quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

13:18

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Então.
10:00.
Ainda estou em casa.
 
Pensativa.
 
Ando sendo tão pessoal aqui. Falando com você. E com você. Credo! Mas cada um se vira com que tem. Me convém. Amém!
Daí, lembrei daquela palavra inicial : MIRAGEM
 
(lá vou eu de auto sabotagem de novo)
 
Como uma boba acenando da varanda.
 
O tempo passa, e você vai montando, ou melhor remontando, o quebra-cabeças, tentando ver se forma uma imagem, e torcendo pra que se forme um rosto, conhecido rosto, mas as peças, não se encaixam, todas misturadas, faltam, restam, confundem, encaixa uma, desencaixam dez, desmonta tudo, recomeça, procura a palavra inicial, eram cinco, não lembro direito,
 
chuva, vento, quindim, não acho as outras duas peças, pulo pra varanda, pro aceno, não acho a continuação, vou ver se consigo ir pelas beiradas, sabe aquelas peças que são todas iguais, tem que ter paciência, não sei porque uma pessoa em sã consciência usa seu tempo pra montar um quebra-cabeça desse tamanho. Ele ocupa a casa inteira. De dentro. E é uma miragem. Ou era. Ou não. Ou poderia deixar ser. Permitir eu ver. Alguma coisa mais.
 
Logo ali, do outro lado, tem umas peças soltas. Mas recebi o recado de que não são pra mim.  ENRAIZEI. Logo, estou assim, sem saída. Abro as janelas. Espanto. Tá tudo distorcido. Olho o horizonte. Tudo sem forma. Olho o céu e ele caiu. E a terra é plana. Fixo os olhos e vejo algo lindo. Abro bem os olhos, a imagem define. Pisco os olhos. Some. Pisco os olhos. Aparece. E desaparece.
 
E eu não posso fazer nada. Já fiz de tudo, e não valeu nada. O quebra cabeças tem que querer ser montado. Talvez, ele não queira. Talvez , ele queira. Olho pra ele, tento ver se me dá algum sinal, estática, vento, nada de nada, não cabe à mim, virei a invasora, não posso mais avançar limites, não entro sem convite mais, penetra, se achando a rainha da festa, não, tem tanto canal, tanto meio pra se fazer comunicar  nesse mundão de peças , quebra-sua-cabeça, volto pra realidade, me olho,  paro de novo, penso, tomo café, olho o relógio, 22 minutos de tentativa, estou atrasada, cato as peças, recoloca-as carinhosamente na caixa, pensando que talvez sejam mesmo uma miragem, nunca vão se revelar. Miragem é assim, né. Uma tentação, a gente começa e não quer parar. Vai entender...

12:59
Voltei a pegar a caixa. Chacoalhei, chacoalhei, até que ela se abriu e todas as peças caíram no chão. No chão. Todas, sem exceção. Inclusive eu, de prontidão. Gritei , não!, não. Não. Me controlei. Olhei. Cada uma das peças. Tentando ver para além da imagem miragem que não se revela, olho a vela, na janela, olho as peças, no chão, formam um desenho. Parece um ponto de interrogação. Ou talvez de exclamação. É um sim, talvez um não. Quebra-cabeça mais sem definição!, se coça meu, lacro a caixa, pra sempre, é isso, ou não, você disse que ele era mágico, você afirmou que havia nele a certeza, a certeza, tratava-se de mais inteligência, minha, sou uma anta, é isso,  desisto, insisto, cadê o manual de instrução, uma sinalização qualquer, clara, óbvia, inquestionável, tudo bem, você disse que o jogo não seria fácil, e eu sou insistente,  teimosa feita uma porta, porque qualquer outra pessoa já tinha dado meia-volta e volver seria definitivamente esquecer. O verbo, como seria bom esquecer. E S Q U E C E R .

Cato as peças. As que formam uma exclamação de que não. As que formam uma interrogação de que sim,  e por fim, cato a última peça, nela consta um pedaço muito pequeno de mar, dá pra ver que é de mar, mas pode ser de céu também, azul, tão bonito, aí me lembro dos teus poderes, de o quanto te é possível fazer-se visível, tangível, definível, incrível, e lembro daquele amanhecer na beira da praia, teu peito batendo as ondas do mar, e , resolvo me acalmar, respiro, coloco essa última pecinha dentro da caixa, junto com todas as outras, e volto a me guardar.

 
 
 
 
 
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