sábado, 26 de dezembro de 2015

18:18

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É no choque das forças opostas que tudo acontece.
Coisa mais estranha do mundo. Micros. Macros. Mundos.
 
Todos em choque permanente.
 
Um nome. Dois nomes. Relaxa, nem sei seu nome.
 
O que sei é que tem gente que vem pro mundo pra nos fazer acreditar. E os que vem para reforçar a descrença. Forças antagônicas destinadas ao choque. Choque e acontecimentos.
 
Toda segundo no mundo transbordando acontecimentos. Choques e mais choques de partículas opostas precipitando VIDA.
 
Uns choram com isso. Outros riem. Uns chegam outros calam, uns pensam outros param, uns vão ao mar enquanto outros, negar.
 
O ar tá aí pra todos. Substância. Distância. E cada um faz o que quer. Pegue sua métrica de rima e faça sua poesia. A prosa aqui, no entanto, é minha, sai do jeito que EU quiser.
 
A caixa é minha. A vida é minha. E você só não está nela porque não quer. Ou melhor, não é bem assim.
 
Assim:
Tem quem nasce pra amar. Tem quem nasce pra estragar tudo.
Rola o choque. Fica todo mundo infeliz. Fim.
 
 
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

15:15

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Você perde um pouco a fé.
Ninguém anda mais à pé.
Pé por pé. Na boa. Na fé.
 
Botar fé você bota, mas aí vem a vida, e te sabota.
A vida não, _ epa!, é a hora da xepa,
era tudo treta, a vida não tem nada com isso, eita!
 
Nem com isso, nem com aquilo,
são meus esses grilos, esses profanos delírios,
 
é que eu estava na mira,
não se admira,
caí na rima,
caí na lábia,
olhos de Arábia,
 
tenta resistir,
tenta não sorrir,
dá voltas,
cambalhotas a chamar,
_vem brincar!
vem experimentar alguma novidade que confirme,
alguma que desafie, desmistifique a sina de que se ralar
faz parte,
arde, mas passa,
não desiste,
 
logo eu, que nunca gostei de brincar.
Não curto piada.
Acho de mau tom a risada.
Dou a vez na calçada.
Sou educada demais pra cilada.
Meu negócio é tudo ou nada.
 
E a velha porta bem trancada...
Foi um segundo de nada
e eu destranquei
não me toquei
_ei, ei, vem cá, meu bem!
e eu olhei,
pouco desconfiei,
do velho vício, desencanei,
pensei:
_ me curei!
 
Era um rei.
Não tinha pra ninguém.
 
Peguei as malas e as cuias,
pra fora eu me mudei,
esperneei antes,
e me calei,
eu mesma me hipnotizei,
não foi alguém,
eu projetei,
e acreditei no reino
onde o príncipe era encantado,
abri todos os cadeados,
danem-se os cuidados
mergulhei!
 
E foi pouco.
Tinha mais delírio guardado.
Um estoque infindável.
 
O medo foi descartado
e súbito,
a fé, pé por pé,
havia reencontrado.
 
Descalça de avisos e resguardos,
corri pros seus braços,
e foi como se...
e foi como se sempre...
e foi como se nunca...
e foi como se fosse...
 
E foi como se não fosse a velha mania de ter fé na vida, a vida que não tem nada a ver com isso, tá lá na porta, me sorri o sorriso dos pais:
_ eu te falei!
Recolhe-se a vida e me leva com as mãos.
Volto pra dentro, não sem tormento, enquanto água quente me alivia ferimentos, lamentos,  e mais todas as outras feridas reabertas, foi por um triz, tudo vira cicatriz,  é a sina de quem não se atina aos sinais e às fumaças das catedrais.
 
Toma de volta tua canção. Quero, não!
Nunca foi meu o seu coração.
 
Nego, não!
 
 
 
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domingo, 20 de dezembro de 2015

17:07

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Queria esse poder de atribuir. De fazer do acréscimo, mais que uma suposição. Queria dar ao acréscimo o poder da condição.

A condição de fazer ficar. A condição de inundar. A condição de se fazer maior do que a razão que insiste em verbos estranhos, afastar, desconfiar, descontrolar, afastar.

Às vezes, penso que somos movidos por astros antagônicos. Simultânea e ironicamente. Nada é transparente. Olho pra gente. Reconheço e desconheço. Me atiro e me retiro. Retidão e desalinho.

Que estranho esse caminho. Nada é retilíneo. São curvas. Beiradas. É um tudo e um nada enquanto o vento sopra nas calçadas a imprecisão.
 
O vento varre as palavras. Estão todas voando. O redemoinho que se forma, forma múltiplas formas que não sei identificar. Fantasmas, corpos, feras, janelas, corpos, um coração, quase se pode ver dois, depois não, depois sim, depois não de novo, enquanto soltas como folhas desprendidas dos galhos de alguma árvore da vida, todas aquelas palavras queridas, voam.
 
Voam. Penso no pouso. Penso onde irão depois que o vento sossegar. Penso nelas, quando a chuva cair. E molhar aquelas letras entrelaçadas em madrugadas, dias e noites, volúpias carregadas por uma insistente bruxa malvada que só conhece o não.
 
O tempo. O espaço. O lado de lá. O lado de cá. E todos os olhos. E todas as pernas. E todas as tentações. Não é porque sou feita de águas que não posso arder tempestades. E arderei cada uma delas, ainda que pelo lado inverso, ainda que seja fraca de verso.
 
Foi na semana passada. Ou na outra. Ou ainda. Ou nunca. Fica um pra sempre suspenso no topo de um prédio, preso aos ramos de um ninho, algum passarinho que desconcertou, e foi-se, bateu suas asas por causa do seu canto engasgado na guela.
 
Não se prende o que não é de se prender. Mas também não se solta, o que não é de se soltar. Vai passar. Vai passar como passa agora esse vento, nem festejos, nem lamentos, sem argumentos pra voltar.
 
Às vezes parece que os astros não gostam de ver o gostar se alastrar. Preferem outras cenas, muitas cenas, preferem atiçar as nuvens e ver a bagunça das carnes tremular.
 
Quem iria ficar. Ali, na calma de um instante que de antemão é sabido, finito para os filhos dos grandes elementos. E quem sou eu. Pouco mais que um sopro. Uma gota. Uma partícula de gota que pretende-se temporal.
 
Chove no quintal. De novo chove sobre as roupas do varal. Tudo igual. Véspera de Natal. O ano em cólicas pra terminar, como sempre, tudo igual. Um ano que não se valida. Massa falida. Tudo está certo neste ponto que sempre tratou-se, final.
 
 
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

14:38

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Em que século estou, a pergunta.
O século é quinze, a resposta.
É a Idade Média.
 
A fogueira arde e queima minha pele sem perdão. Demora a queimar. A primeira coisa que você sente é o cheiro. O cheiro do fogo onde antes eu assava o pão. Resguardo as mãos.
Depois, sente o cheiro dos outros corpos, ao seu lado, corpos de todas as outras mulheres que ali estão, queimadas, pela metade, terços, quartos, gritos, ainda vivos, os sons são longínquos, um som sinistro que anuncia que longa será essa dor, mais longa que todas as vidas já vividas por um mau agouro de ser escolhida pra descer à este inferno de águas claras, traiçoeiras, caí de uma estrela bem no meio da fogueira.
 
O fogo arde. Tem cheiro de enxofre os pedaços dos meus pés derretendo e alcançando minhas coxas tão lisas, em que deslizas com as mãos, um delírio no meio dessa aflição, um alivio de meia fração. Arde-me o ventre a dor de todos os pecados julgados por falos em forma de um mamífero a quem chamam homem, que por certeza da posse, do força, fez refém as fêmeas dessa espécie que deveria estar em extinção.
 
E a gente não morre. Nem eu. Nem todas essas mulheres aqui. O alivio do delírio dura a fração de uma volta. Porque não nos é permitido morrer, há que se sentir a dor do viver.
 
A idade é menos que média. É a barbárie. Condição: Mulher.
Maldito seja o dia em que seres de outras esferas nos roubaram o dom das feras, e nos jogaram aos leões, famintos de carne e escravidão.
 
Escravidão. Silenciosas, revoltas. Às rebeldes, queimemo-as vivas!, mas não sem antes abusar, violentar, socar-lhes os cornos até que sobrem apenas as frestas do chão. O chão que conhecemos. Lavados com nossos cabelos, o chão onde parimos os filhos, o chão que nos faz ninho, lambemos o chão do mundo, e as glandes, a merda, a fantasia da nossa condição.
 
Vamos escapar da fogueira! Vamos aos templos dos embelezamentos, vamos viver de hortaliças, vamos ser  magras e rijas, para sermos comidas, privilégio de ser escolhida, para que venham nos montar, cavalgar nossas ancas pra gozar um sentido, que por nós ser engolido, à mulher cabe engolir a porra toda, guela abaixo, pra depois correr e lavar os cabelos, aparar os pelos, trata-se de correr para não ser queimada viva.
 
Mas é tudo um blefe.
Quando a hora alta chegar, envelheceremos. Levas e levas de carne fresca no mercado do dia. A carne flácida, o cansaço de todos os usos e abusos gritarão. Mais cedo ou mais tarde, é a condição.
Nos tapiaremos umas às outras, com promessas de faca extirpando gorduras, usaremos ataduras, unguentos para dar a volta no tempo, e o que restará será o lamento.
 
Mulher não nasce. Mulher queima.
 
E teima que não. Atira-se em rodeios, mas a nome da esperança é NÃO. Talvez, em algum tempo, exceção. Talvez uma Presidenta, que não sei como aguenta, de algum país povoado por trogloditas, tente, enquanto concedem-lhe a alcunha de maldita, primitivos rótulos espelham a prima condição:
 
Ao homem cabe o poder. O direito cabal. O ponto final. Ao homem cabe o comando, cabe o direito  de nos gritar injúrias, em praça pública, o direito de nos mandar cobrir os peitos, as tetas que os alimentam, ou subir no mais alto dos tablados pra assegurar às feias o não privilégio ao estupro, e por fim, definir que o corpo feminino é um insulto às normas, masculinas normas, somos o pecado original diz a Bíblia, extirpou uma Lilith da vida, a primeira queimar na fogueira , e que queima ainda viva na pele de cada mulher que sente no lombo as chibatadas que antecedem o fogo, arde o couro, a carcaça, e todo esse tempo de mau agouro, tempos fálicos que estribilham em coro às rebeldes que teimam, que resistem, _ mal-comidas!, _mal-amadas!, abram-nos logo todas as feridas, enquanto aplaudimos o êxtase , macho alfa, beta, gama, a mulher se engana.
 
Só não, quando sangra. O privilégio de sangrar por conta própria é nosso, somos nosso próprio castigo.
 
O fogo chega-me às partes onde, feliz coincidência,o sangue escorre-me, abundante comprovando minha condição de mulher, e ali, a dor é quase familiar, ancestral, colo de ardores, amores que mais não. Perco sentido. Um desmaio. Um alivio. Não queime as minhas mãos fogo maldito!, lembro que grito, e uma lembrança surge, doce, suave, chega-me como um bálsamo pras minhas mil feridas, algum reino, alguma Vênus perdida, algum espaço onde éramos adoradas, cuidadas, amadas, as flores faziam-nos água pra banhar nossos longos cabelos, e éramos de todas as cores, de todas as formas, reverenciadas pela delicadeza, era só isso desde o começo, delicadeza, e não éramos gênero, éramos seres, amáveis seres, nem homem, nem mulher, éramos seres livres da dor,  existe ou invento, a agonia é sempre igual, um segundo colossal, enquanto clamo aos céus dos abandonos, _Pare essa dor!, conceda-nos, por clemência, a alternativa de um ponto final.
 
 
 
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domingo, 6 de dezembro de 2015

18:18

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Daí chove lá fora, e você não está aqui.
Chove longamente, num ritmo que acelera ainda mais as vontades de água, de umidades reverberadas, que se estendem, feito uma noite de amor de uma qualquer madrugada.
 
Não quero rimar as palavras, quero algum inverso desse inverno que se estende por verões que não se espraiam, mas... essas vontades de um voo impossível, de um flerte entre um ser feito de sol, e uma criatura miúda, que corre e molha seus pés em poças de uma água já caída,  rimar parece a única saída, de me salvar.
 
Chove um mar de chuva , e você, te vejo em labaredas. As eiras e as beiras das casas gotejam a água que cai pra fazer a tua música tocar. Preferem sóis. Envolto. Envolvendo. Revivendo o respirar.
 
O fogo. O sol. Teus vermelhos labiais. E essa força muito louca de quem vai te afrontar. Vai rimar. Vai. Vai rimar porque tenho uma mania de rima, como se o verso me salvasse da dor de saber onde isso vai dar. Ou não vai dar. Ou ainda, te encontrar.
 
Quem ama chuvas, não teme as lágrimas que lhe chovem. O riso e seus raios quentes, solares olhos de queima, sem queixa nenhuma de nada, nada se ganha, algo se conquista quando percebo que conheço pouco, muito pouco, todos os meus nadas, desejosa desse sal. Talvez precise parar de chover. Pra ver acontecer as novas precipitações das minhas próprias moléculas estelares.
 
Acende. Apaga. O sol. A chuva. As calçadas, molhadas, e o primeiro poste ilumina a tua falta. Uma luz amarelada reflete raios sobre a chuvarada, e percebo, encantada, um momento único pra mim:
 
Luz e água se contém. Nessa cena tão pequena, queria fotografar pra você ver. Dos sinais, os bonitos não me escapam. Se não surgem, cabe a mim inventá-los, e o que eu faço, senão, inventar-me um pouco mais a cada dia, pra viver...
 
Fundem-se lindamente. Penetram-se. Aceitam-se como se, feitos uns para o outro, fossem. Uma explosão de onde nasce simplesmente, beleza. Sem mais, nem porquês. Sem hoje, nem amanhãs. Uma manhã anunciada apenas. 
 
A cena: a luz do poste acende, as pingos de chuva caem, e no meio desse caminho molhado e iluminado, uma fusão dos dois resulta num reflexo espelhado. Amarelado. Meio avermelhado. Tendo a mim por testemunha espantada. Vi o amor daqui da minha janela, uma boba, muito bem acomodada.
 
Estendo o olhar por esta mesma janela de frente ao arvoredo, e por entre todas essas folhas cansadas de serem verde, sempre verde, mais raios de luz. Outros postes se acendem. Te aceno. Te vejo em cada ponto destas luzes, como se o teu chegar, fosse anunciado.
 
A chuva anuncia. Recria. E eu quase que me esquecia como é possível sobreviver, mesmo sem. Mesmo com. Mesmo sendo chuva enamorando-se por sóis.
 
(isso sem contar a lua que nasce de vez em quando, uma em cada rua pra roubar sua atenção)
 
É que eu ia falar de ciúmes. Daí percebi que mudei. Sem perceber, me acalmei. Deve ser essa chuvarada molhando a minha alma penada.
 
 
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