domingo, 20 de dezembro de 2015

17:07

.

Queria esse poder de atribuir. De fazer do acréscimo, mais que uma suposição. Queria dar ao acréscimo o poder da condição.

A condição de fazer ficar. A condição de inundar. A condição de se fazer maior do que a razão que insiste em verbos estranhos, afastar, desconfiar, descontrolar, afastar.

Às vezes, penso que somos movidos por astros antagônicos. Simultânea e ironicamente. Nada é transparente. Olho pra gente. Reconheço e desconheço. Me atiro e me retiro. Retidão e desalinho.

Que estranho esse caminho. Nada é retilíneo. São curvas. Beiradas. É um tudo e um nada enquanto o vento sopra nas calçadas a imprecisão.
 
O vento varre as palavras. Estão todas voando. O redemoinho que se forma, forma múltiplas formas que não sei identificar. Fantasmas, corpos, feras, janelas, corpos, um coração, quase se pode ver dois, depois não, depois sim, depois não de novo, enquanto soltas como folhas desprendidas dos galhos de alguma árvore da vida, todas aquelas palavras queridas, voam.
 
Voam. Penso no pouso. Penso onde irão depois que o vento sossegar. Penso nelas, quando a chuva cair. E molhar aquelas letras entrelaçadas em madrugadas, dias e noites, volúpias carregadas por uma insistente bruxa malvada que só conhece o não.
 
O tempo. O espaço. O lado de lá. O lado de cá. E todos os olhos. E todas as pernas. E todas as tentações. Não é porque sou feita de águas que não posso arder tempestades. E arderei cada uma delas, ainda que pelo lado inverso, ainda que seja fraca de verso.
 
Foi na semana passada. Ou na outra. Ou ainda. Ou nunca. Fica um pra sempre suspenso no topo de um prédio, preso aos ramos de um ninho, algum passarinho que desconcertou, e foi-se, bateu suas asas por causa do seu canto engasgado na guela.
 
Não se prende o que não é de se prender. Mas também não se solta, o que não é de se soltar. Vai passar. Vai passar como passa agora esse vento, nem festejos, nem lamentos, sem argumentos pra voltar.
 
Às vezes parece que os astros não gostam de ver o gostar se alastrar. Preferem outras cenas, muitas cenas, preferem atiçar as nuvens e ver a bagunça das carnes tremular.
 
Quem iria ficar. Ali, na calma de um instante que de antemão é sabido, finito para os filhos dos grandes elementos. E quem sou eu. Pouco mais que um sopro. Uma gota. Uma partícula de gota que pretende-se temporal.
 
Chove no quintal. De novo chove sobre as roupas do varal. Tudo igual. Véspera de Natal. O ano em cólicas pra terminar, como sempre, tudo igual. Um ano que não se valida. Massa falida. Tudo está certo neste ponto que sempre tratou-se, final.
 
 
*

Um comentário:

Jason Jr. disse...

Desejando boas festas! Boas não, Ótimas festas!