quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

11:00

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Seria bom poder fazer com os momentos algo parecido com o que se faz com os relógios. Se o relógio marca 10:00 horas mas você quer 11:00, você puxa o pininho, gira os ponteiros, e voilá, são onze horas. Aí você quer 08:02, puxa o pininho e volta. Adianta. Atrasa. O relógio marca a hora que eu quiser. Ele só não para. Nunca para. Ou para. Mas só quando acaba a pilha. Ou a corda. Aí, ele para.
 
Gente também para. Ou não. Coração tá ali, batendo. Todas as células se refazendo neste que é um mundo gigantesco, o corpo, que parece parado, mas que vai sendo girado do avesso no giro travesso da bola que o contém.
 
E tem a mente. E dizem, a alma. Que você quer que pare, mas essa, ou essas, não tem quem pare. Ela vai e volta em todos os tempos além da memória. Às vezes, quer voltar, às vezes quer pular, às vezes quer apagar, às vezes só quer calar. Voltas.
 
Voltar à noite da praia, chegada de um novo ano, voltar para o abraço daquele casal de velhinhos estranhos, que te abraçaram e te chamaram de filha, enquanto caía sobre a areia o elegante chapéu Panamá, daquele senhor a quem, por lapso,  chamei de pai.
 
Ou pro beijo de uma noite longínqua. No meio da noite. Na frente de uma bar. Ou para aquele passeio em alto mar. As ondas batendo no barco, a espuma roçando os braços, carinhos que  deveriam caber num tato extra, uma caixa, algum lugar físico que se pudesse recorrer, nas horas em que o relógio marcasse apertos...
 
As sensações. Colecionadores de emoções. Tanto instante bonito. Minúsculas criaturas que somos, não conseguimos reter. O bom da vida. Nem voltar. Nem avançar. Nem permanecer. Ne se conter. Nem saber. Os porquês.
 
Pra onde eu voltaria agora. Se pudesse. Não sei. Um pequeno avião cruza o céu nesse momento. Pequeno e barulhento. Talvez eu quisesse estar dentro dele. Além de querer mexer nas horas, por que não mexer na história, já que tudo está na condição ilusória de escrever, que é só pra ter uns minutos de aurora, boreal, tudo igual, devaneios, prendo os cabelos, a vida é real, não dá tempo de sonhar coisa e tal, então, aceito as horas, são 11:00 da manhã, o som segue, e entregue, sigo o balanço. Das horas.
 
 
 
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