domingo, 31 de janeiro de 2016

20:00

.

 
Dez horas da manhã. A cama não mais convida. Levanto com  espanto, como todo dia. Passo pelo espelho grande, olho meu reflexo, e é nesta única hora do dia que me acredito bonita. Acordo com jeito de menina. Cabelos bagunçados, olhos apertados, um ar de surpresa que não se explica, meu corpo parece até um convite sob a camisola de malha preta. Todo dia passo por esse espelho. E todo dia diante dele paro e penso: Ele me acharia bonita pela manhã. Daí a beleza se arrasta pelo resto do dia inconsolável, vai se perdendo no eco de um não, até se confirmar desfeita.
 
Silêncio de um dia de Domingo. A casa quieta. Dormiram todas as janelas abertas. Tem sol, tem nuvem, tem calor, tem aqueles raios de claridade que deixam a casa com outra cor. Cor de qualquer coisa bonita. Um cor que você acredita. Vou até a varanda. Preguiça de acordar pro fato. Preguiça de voltar a dormir. Preguiça de carregar essa sensação. Mal acordei e já me dói o coração. Arrasto meus pés descalços até a cozinha. Ladrilha fria.
 
Laranja, mamão, tangerina, umas fatias de pera, outras de maçã, numa tigela de vidro amarela. Na boca um leve frescor. Penso num beijo matinal. Um beijo de malemolência, não desprovido de ardência, e aquela urgência que parecia que, na minha mente, seria tal e só faria-se aumentar. Espanto o pensamento. Vai virar lamento e ainda é cedo pra tal.
 
Sento no banco forrado de almofadas floridas. A velha árvore do jardim faz a sombra que se alonga sobre o dia. Sinto pena da árvore. Deve ser dureza ser árvore. Anos e anos ali, no mesmo lugar. Presa pela raiz que se cortada, não lhe resta nada. Suas folhas se soltam e voam, seus galhos caem e se transformam, os ninhos dos passarinhos comemoram novos pássaros, saem todos em revoada, e só a árvore resta ali. Dou um sorriso amarelo para a velha amiga árvore. Te entendo, cara amiga! Não vou te deixar sozinha. Confia. Lembro de como me disse isso aquele lindo alguém: confia! Confiei. Sigo confiando como esta árvore que deve crer-se livre por não haver outro fim.
 
A noite foi confusa. Houve pedras na janela. Os vidros não quebram porque deixo abertas as janelas. Por prudência, no entanto, deixo a cama longe. Por saber da existência dos jogadores. De pedras. Vez ou outra, quando cochilo, finjo no sonho que são flores, recados de amor, bolhas de sabão,  mas quando as pedras são jogadas com não poupada violência, eu acordo com o barulho, me assusto como se fossem alguma novidade, avisos maldosos, defeituosos gestos que nesta noite com mais uma pedra quebraram um vidro de perfume lindo . Atingiu a penteadeira que foi da minha vó. O vidro caiu no chão e o perfume suave se espalhou. Um segundo antes eu sonhava com flores. Deve ter sido o perfume. Juntei os cacos na hora, pra não correr o risco de pisar sobre eles. Não acendo a luz nunca. E também não olho. Deve ser oque querem, que eu bote o rosto na janela, e a pedra me acerte em cheio. Receio que um dia aconteça.
 
Os jogadores de pedra não se cansam. Penso se existiria algum lugar no mundo onde eu pudesse estar fora do seu alcance. Fico buscando entender. Mas nenhuma coisa faz sentido. Repetidas são as pedras e seu som agressivo, incômodo, insano, pedras jogando pedras no caminho. Assusta no início, mas acostuma-se à tudo na vida.
 
 
Podiam ser apenas flores. Penso num motivo pra não serem flores. Penso no mal que possa ter feito. Refeito. Bem feito. É tão estreito esse ínfimo portal, sei que existe, mas ele insiste em se fazer visto mas impenetrável. O imponderável ronda.
 
Já falei que não tenho medo de fantasmas. Nem de nada. Mas ando cansada. Cansada de tantas charadas, cansada de sentir tudo sozinha, enquanto, _ lembrei de uma pedra!, a melhor amiga, enigma, os jogadores de pedra realmente acham que alguma coisa será capaz de me chocar...
 
Podemos bater outra aposta. Aumentar o lance. Quebrar a banca. Outro desafio. Enquanto não se rompem todos os fios, haverá cacife...
_A única coisa que iria me espantar, sobretudo e sobremaneira, seria a existência do amor.
 
E aí, rola a aposta ( interrogação)
_ eu aposto que não!
 
 
*

Nenhum comentário: