terça-feira, 6 de outubro de 2015

14:14

É.
É como entrar num quarto escuro. No primeiro momento você estranha, tropeça, sente medo, quer voltar, não acha a saída, a respiração sofre, o coração descompassa, e você para.
PARA.
Para onde está. Aos poucos, você volta a respirar. E o coração se acalma. Uma longa respiração te traz os sentido de volta. E o escuro já não é mais tão escuro. Os olhos se acostumam. E descobrem algo.
NÃO ESTÁ TÃO ESCURO ASSIM.
Nem tão quieto. Nem tão pavoroso. Nem tão devastador a ponto de significar um fim. Dá até para perceber algumas coisas. Um pequeno passo para o lado. Um tatear. Talvez nada. Talvez uma estranha paz.
PAZ.
E uma luz ínfima, que não revela, exceto algumas partículas velhas que insistem no movimento de permanecer. Há vida. Há até um suave aroma de alguma coisa que resistiu. Uma rosa seca. Uma taça onde restam gotas de alguma bebida doce, talvez um licor de aniz.
SENTIR.
Não há tempo aqui. Há um relógio na parede onde alcançam minhas mãos. Está parado. Tateando, descubro as horas paradas. Duas horas. Parece madrugada. Esbarro numa mesa de carvalho. Dá pra sentir a antiguidade de sua pátina. Deslizo as mãos por esta madeira e encontro conforto. 
ONDE.
Folhas e mais folhas de papéis. Meus pés tocam as que repousam suas letras que chegaram ao chão. Vou catando, uma a uma, desamassando-as como se para trazê-las de volta. As palavras falham, mas nem por isso, as intenções. Não posso ler o que está escrito, mas posso sentir o sabor. Levo a boca. Sinto gosto de lágrima. De álcool. De sândalo. De dor. E de amor.
AMOR.
Como acontece. Como aconteceu de eu parar aqui. Dentro deste lugar sem portas. Sem janela. Iluminado e sem luz. E porque, estranhamente, me sinto bem aqui...
ALGUÉM MORA AQUI.
A última coisa que me lembro é que eu estava dormindo. Sonhando com você. Sem rosto. Sem presença. Sem alma. Sem existir. Então, acordei no meio da noite, levantei e fui à janela, como quem vai ao encontro de um chamado.
DUAS  HORAS.
Da madrugada. E ali estava um vulto. De um alguém, vestido de preto, de costas, alguém que chama mas não quer resposta. Só quer a pergunta. Só quer a luta. O jogo. Sem regras. No escuro. No tudo, no nada. Sem tréguas. Roleta russa. Vida e morte.
Um convite. Um alerta. Um adeus. Um desespero. Um apelo. Uma saudade que não cede. Uma fuga. Um pecado. Uma vingança. Um amor. Uma loucura dividida. Um sim. Um não...
E AQUI ESTOU.
Dentro deste quarto escuro. Onde você parece estar sem estar. Onde eu estou sem estar. Onde tudo faz sentido. Sentido de labirinto. Onde não existe o segundo, onde não existe mais ninguém. Um lugar onde o tempo parou. Um lugar que revela-se rubro. Rubro-coração. Parece o teu coração. E eu dentro dele. Eu aqui.
NÃO SEI O QUE FAZER AGORA.



 
 
 
 
 
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