sábado, 14 de novembro de 2015

16:42

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Neste exato momento no mundo alguém sorriu. Neste exato momento no mundo, alguém novinho em folha acabou de nascer. Neste exato momento no mundo, alguém está beijando alguém, pela primeira vez. E alguém voltou a falar com outro alguém, sem mais nem talvez.
Neste exato momento no mundo, alguém gozou. E alguém notou um brilho novo no olhar. Neste exato momento no mundo, alguém voltou. Voltou a andar, voltou a amar, voltou a acreditar, enquanto  um outro alguém resolveu parar de chorar.
 
Neste exato momento no mundo, alguém está viajando de avião, alguém está levando um sermão, e outro alguém está colhendo feijão e fazendo calos nas mãos. Neste exato momento no mundo alguém está em festa. Alguém está perdido na floresta, alguém levou um chifre na testa, enquanto outro alguém dispara uma flecha.
 
Neste exato momento no mundo, alguém está cansado. E alguém está casando. E alguém está cantando. E alguém está se apaixonando pela décima vez. Neste exato momento alguém está se formando no ventre de outro alguém. E esse alguém nem sabe se quer mesmo nascer.
 
Neste exato momento alguém está morrendo. Alguém está tremendo de medo do que pode ser capaz um outro alguém. Neste exato momento no mundo, alguém chora seu morto no cemitério, enquanto outro esbraveja o mistério, e um outro de outro hemisfério se recolhe contrito num monastério.
 
Neste exato momento no mundo, alguém se pergunta. E um outro também quer saber. Outro só faz se calar, enquanto outro quer reclamar, e um outro estende a mão pra alguém levantar. Neste exato momento no mundo, alguém está bem por estar vivo, enquanto alguém está mal porque queria estar noutro  nível.
 
Neste exato momento no mundo, alguém só quer um abraço. Outro alguém está pensando naquele amasso, alguém ensaia seus primeiros passos,  enquanto alguém comenta com outro alguém que sua vida é um fracasso.
 
Neste exato momento no mundo, alguém se pergunta porquê. Alguém se pergunta porque não. Outro alguém se pergunta porque comigo, enquanto outro alguém só quer um abrigo pra se esconder do perigo.
 
Neste exato momento no mundo, alguém adoeceu. Outro alguém se arrependeu. E outro alguém se condoeu com a dor de alguém que sofreu. Neste exato momento no mundo alguém abriu uma janela. Alguém viu uma flor. Outro alguém se deparou com a dor. Todo alguém desejou uma prova de amor.
 
Neste exato momento no mundo, todo tipo de alguém experimenta um lado da moeda que em seguida será de outro alguém. Alguém está subindo. Outro alguém está sumindo, enquanto alguém desce a ladeira pra rezar pelo mundo, numa missa de Domingo.
 
Neste exato momento no mundo, alguém respira. Outro alguém respira. E outro, e outro, respiram. Neste exato momento no mundo, toda gente, pira. E se retira por alguns segundos, pra tentar entender as alegrias e as dores do mundo.
 
Neste exato momento no mundo, o sentido se conforma em não fazer qualquer sentido, enquanto a Vida, que não sabe se é triste ou se é bonita, concede, em todo canto do mundo, giramundo, a gentileza de continuar.
 
 
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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

22:25




derretendo satélites



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22:22

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sobre plágio:
é tipo a flecha. A palavra. E ela sempre saberá de que arco partiu.


né, miga...



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20:33

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Essa alternância de HIATOS.

(hiato: intervalo, pausa, desconexão, distância, com ou sem intenção, tudo intercalado.)
 
Presença, ausência, paciência, nada se encaixa dentro destes nossos ensaios de viver em tempos descompassados.
 
E são tantos os tempos, adventos, contratempos, novos ventos, eu não aguento mais esse tormento, de onde me surge um novo argumento:
_ E se fossem outros os convites...

Por exemplo:
 
Hoje você poderia ser Dante, e eu, a sua Beatriz. Não aqueles dois deprimidos da ponte, mas dois seres que fogem para outros jardins. Podemos ser até crianças, Romeu e Julieta, crianças em idade de amar...
 
Podemos brincar de esconde-esconde, mas não entre céus e infernos, chega desse frio, chega desse inverno, deixemos o purgatório pra depois, vamos chutar as culpas, as cobranças, as lamúrias, vamos fazer delas pedras de um castelo moderno, sem breu, chega de tanto cinza, e de tanta lama, e de tanto drama,

vamos trocar temporais por litorais, vamos parar de ver vultos e vamos pular uns muros, correr na noite, destrancar o quarto, pular da cama, vamos calar o mundo e torna-lo só nosso,

se o pesadelo é possível, tudo é crível, podemos viver uma noite incrível, sem velas sem arandelas sem sentinelas a nos vigiar, podemos ser duas almas, mas também dois corpos, sangue nas veias, pulsações, excitações, outros toques,

e muitos beijos,
podemos mais do que supomos, embora sejamos dois bobos, colecionadores de hiatos, dois chatos, dois amantes que abrem mão da volúpia, pra ficar olhando as voltas que a cornucópia dá, ou deixa de dar,
 
se eu sou Beatriz, você é meu Dante, mas podemos ser outros tantos,  podemos usar o nome que melhor nos aprouver, Ana, Maria, Fausto, Miguel, que importância tem o céu e o Infinito se  todo  segredo está talhado em granito, somos guardiões, mas também somos corações, nunca teremos direito se sempre formos iguais, e é aqui que   essa outra que sou,  te convida para fugir destas fúnebres catedrais.
 
Vamos ser somente gente. Gente de carne e osso, tomados por uma paixão descabida, fechar as portas do ego, desse super ego infernal, e mergulhar na alma, na calma, na descoberta de palavras novas, para nós, tão pouco usais,
 
vamos falar de espumas, bolhas de sabão, vamos falar de almofadas, da delicia de não fazer nada, vamos falar de comidas, frívolas delicias, frutas da estação, vamos entrar na contramão daquela avenida, vamos deixar definida nenhuma condição, a não ser a que nos garanta uma nova sensação
 
uma sensação de conforto, intimidade, deletar a saudade do mapa, assinar nossos nomes na ata que nos desata dos nós marítimos, e se for para afundar, só ser for no mais alto do mar, pra mergulhar com um folego sem fim, sinta meu peito, assim, com todo o ar do mundo dentro de mim, assim , assim,

tudo verde, tudo azul, turquesa, esmeraldas, veja como são lindas as criaturas, vamos desenhar figuras na areia, deitar nosso corpos nus numa esteira, vamos abrir mão de eiras e beiras, vamos falar besteiras até o sol se pôr, e então  vamos correr até voar, vamos nos abraçar e sentir a vida, vamos botar a vida no meio, botar a vida bem dentro da gente, entre a gente,

vamos ao menos sonhar com isso, e se preferir, no lugar de convite, salve: compromisso,

_ Pense como seria
EXPERIMENTAR



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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

15:40

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Você sabe que eu não sei o tom do seu azul. Mas parece que nele, sempre chove. Deve ser de propósito, haja vista, você conhecer minha predileção pelas águas, pelos líquidos sentimentos que são os mais frágeis e os mais fortes, os que vencem as pedras sem que elas sequer percebam.
 
O que eu não sei é lidar com essa alternância. Pedra. Agua. Pedra. Agua. Pedra. Duais. Laterais. Tridimensionais. Excepcionais criaturas que na mistura são iguais.
 
Falo da tua indiferença, mas sou indiferente. Falo da tua mentira, mas mentiras me compõem dos pés às minhas tantas mentes que se alternam entre realidades, paralelos, fantasias, caos, cais, porto sem mar, mar sem areia, areia sem sal, sal sem alimento, comida sem fome, fome sem você, você e minha fome,
 
tua fome que me quer,
 
Silenciar turbilhões sentimentais é luxo que não nos cabe. Embora seja um luxo poder se dar ao luxo de divagar o inexistente como se a dor fosse real, poder fazer do pranto sua língua quando nada te molha, te falta, poder perambular madrugadas como se tudo fosse nada, e fazer verso, e reverso, e entregar-se à prosas sem nexo, tudo em nome de que...

Em nome de que, quem sabe,
 
Uma novidade avassaladora. Uma escapada no tempo. Paciência é advento do que há de vir, oque faz o verbo sorrir, acontecer, porque é disso que deveria se tratar toda palavra, toda rima, toda menção, todo refrão, tem que ser musica, e tem que tocar, e tem que abrir uma coisa alucinante no coração, algo que seja identificável, inegável, irrevogável,
 
algo que supere, ou então sente e espere o próximo trem chegar á estação.
 
 
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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

22:27

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convive com teus poemas
antes de escrevê-los.

_o conselho é de Drummond


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22:20

coisas que não te contam:

dentro de uma poesia
escondem-se muitas MENTIRAS.



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18:08

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É tudo tão vasto, e a única palavra que me ocorre é hermética. Fechada. Lacrada. Secreta. Inalcançável. Uma casinha no mais alto do morros. Talvez um porão. Um sótão. Sem alçapão.
 
É tudo tão vasto. Tão imensidão. Tudo ao alcance das mãos. E ao mesmo tempo, _não!, tudo nos escapa, tudo é sopro, tudo é nada, o dia, a noite, uma madrugada.
 
É tudo tão vasto por dentro. É tudo tão restrito ao mesmo tempo. E o lado de fora que não supera a ânsia do mais e do mais e do mais.
 
Sentir-se pequeno. Parte de um imenso tão imenso que o que sobra é o nada.
 
Embora.
 
Vez ou outra, a sensação muda. Somos imensos também. Imensos quando despertados. Imensos quando acordados. Imensos quando amados. Imensos quando apaixonados.
 
Feito quando criança, subindo nos telhados. Os donos do mundo. O poder de voar. Ninguém pra te alcançar. A liberdade de sonhar.
 
Seguimos saltando de grandezas à pequenezas, dentro de uma única certeza:  A GENTE PASSA.
 
Tudo passa. Passo eu, passa você, passa o tempo, passa o vento, passa o pó e a vassoura, passam as folhas, as flores, o pássaro azul passa bonito, e o amor, aflito, agarrado a tanto pesar, passa, ferido por não conseguir durar.
 
Duradouro só mesmo o tempo dentro do tempo. Tudo passando, menos ele. Sempre ele dentro dele mesmo.
Chora o tempo por passar por tudo menos por si.
 
Imensidões.
 
Abro caixinha dos teus escritos hermeticamente guardados.
Surpresa: ali o tempo não passou.
 
Guardo-me então, também, hermeticamente fechada.
 
 
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