segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

15:15

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Você perde um pouco a fé.
Ninguém anda mais à pé.
Pé por pé. Na boa. Na fé.
 
Botar fé você bota, mas aí vem a vida, e te sabota.
A vida não, _ epa!, é a hora da xepa,
era tudo treta, a vida não tem nada com isso, eita!
 
Nem com isso, nem com aquilo,
são meus esses grilos, esses profanos delírios,
 
é que eu estava na mira,
não se admira,
caí na rima,
caí na lábia,
olhos de Arábia,
 
tenta resistir,
tenta não sorrir,
dá voltas,
cambalhotas a chamar,
_vem brincar!
vem experimentar alguma novidade que confirme,
alguma que desafie, desmistifique a sina de que se ralar
faz parte,
arde, mas passa,
não desiste,
 
logo eu, que nunca gostei de brincar.
Não curto piada.
Acho de mau tom a risada.
Dou a vez na calçada.
Sou educada demais pra cilada.
Meu negócio é tudo ou nada.
 
E a velha porta bem trancada...
Foi um segundo de nada
e eu destranquei
não me toquei
_ei, ei, vem cá, meu bem!
e eu olhei,
pouco desconfiei,
do velho vício, desencanei,
pensei:
_ me curei!
 
Era um rei.
Não tinha pra ninguém.
 
Peguei as malas e as cuias,
pra fora eu me mudei,
esperneei antes,
e me calei,
eu mesma me hipnotizei,
não foi alguém,
eu projetei,
e acreditei no reino
onde o príncipe era encantado,
abri todos os cadeados,
danem-se os cuidados
mergulhei!
 
E foi pouco.
Tinha mais delírio guardado.
Um estoque infindável.
 
O medo foi descartado
e súbito,
a fé, pé por pé,
havia reencontrado.
 
Descalça de avisos e resguardos,
corri pros seus braços,
e foi como se...
e foi como se sempre...
e foi como se nunca...
e foi como se fosse...
 
E foi como se não fosse a velha mania de ter fé na vida, a vida que não tem nada a ver com isso, tá lá na porta, me sorri o sorriso dos pais:
_ eu te falei!
Recolhe-se a vida e me leva com as mãos.
Volto pra dentro, não sem tormento, enquanto água quente me alivia ferimentos, lamentos,  e mais todas as outras feridas reabertas, foi por um triz, tudo vira cicatriz,  é a sina de quem não se atina aos sinais e às fumaças das catedrais.
 
Toma de volta tua canção. Quero, não!
Nunca foi meu o seu coração.
 
Nego, não!
 
 
 
*

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