sexta-feira, 25 de setembro de 2015

17:07

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Nem tudo está perdido se a gente se recolhe, voltar-se pra o que de menor nos compõe:
 
a mesma cama, a mesma casa, a mesma vida de sempre, as mesmas pessoas que nos conhecem desde sempre, ainda que superficialmente, o programa preferido, os livros, o pão, com manteiga e o café fresquinho, as pernas, as calçadas, as canções, o perfume das estações, o sol que insiste, a chuva que vem, os sonhos, o sono, o balanço do sono, os calores, os amores, as dores, as flores que ainda encontram espaço pra florescer, o amanhecer, o entardecer, e a noite, na janela, as estrelas que se alternam, os laços que se apertam, por solidão, por medo da contramão, o medo, conhecido, que nos protege do inimigo mais íntimo, o ser que não desiste de ir além, como se além preenchesse os vazios, os ecos, os vácuos, o labirinto do que sinto;
 
 
recolher-se do mundo no aconchego das coisas pequenas talvez seja, a única salvação.
 
 
 
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Um comentário:

Lucas - Blog: Overture disse...

Um texto brilhante!
As coisas pequenas, diriam alguns, levam-nos ao nosso ser pequeno, sem projetos, sem ousadias, sem desafios, sem coragem, sem coração...
As coisas pequenas estão preenchidas de grandiosidades, diriam outros. E, sendo assim, levam-nos não ao ser pequeno, mas àquilo que em nós é o ser mais humano, mais natural, mais feliz. É nas coisas mais pequenas que está, justamente, a essência do nosso coração, que não sonha grandiosidades, mas felicidade.
O debate vai longe!
Mas eu fico com teu texto, com essas amenidades tão prazerosas, com o aconchego do que é simples e bom.
Estar aqui, por exemplo, ao som da chuva lá fora, é bom! É muito bom!
Beijosssssssss