domingo, 6 de dezembro de 2015

18:18

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Daí chove lá fora, e você não está aqui.
Chove longamente, num ritmo que acelera ainda mais as vontades de água, de umidades reverberadas, que se estendem, feito uma noite de amor de uma qualquer madrugada.
 
Não quero rimar as palavras, quero algum inverso desse inverno que se estende por verões que não se espraiam, mas... essas vontades de um voo impossível, de um flerte entre um ser feito de sol, e uma criatura miúda, que corre e molha seus pés em poças de uma água já caída,  rimar parece a única saída, de me salvar.
 
Chove um mar de chuva , e você, te vejo em labaredas. As eiras e as beiras das casas gotejam a água que cai pra fazer a tua música tocar. Preferem sóis. Envolto. Envolvendo. Revivendo o respirar.
 
O fogo. O sol. Teus vermelhos labiais. E essa força muito louca de quem vai te afrontar. Vai rimar. Vai. Vai rimar porque tenho uma mania de rima, como se o verso me salvasse da dor de saber onde isso vai dar. Ou não vai dar. Ou ainda, te encontrar.
 
Quem ama chuvas, não teme as lágrimas que lhe chovem. O riso e seus raios quentes, solares olhos de queima, sem queixa nenhuma de nada, nada se ganha, algo se conquista quando percebo que conheço pouco, muito pouco, todos os meus nadas, desejosa desse sal. Talvez precise parar de chover. Pra ver acontecer as novas precipitações das minhas próprias moléculas estelares.
 
Acende. Apaga. O sol. A chuva. As calçadas, molhadas, e o primeiro poste ilumina a tua falta. Uma luz amarelada reflete raios sobre a chuvarada, e percebo, encantada, um momento único pra mim:
 
Luz e água se contém. Nessa cena tão pequena, queria fotografar pra você ver. Dos sinais, os bonitos não me escapam. Se não surgem, cabe a mim inventá-los, e o que eu faço, senão, inventar-me um pouco mais a cada dia, pra viver...
 
Fundem-se lindamente. Penetram-se. Aceitam-se como se, feitos uns para o outro, fossem. Uma explosão de onde nasce simplesmente, beleza. Sem mais, nem porquês. Sem hoje, nem amanhãs. Uma manhã anunciada apenas. 
 
A cena: a luz do poste acende, as pingos de chuva caem, e no meio desse caminho molhado e iluminado, uma fusão dos dois resulta num reflexo espelhado. Amarelado. Meio avermelhado. Tendo a mim por testemunha espantada. Vi o amor daqui da minha janela, uma boba, muito bem acomodada.
 
Estendo o olhar por esta mesma janela de frente ao arvoredo, e por entre todas essas folhas cansadas de serem verde, sempre verde, mais raios de luz. Outros postes se acendem. Te aceno. Te vejo em cada ponto destas luzes, como se o teu chegar, fosse anunciado.
 
A chuva anuncia. Recria. E eu quase que me esquecia como é possível sobreviver, mesmo sem. Mesmo com. Mesmo sendo chuva enamorando-se por sóis.
 
(isso sem contar a lua que nasce de vez em quando, uma em cada rua pra roubar sua atenção)
 
É que eu ia falar de ciúmes. Daí percebi que mudei. Sem perceber, me acalmei. Deve ser essa chuvarada molhando a minha alma penada.
 
 
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