sábado, 16 de janeiro de 2016

18:00

 
 

 
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Pareciam colados. Os cílios. Os de cima com os de baixo. Dos dois olhos. Na boca, um gosto de terra. Seca. E o corpo, pedaço por pedaço percebido, parecia estar mais que envelhecido. Parecia que nunca tinha existido. Sobre a pele, um vestido surrado. Pôde ver quando, com os dedos removeu todo aquele remelo acumulado nos olhos, e afastou para o lado, os trapos que a cobriam. Uma réstia de luz solar jazia por umas frestas que não reconhecia, mas sabia porque olhava. Não era uma cama. Nem nela havia um colchão. Estava deitada no chão. Sobre um cobertor carcomido. Um lugar desconhecido. Não havia qualquer lembrança restante, desse, ou de qualquer outro instante. Tinha adormecido. Amanhecido. E desaparecido.
 
CACOS NO CHÃO
 
Os primeiros passos se deram sobre os cacos. Um espelho quebrado. Havia uns panos jogados, agora usados para estancar um sangue aguado que escorria dos dois pés cortados. Na peça ao lado, um conjugado, uma pia, de onde não escorria nenhuma gota de água, torneira velha e enferrujada, uma mesa, duas cadeiras, logo mais outra cadeira, quebrada, uma poltrona toda rasgada, onde sentou pra retomar o ar que não existia. Os panos sujos não dão conta do sangue. Troca por outros por ali catados, dá um nó apertado, latejam mil pontos desencontrados como se fossem fios elétricos desencapados.
 
O RELÓGIO PARADO
 
Estava num criado mudo. Manco. Surdo e mudo. Havia parado às zero hora de um dia que não se sabe quando. Que tempo. Que ano. Outro pano. Partículas infinitas pairam e agora podem ser vistas, os olhos acostumam-se à claridade recente, dançam frente aos seus olhos que doem menos que a sensação de ter sido esquecida num pardieiro sujo, longe do mundo, que não lembra se é imundo , nem quem é o dono do mundo, mas distrai-se vendo a porta. A porta era o relógio. A porta poderia mostrar o que sucedeu e devolver-lhe o  tempo.
 
TRANCADA
 
Uma fechadura escura, dura, de ferro muito velho gemeu ao seu toque. Aos seus sucessivos e desesperados toques. Repetitivas tentativas de fazer-se abrir em vão. Trancada. Abaixa-se para ver por baixo, na ínfima fresta que se forma entre aquela enorme porta e o chão, tábuas corridas, um cheiro de madeira antiga, aviva seus ouvidos, cada um dos seus sentidos reacordados, lentamente, urgentemente. Uma saída nem sempre permite sair.
 
CALENDÁRIO
 
Desiste da porta. Assim como o relógio, não marca mais chegadas, nem partidas. Fora trancada. A intenção esquecida. Sem chaves, sem despedidas. Na parede, no entanto, uma distração. Segurado por um prego mal pregado, torto e carcomido resta um calendário. Parece um calendário. Deve ser um calendário. O impulso o alcança, arranca-o da parede com a sede da esperança, uma pista, algo que explique, justifique, rompa o dique dessa água retida, água, a sede é infinita, bebe o calendário que resta em pouca tinta.
Um logotipo desbotado indica 'Auto Posto da Anunciação'. Estrada velha, sem número, bairro Descampado. O nome da cidade está apagado. Mas o ano, e os meses pode-se ver. 1946. Hum mil, novecentos e quarenta e seis. O que isso quer dizer.
 
VAZIA
 
Associações de data nada revelam. Não lembra o ano em que nasceu. Nem em qual ano morreu. Talvez trate-se de um mausoléu, talvez tenha sido enterrada viva, mas suas carnes ainda anunciam-se vivas, não restam memórias, nem histórias, nem lembranças, sabe que foi criança porque lembra apenas de uma canção de ninar, que insiste em sua boca, num mínimo murmúrio vadio. Vaga pelo conjugado feito alma penada. Porta, tenta, não abre, sede, torneira, não jorra, cacos, desvia, sangue, reaperta os panos, calendário junto ao peito, algum alento, a canção repetida, uma voz sumida, os grãos de poeira, senta na cadeira, olhos mais abertos, o vestido revela seus seios, descobertos, cobertos por seus cabelos compridos num pudor incontido.
 
 
RESTA
 
Uma fresta chama-lhe a atenção. As paredes são de madeira. Sem cor. Mofadas e rejuntadas por outras tábuas pregadas, é uma casa abandonada, onde fora jogada após uma partida vencida.
Uma força a alcança, não mais sabia o significado da palavra vingança, de tudo que sabia, ou  poderia, só lhe sobrara a melodia, que alternava com a respiração e uma nova atenção. Percorre a peça conjugada, deve haver alguma coisa que sirva, vê a cadeira quebrada, cinco partes, uma delas, partida, forma uma espécie de lança, toma em suas mãos, muito finas, as veias azuis, como faz-se azul a esperança de conseguir sair dali, para onde, sem saber, sair, se refazer. Montar um novo mosaico. Uma melodia e a cor azul. É tudo que tem. E mais a vontade. Que deve ser usada. Sem demora.
 
DE ONDE VEM
 
Não existe explicação. Há que se aceitar os limites. Os vazios. E continuar. Com o pedaço de cadeira força as tábuas. Os pregos são velhos. Demoram mas cedem. Demoram uma eternidade e toda a força de vontade, um desejo de liberdade, surge-lhe das entranhas a lembrança de um cheiro, um aroma de noite, lembra-se da palavra noite, seu corpo estremece frente à uma lembrança não vivida, um canto de uma cidade, um lugar afastado, um vento quente, seu ventre ardente, um corpo colado ao seu, nus, sós, um homem, uma mulher, um lugar, e o vento, em um movimento de sincronias vitais, dois animais, essenciais, e um grito, surge-lhe um grito visceral vindo de uma dor descomunal, e cede-se a parede, cai sobre ela a estrutura lateral da casa, acerta-lhe a cabeça, pedaços de telhas cortam os restos do tecido daquele velho vestido, o sangue multiplica-se em mil cortes, o que não lhe impede o riso, desvairado riso : a casa ruiu. E ela estava viva. Ainda. Apesar. Contudo. Todavia. Estava viva. Cavou sua própria saída.
 
LIBERDADE
 
Custou caro. Muito. Demais. Mas valia cada gota de sangue que lhe escorria.  Machucada, esfarrapada, abandonada de todas as lembranças, sem lenço pra enxugar lágrimas que não mais existiam, nem documento que lhe concedesse alguma alcunha, era a sua única testemunha. A casa abandonada não era mal assombrada, afinal. Porque se fosse, bom seria, talvez um  fantasma fosse menos mal. Sem lamentos. Olha a casa caída. Ao redor, grama. Mato. E o cheiro do mato. Já se faz noite. Alta. Finalmente lembra que existe céu. E pendurada no céu reluz uma lua, ladeada por um coral de estrelas que lhe parecem todas cadentes. Não há vizinhança. Só ela e sua meia dúzia de lembranças. E a canção de criança que agora é cantarolada em ciranda, roda, gira, grita a agonia de ter ultrapassado e  derrubado suas próprias paredes. Trancaram-lhe para morrer viva, mas escapou. Pouco sobrou, é certo. Mas a liberdade do nada lhe parece a mais livre de todas as posses. Tinha tudo tendo nada. Era toda sua aquela madrugada.
 
 
 
 
 
VAGAR
DEVAGAR
A GENTE ANDA
PRA UM DIA
CHEGAR
 
 
 
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