sábado, 30 de janeiro de 2016

16:36

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Porquê é tipo beber o morto. Você tem que mergulhar no todo que se foi, escarafunchar, lembrar, lembrar, lembrar, como se fosse a derradeira tentativa de trazê-lo à vida de novo. Você não quer olhar a partida. Você não quer sentir esse cheiro de flores mal colhidas. Você quer retardar o fato. Ao máximo. Bebe-se ao morto como se ele ainda estivesse presente, restos mortais que irão se deteriorar no ausente passar das tuas horas, mas você ignora, você quer reter o tempo, você quer matar o tempo, você garra ódio do tempo, sempre o tempo, que passa, e mata nossas melhores horas.
 
O que você passa com alguém é dos dois. Mas quando acaba, cada um bebe a sua parte. Aos meus restos não coube bebidas. Fui largada sem delongas em alguma vala fria. Aos seus, ainda não me dei conta sequer de que morreu. Segue vivo e virou meu. Cada qual com sua parte. O que eu te dei, você esqueceu. Problema seu. O que você me deu é meu,  e destas memórias eu construo mais e mais histórias, eu concedo o dom da vitória à verdade, o tabuleiro é sempre pra dois, do meu lado da história éramos vivos, tuas juras eram flores da manhã,  ainda que depois tenham sido escarnadas, ainda que confirmadas como vãs, não são mais suas as tuas falas, são minhas, saíram do seu território mal juradas, chegaram pelas mãos de um vento bravo, e foram recebidas como só as palavras mais queridas merecem ser.
 
Hora errada. Outras muradas. Impedimentos. Constrangimentos. Erros meus. Exageros meus. As suas falhas justificadas por ser a hora errada. Que patacada. A hora pode ser soberana, mas há uma coisa que a engana com exatidão: a paixão. Nada a contém. Nada nem ninguém. Não há força mais intensa. Nem tente, se convença. Quando a razão vence, não era paixão. Então, não venha com essa de hora incerta não, arrume seu mundinho e dê as suas mãos ao que te interessa.
 
Quanto à mim, estou sem pressa de beber o morto, embora, entre calafrios,  já possa sentir que rompem-se os últimos fios. De realidade. Que nos ligava. Vai virando tudo fantasia. Teu rosto. O tom da sua voz. Falamos pouco por voz. Seu recado chegou. Outra. Real. Que legal! Boa sorte! que os ventos  do norte sejam suaves na sua reconstrução.
 
Os ventos do sul são intensos. Por onde passam, mais que beleza, causam impacto. Perturbei sua paz. Mas você a refaz. Nem canto mais a sua canção. Não é minha. Nunca fui de me apoderar do que não me pertence. Só não me venha solicitar o silêncio aqui, onde bebo a morte de uma ilusão perfeita, que será refeita todos os dias,  até eu desistir.
 
Tenha fé. Tudo é possível. Até eu recobrar meu respeito. Por mim mesma. E resolva fechar finalmente este portal. Mas não agora, há de ser em outra hora, em que o último fio se rompa, em que a sua felicidade se confirme, e as provas afirmem sua alegria  à mais extrema distância de mim.  A distância. Aquela. Que nos separa. Aquela, que sempre existiu.
 
Li hoje em algum desses cantos que "as pessoas vão te tratar como você se trata". Descubra em você o que busca no outro.
 
Relativizei. Pensei sobre. Depois achei bobo. Depois reconsiderei. Mas aí, cansei. Vou fazer alguma coisa agora. Dar uma volta lá fora. Sei lá. Vou ali. Catar umas penas. Que perdi.
 
 
 
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