segunda-feira, 2 de novembro de 2015

18:08

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É tudo tão vasto, e a única palavra que me ocorre é hermética. Fechada. Lacrada. Secreta. Inalcançável. Uma casinha no mais alto do morros. Talvez um porão. Um sótão. Sem alçapão.
 
É tudo tão vasto. Tão imensidão. Tudo ao alcance das mãos. E ao mesmo tempo, _não!, tudo nos escapa, tudo é sopro, tudo é nada, o dia, a noite, uma madrugada.
 
É tudo tão vasto por dentro. É tudo tão restrito ao mesmo tempo. E o lado de fora que não supera a ânsia do mais e do mais e do mais.
 
Sentir-se pequeno. Parte de um imenso tão imenso que o que sobra é o nada.
 
Embora.
 
Vez ou outra, a sensação muda. Somos imensos também. Imensos quando despertados. Imensos quando acordados. Imensos quando amados. Imensos quando apaixonados.
 
Feito quando criança, subindo nos telhados. Os donos do mundo. O poder de voar. Ninguém pra te alcançar. A liberdade de sonhar.
 
Seguimos saltando de grandezas à pequenezas, dentro de uma única certeza:  A GENTE PASSA.
 
Tudo passa. Passo eu, passa você, passa o tempo, passa o vento, passa o pó e a vassoura, passam as folhas, as flores, o pássaro azul passa bonito, e o amor, aflito, agarrado a tanto pesar, passa, ferido por não conseguir durar.
 
Duradouro só mesmo o tempo dentro do tempo. Tudo passando, menos ele. Sempre ele dentro dele mesmo.
Chora o tempo por passar por tudo menos por si.
 
Imensidões.
 
Abro caixinha dos teus escritos hermeticamente guardados.
Surpresa: ali o tempo não passou.
 
Guardo-me então, também, hermeticamente fechada.
 
 
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Um comentário:

Wendel Valadares disse...

Tem um poema da Adélia que termina assim: "hora em que se o mundo acabar eu nem vejo".

18:08 horas se passaram de uma dia em que, não fosse a esperança de que há escritos hermeticamente guardados que precisam ser encontrados, nem valeria à pena existir.

É possível nos guardarmos numa caixinha assim, Be? Uma caixinha onde o tempo não passa?

Mas, se por ventura o tempo passar - eu sei que passa - a gente canta com o Chico: "[...] Te encontro, com certeza, talvez num tempo da delicadeza..."

Um abraço.