quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

17:00

i
.

 
Aí a gente fala de jogo, penso que não gosto de jogo, mas aí lembro que gosto de um jogo, mas tinha esquecido. Xadrez. Já te contei uma vez, aprendi com meu avô, quando criança, eu e todos os netos que faziam do grande sobrado seu ninho preferido. Todo Sábado. Todo Domingo. E quando desse mais. Eu estava sempre lá. Perto do meu avô. Feito sombra. Que ele acolhia.
 
 
Uma partida com você é um desafio a mais. Sou duas, contra seu exército de vocês. Todos você. Eu ainda prefiro aquele você de você. Você sabe qual. Embora você goste de jogar sozinho, você vem. Uma mesa própria. Um tabuleiro de madeira, antigo, com peças bem torneadas e elegantes. Uma poltrona de braços pra você. Uma para mim. Um abajour no meio, pra concentrar a luz. Você bebe seu whisky metido a besta. Eu bebo meu licor, igualmente fresco. As taças ficam bonitas vistas daqui.
 
Sorteio das peças. Fico com  as brancas. A largada é minha. Você diz: _ quando quiser, milady! Sua ironia fria. Puxo o vestido pra cima, para que minhas pernas fiquem livres, nada me prenda o movimento. O pensamento. O ataque. A defesa. Você olha. E não pisca. Nenhum vacilo. Olho em seus olhos antes da jogada, um fio de sorriso, cínico, que afirma, _ vou te comer!, suas peças no caso, ao que meus olhos não desviam, e replicam _ tô pagando pra ver você me comer!, minhas peças no caso, e mergulho pra dentro tentando entrar naquelas horas e horas de xadrez quando meu avô me ensinou.
 
Você tem que pensar! Você não pode ter pressa. Você tem que observar. Não jogue muito rápido. Não arrisque. Canse seu adversário. Seja fria. Não se abale quando perder uma peça. Trace alternativas. Proteja seu rei. Proteja sobretudo sua rainha, se você perdê-la, provavelmente perderá, dê valor à todas as suas peças, a torre é mágica, mas o cavalo surpreende muito, desconfie do bispo, dê valor aos peões, um peão pode derrubar um rei, proteja sua rainha, proteja sua rainha, mira, foca, pensa, pensa, calma, uma partida não termina enquanto não começa, pense, estude, deguste, tenha prazer no jogar. Divirta-se.
 
Meu avô. Trocaria o meu reino por seu colo calmo. Sempre de chapéu. Fala mansa, baixa, coluna reta, magro, ares de francês ainda que se dissesse um autêntico alemão, língua em que lia seus repetidos títulos, hábitos raros, fazia a mão nossos tabuleiros, as peças, todos os netos ganharam, e amaram esse avô de riso safado, carinhoso sem alarde, atual, sem igual, digno, ares de segredo que amava, amava, era sua sombra, seu encalço, fiquei no hospital com ele antes da sua partida. Acarinhei suas pernas compridas, cheias de sardas coloridas, seu cabelo branco, cadê meu chapéu, fizemos sua barba todo dia, trocamos seu pijama, perfumamos seu corpo, e não foram só rosas que jogamos, mas todo tipo de flor de jardim, sua paixão sem fim, dentes de leão, margaridas, beijinhos, rosas de toda cor, caipiras, que dão em penca, rosas de cores suaves, colhemos todas as flores do seu jardim que não deixou de ser cuidado, como se quiséssemos ir junto com ele, a cada flor que atirávamos. Em despedida.
 
Jogamos este jogo sobre o tabuleiro que me coube. Ele quem fez. E nesse momento, depois desses longos anos em que se deu nosso último abraço, resolvo retomar suas lições. Que havia aberto mão. Meu jogo é arriscado. Nada compensado. Não sigo um único ensinamento por ele deixado. Saio com um peão estudado, abrindo passagem logo à quem... a rainha. A minha rainha é a minha peça do jogo. Não me defendo. Ataco. É com ela, assim que as casas a liberam, que eu sigo. Preparo toda a artilharia pra morrer em cada jogada. Garantam que a rainha passe e prepare a cilada. Muitas vezes joguei assim e deu certo. É um prazer. Imediato. Poucos minutos e jaz um rei ao chão. Delicia de sensação. Embora efêmera, como um trovão que antecede o raio, quem vence é a chuva que molha o chão. Lágrimas sempre evitadas.
 
Jogava assim. Sempre. Até hoje. Até agora. Até esse momento frente à você. Olho seus olhos. Quantas partidas já perdi. Duas. Quatro. Mil. E não aprendi nada. Insisti na jogada. Teimosia de mula empacada. Mas você me chamou as falas: _ já não é hora... É!!! , com quem você quer jogar é a pergunta, com uma nova de mim, uma que no mínimo te renda em algum canto, ou te faça penar, pensar, te desafiar, você já conhece cada um dos meus passos, sou óbvia como uma coisa qualquer que seja sempre óbvia, e você, surpresa, quem joga comigo hoje, qual será seu nome,  nunca sei, haverá atrito, ou devo seguir os conselhos do meu avô e me redefinir, me segurar, me retrair até não poder ainda que meu instinto seja correr com o jogo, desmanchar o prazer do olho no olho, do tempo ao tempo, da observação, da degustação, das insinuações, da dança, da sedução, o poder de desencadear alguma alucinação além;
 
porque atento,  enquanto não se encerra o jogo, não há um fim, e não havendo um fim, estamos, somos, juntos, no mesmo jogo, sobre o mesmo tabuleiro reinamos, resolvo cuidar do meu rei protegendo e resguardando minha rainha, e não começo ainda, penso, só penso em dessa vez,  não meter os pés pelas mãos.
 
Uma nova partida. Que ela seja longa. E salvemo-nos os dois!
 
 
* 

Nenhum comentário: