sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

14:38

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Em que século estou, a pergunta.
O século é quinze, a resposta.
É a Idade Média.
 
A fogueira arde e queima minha pele sem perdão. Demora a queimar. A primeira coisa que você sente é o cheiro. O cheiro do fogo onde antes eu assava o pão. Resguardo as mãos.
Depois, sente o cheiro dos outros corpos, ao seu lado, corpos de todas as outras mulheres que ali estão, queimadas, pela metade, terços, quartos, gritos, ainda vivos, os sons são longínquos, um som sinistro que anuncia que longa será essa dor, mais longa que todas as vidas já vividas por um mau agouro de ser escolhida pra descer à este inferno de águas claras, traiçoeiras, caí de uma estrela bem no meio da fogueira.
 
O fogo arde. Tem cheiro de enxofre os pedaços dos meus pés derretendo e alcançando minhas coxas tão lisas, em que deslizas com as mãos, um delírio no meio dessa aflição, um alivio de meia fração. Arde-me o ventre a dor de todos os pecados julgados por falos em forma de um mamífero a quem chamam homem, que por certeza da posse, do força, fez refém as fêmeas dessa espécie que deveria estar em extinção.
 
E a gente não morre. Nem eu. Nem todas essas mulheres aqui. O alivio do delírio dura a fração de uma volta. Porque não nos é permitido morrer, há que se sentir a dor do viver.
 
A idade é menos que média. É a barbárie. Condição: Mulher.
Maldito seja o dia em que seres de outras esferas nos roubaram o dom das feras, e nos jogaram aos leões, famintos de carne e escravidão.
 
Escravidão. Silenciosas, revoltas. Às rebeldes, queimemo-as vivas!, mas não sem antes abusar, violentar, socar-lhes os cornos até que sobrem apenas as frestas do chão. O chão que conhecemos. Lavados com nossos cabelos, o chão onde parimos os filhos, o chão que nos faz ninho, lambemos o chão do mundo, e as glandes, a merda, a fantasia da nossa condição.
 
Vamos escapar da fogueira! Vamos aos templos dos embelezamentos, vamos viver de hortaliças, vamos ser  magras e rijas, para sermos comidas, privilégio de ser escolhida, para que venham nos montar, cavalgar nossas ancas pra gozar um sentido, que por nós ser engolido, à mulher cabe engolir a porra toda, guela abaixo, pra depois correr e lavar os cabelos, aparar os pelos, trata-se de correr para não ser queimada viva.
 
Mas é tudo um blefe.
Quando a hora alta chegar, envelheceremos. Levas e levas de carne fresca no mercado do dia. A carne flácida, o cansaço de todos os usos e abusos gritarão. Mais cedo ou mais tarde, é a condição.
Nos tapiaremos umas às outras, com promessas de faca extirpando gorduras, usaremos ataduras, unguentos para dar a volta no tempo, e o que restará será o lamento.
 
Mulher não nasce. Mulher queima.
 
E teima que não. Atira-se em rodeios, mas a nome da esperança é NÃO. Talvez, em algum tempo, exceção. Talvez uma Presidenta, que não sei como aguenta, de algum país povoado por trogloditas, tente, enquanto concedem-lhe a alcunha de maldita, primitivos rótulos espelham a prima condição:
 
Ao homem cabe o poder. O direito cabal. O ponto final. Ao homem cabe o comando, cabe o direito  de nos gritar injúrias, em praça pública, o direito de nos mandar cobrir os peitos, as tetas que os alimentam, ou subir no mais alto dos tablados pra assegurar às feias o não privilégio ao estupro, e por fim, definir que o corpo feminino é um insulto às normas, masculinas normas, somos o pecado original diz a Bíblia, extirpou uma Lilith da vida, a primeira queimar na fogueira , e que queima ainda viva na pele de cada mulher que sente no lombo as chibatadas que antecedem o fogo, arde o couro, a carcaça, e todo esse tempo de mau agouro, tempos fálicos que estribilham em coro às rebeldes que teimam, que resistem, _ mal-comidas!, _mal-amadas!, abram-nos logo todas as feridas, enquanto aplaudimos o êxtase , macho alfa, beta, gama, a mulher se engana.
 
Só não, quando sangra. O privilégio de sangrar por conta própria é nosso, somos nosso próprio castigo.
 
O fogo chega-me às partes onde, feliz coincidência,o sangue escorre-me, abundante comprovando minha condição de mulher, e ali, a dor é quase familiar, ancestral, colo de ardores, amores que mais não. Perco sentido. Um desmaio. Um alivio. Não queime as minhas mãos fogo maldito!, lembro que grito, e uma lembrança surge, doce, suave, chega-me como um bálsamo pras minhas mil feridas, algum reino, alguma Vênus perdida, algum espaço onde éramos adoradas, cuidadas, amadas, as flores faziam-nos água pra banhar nossos longos cabelos, e éramos de todas as cores, de todas as formas, reverenciadas pela delicadeza, era só isso desde o começo, delicadeza, e não éramos gênero, éramos seres, amáveis seres, nem homem, nem mulher, éramos seres livres da dor,  existe ou invento, a agonia é sempre igual, um segundo colossal, enquanto clamo aos céus dos abandonos, _Pare essa dor!, conceda-nos, por clemência, a alternativa de um ponto final.
 
 
 
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