma coisa. Mistura muitas outras. E outras. E não há linguagem que faça caber nas palavras a coisa que se sente. E se quer dizer. Botar pra fora. Fazer florir. Mas não há como traduzir. Coisa que se sente é de um sentido tão fino que parece escorregar das palavras.
 
Coisa que se diz, ou melhor, coisa que se quer muito dizer, tem que abusar das palavras, e buscar sentidos além, pedir o embalo das mãos,  pedir aos gestos, auxílio aos olhos, _dancem!, aos poros, às ânsias, ao delírio, coisa que se quer muito dizer, tem que exalar, e abusar de algum extra sentido que se faça perceber. Surpreender.
 
Senão, é essa torre de Babel. Parece a mesma língua, mas é língua que todo mundo fala, mas ninguém entende. Talvez no beijo. E olhe lá!. Gastam-se os beijos quando dados por dar, e parece que dar por dar virou a forma de amar. Onde foi parar o deslumbrar? Errou de caminho?
 
 Falar. Escutar. Não tá funcionando. O que se diz, chega aos ouvidos de quem ouve, cansado, esgotado, roubado de tantos significados, que fica lá pelo meio desta viagem um gosto amargo, uma frustração de não conseguir dizer, não conseguir ouvir, não conseguir alcançar a palavra, o sentido, a pessoa, a emoção...
 
Tem salvação? Talvez não. Ou sim. Depende como sempre, do amor. Mais bota força no amor... Vontade, muita vontade, porque quando você 'garra" no amor com força, e usa toda a certeza do teu ser pra fazer aquele ser, ali na sua frente entender, você agrega à todas as tuas palavras, o teu gosto, o teu cheiro, o teu toque, teu, e reveste tudo de amor, lambuza, abusa de todo jeito deste sentimento que parece, todo mundo pode, ou deveria poder, entender:
 
O amor, alimenta a fome da gente. A fome monstruosa que a gente tem por dentro. Fome, tristeza, separação, frustração, a sensação de abandono, de ter sido esquecido neste mundo sem Deus, fome de afeto, desespero por sentir-se amigo, querido, ganhar colo, calar o gemido de criança que fica, quando finalmente alguém te dá o amor, amor que conduz a palavra, palavra amorosa que cala, no abstrato do seu mundo, e seu leito de confortos que nos faz sentir, alimentados, alimentados de amor.
 
 
Alimentados de amor.
Alimentados de amor.
 
 
[A fome não é um pavor? Dor]
 
 
 
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