sexta-feira, 15 de maio de 2015

02:08

À beira de ti, escorro-me, insinuações. A noite sem estrelas reforça teu perfume de brumas. Misturo-me às nuvens, às vezes, sinto que evaporo. E resto. Partícula. O tempo do sonho deveria ser JÁ. Fecham-se meu par de olhos castanhos, par de brilho âmbar por você, e reabertos, deparam-se nos teus, azuis tempestade que se anuncia. Nuvens vem, nuvens vão. Você não. Somos um par de contramão. Vias opostas sem conformes, enquanto o sonho vai virando desimportância, a gente cansa e para de sonhar. Ainda que haja nuvem, hajam estrelas e haja até um bem-te-vi, pássaro que não se cansa de cantar. Sonhadores pares de asas. Não devem envelhecer,  JÁ que cantam e sonham sem parar. Bom seria dar uma cambalhota no ar, agora que as nuvens baixaram mais. E dar uma boa cambalhota na lógica, no tempo e nesta impossibilidade que já se concretizou. A janela de onde faço mirante, reflete meu rosto, no reflexo, choro. Mas não sinto mais o gosto das lágrimas. Junto às minhas insinuações, arma-se um aguaçal. Um aguaçal de lembranças, de palavras, um aguaçal de uma saudade que tem saudade de sentir saudades tuas. Onde te guardei, não sei, sei que não rasguei nenhuma das tuas frases, quase sempre estranhas, nem a meia dúzia de sorrisos de nossas conciliações. O acaso virou a esquina. sumiu do mapa, deixou só este gosto de nada, nada que contemplo agora defronte à esta janela. E esta noite que já parece velha, enquanto o sono  não vem,  sonho. O  nada é feito aquele tipo de sacanagem que não resta, mas resta, nem que seja um cisco, e machuca, os olhos, das lembranças, e os olhos da alma. Faz sentido dormir. Mergulhar no inconsciente e sumir. É hora de ir. Foi bom estar do teu lado, no meio da chuva, sonhando passos que não serão dados, mas que mesmo assim, ecoam pela avenida, comprida, como essa vida, e os ecos de tua pessoa querida.



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quinta-feira, 14 de maio de 2015

23:14

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é como se não fosse possível
unir o que está em cima
com o que está em baixo
 
 
o que de fato não é possível, mesmo!
 
 
isso é o vazio.
 
 
Você não sente vazio?
_ uau!!!
 
 
 
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20:24

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Então você diz alguma coisa, e o que foi dito, já não é mais a mesma coisa. Porque antes a gente pensa. E a coisa pensada também não é só uma coisa. Mistura muitas outras. E outras. E não há linguagem que faça caber nas palavras a coisa que se sente. E se quer dizer. Botar pra fora. Fazer florir. Mas não há como traduzir. Coisa que se sente é de um sentido tão fino que parece escorregar das palavras.
 
Coisa que se diz, ou melhor, coisa que se quer muito dizer, tem que abusar das palavras, e buscar sentidos além, pedir o embalo das mãos,  pedir aos gestos, auxílio aos olhos, _dancem!, aos poros, às ânsias, ao delírio, coisa que se quer muito dizer, tem que exalar, e abusar de algum extra sentido que se faça perceber. Surpreender.
 
Senão, é essa torre de Babel. Parece a mesma língua, mas é língua que todo mundo fala, mas ninguém entende. Talvez no beijo. E olhe lá!. Gastam-se os beijos quando dados por dar, e parece que dar por dar virou a forma de amar. Onde foi parar o deslumbrar? Errou de caminho?
 
 Falar. Escutar. Não tá funcionando. O que se diz, chega aos ouvidos de quem ouve, cansado, esgotado, roubado de tantos significados, que fica lá pelo meio desta viagem um gosto amargo, uma frustração de não conseguir dizer, não conseguir ouvir, não conseguir alcançar a palavra, o sentido, a pessoa, a emoção...
 
Tem salvação? Talvez não. Ou sim. Depende como sempre, do amor. Mais bota força no amor... Vontade, muita vontade, porque quando você 'garra" no amor com força, e usa toda a certeza do teu ser pra fazer aquele ser, ali na sua frente entender, você agrega à todas as tuas palavras, o teu gosto, o teu cheiro, o teu toque, teu, e reveste tudo de amor, lambuza, abusa de todo jeito deste sentimento que parece, todo mundo pode, ou deveria poder, entender:
 
O amor, alimenta a fome da gente. A fome monstruosa que a gente tem por dentro. Fome, tristeza, separação, frustração, a sensação de abandono, de ter sido esquecido neste mundo sem Deus, fome de afeto, desespero por sentir-se amigo, querido, ganhar colo, calar o gemido de criança que fica, quando finalmente alguém te dá o amor, amor que conduz a palavra, palavra amorosa que cala, no abstrato do seu mundo, e seu leito de confortos que nos faz sentir, alimentados, alimentados de amor.
 
 
Alimentados de amor.
Alimentados de amor.
 
 
[A fome não é um pavor? Dor]
 
 
 
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