quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

15:30

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De algum lugar, todas as crianças que fomos, nos espiam pasmas. A exclamação é quase invariável: _ mas não é nada disso que eu imaginei pra você, mano!
 
Parei uns minutos pra fumar um cigarro, no portão lateral da loja, e a cena me trouxe pra perto a lógica das crianças. Dois meninos de bicicleta. Uns onze anos. Bonitinhos. Um ia um pouco mais à frente, quando a bicicleta do menino de trás, pára porque caiu a correia. O da frente pára imediatamente ao perceber, larga sua bike no chão, e vai, sem que se faça pedido, arrumar a correia da bicicleta do amigo. Arruma direitinho, comentam que é foda, dão risadas, e saem de novo, em disparada carreira  à este tempinho mágico de alvoradas, ruas livres, pequenos pássaros.
 
 
Observei calada, admirada, me deu tanto amor no coração por aqueles dois guris pedalando pelas calçadas, um orgulho de ter a percepção e a oportunidade de notar que ainda que não, a delicadeza paira, nos gestos invisíveis, os gestos que não atentamos, o  porque,  eu não sei não!
 
Lembrei de mim mesma, menina. Brinquei na rua. Do bairro. Subimos em pé de árvore. Comemos fruta verde. Metemos o dedo em formigueiro. Invadimos galinheiros. Enlouquecemos o doceiro.  Atravessamos tardes e mais tardes inventando mundos só nossos, toda a meninada do bairro, às vezes um se ralava, ou a gente quebrava alguma coisa, todo mundo cooperava, na minha infância, ninguém ficava pra trás também não.
 
Já joguei muita pedra na minha própria Geni por aqui. Atirei pedras em mim, mesmo quando pareceu ser noutro ser. Mas aí, vendo aqueles meninos pelo portão, olhei pra mim mesma e senti que não sou tão mal assim. Não perdi a conexão com a minha criança. Ainda sou dessas que pára na rua se alguém cai, que compra briga de amigo, que dá passagem pra o outro passar, que sorri pra estranho pra que o mundo não parece tão cruel e insano, recebo com alegria, reclamo muito, mais volto, chamo, dou o braço a torcer, concordo em retroceder, divido o que tenho, faço das tripas coração pra que a alegria reine, pra que as festas sejam divertidas, pra que as pessoas adiem partidas, sinto dor mas não economizo sorriso, não choro pitangas, e quando choro, rio da minhas próprias feridas, amo fazer pessoas se sentirem queridas,
 
me esculhambo a mim mesma para que a pessoa que tá no chão, não se sinta sozinha na aspereza do chão, garro na mão, não largo,  sento no gelado de qualquer madrugada até o ultima lágrima de um amigo secar, faço bolo, mando pros vizinhos, compro doce pra criança que chora no mercado, abraço todo mundo, apertado, deixo povo encabulado, dou atenção, olho nos olhos, morro de amor, pelo ser humano, mesmo em meio a tanto desengano, tenho dó dos corações que enganam, penso que à eles cabe o pior papel: nos fazer perseguir razões pra apesar de tudo, sorrir. E eu morro de rir.
 
Eu pareço que choro nas palavras. Mas é só nelas. Foda é quando você não tem tempo de se revelar. Deduzimos rápido demais. Classificamos pessoas rápido demais. Desfazemos da sua serventia rápido demais. Queremos mais, sempre.
 
Nos jogos amorosos é um pouco pior. A maneira mais eficaz de chegar ao coração de alguém é não querer esse alguém. Tantos corações meninos e meninas magoados. Todos ali, logo ao lado, olhando a gente se fazer de rogado ao amor. Dureza é que nem quando velhos a gente  aceita, e  deveria saber ,feito lição, decor e salteado:  _ninguém é obrigado! Ninguém é obrigado a retribuir sentimentos à ninguém. É meio difícil pra criança entender isso porque, não é o que a gente aprende pedalando na rua, nem quando chega uma criança nova na turma, quando criança a gente só aprende a gostar. E se rolar uma treta, ainda assim, criança só sossega quando tudo acerta.
 
 
Quando a gente se machuca a gente não machuca só o adulto daqui. A gente fere a criança. A da gente. A do outro. A gente fere fundo mesmo é a criança. Que está logo ali, no lado, consertando a correia da bicicleta do amigo atrapalhado.
 
 
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Trabalho. Coisas. Fazer. Seguir. Aceitar. Lembrar de dizer uma coisa engasgada, um p.s. de última hora:
 
 
_ não quero personagens novos, não quero novos capítulos, quero ficar livre dessa ciranda de apostas, estão todas abertas, todas as portas, todas as janelas,  não precisa de nenhuma resposta, apenas botar ficha na aposta que eu desafio:
 
_ Se não for você, não será mais ninguém.
 
Teimosia de menina. A minha menina que me pisca um SIM.
 
 
 
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