sábado, 9 de janeiro de 2016

20:08

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Diálogos de além mar
 
 
Escrevi pra você sem ser pra você. Não sei como você aguenta. Só mesmo se fosse você. Vai que era. Um dos teus truques. De me amar e me deixar. A ver navios. Tecendo mais e mais fios.
 
Não sei qual nome te chamar agora. Gostei daquela coisa de haver um nome. Aquele nome era bonito. Bom de falar. Comprido na boca. Combinava com juras. Merecedoras por certo que não. Mas era tão...
 
Resolvi provocar teu ciúme. Inexistente. Quase te ouço dizer: _ nem tente!, essa coisa das certezas, a minha mais cruel fraqueza, concedo sem receber. Pago pra ver. Ponha tudo a perder. Só por capricho. Queria um delírio real. Do que sentimos, no entanto, nada nunca será igual. Certezas.
 
Ciúme. Recebi o dom dobrado. Triplicado. Meu ciúme tem a potência das bestas quadradas, arretadas, desequilibradas beiradas, caio e não nego. Mas, me pergunto se dentro dessa sua caixa vedada, você não percebeu o perigo que correu. Porque você sabe que correu.
 
Me entreguei em labaredas, e passei cada uma daquelas madrugadas, escrevendo pro moço das ciladas. Contei de mim, das coisas pequenas que fazemos pra prosseguir, contei do aperto, fiz até um mini concerto, desafiada piada eu cantando de madrugada a bendita canção que pra tantas deve ser cantada, e ainda insiste calada, a mais linda canção pra ser ninada:
 'lalalalalalalala ... faz com que eu ... nanananana.'
 
Você deveria morrer de ciúme. Foi teu aquele vendaval que transformou tudo em marginal, eu sei que foi. O que te coloca em xeque, sentiu ciúme, sentiu medo, não sentiu... Negue. Se puder.
 
Contei tudo de mim pro outro alguém. Tudo bem, me ferrei. Mas, como sempre, a culpa é sua. Contei sobre tudo. Menos sobre você. É que, no meio daquele turbilhão de possibilidades, suspeitas mas reais, havia a ideia de que era você, você e seu poder de me fazer perder as estribeiras, comendo pelas beiras, me tirando da festa antes do grande final.
 
Ria, pode rir, afinal, perdeu-se o sinal. Que é o maior sinal. Já vão por lá novas rimas, outras tantas mulheres meninas, e eu insisto em te contar, pra ver se você providencia logo um novo capítulo, porque eu não aguento esse silêncio, esse hiato entre o que nunca vai acontecer, e o que mais suceder.
 
Pensa só se não existisse o ciúme. Considere. As pessoas amariam outras tantas pessoas, e isso viraria uma grande zona. Literal e metafórica. Toda gente, eufórica, amando e amando, e tudo liberado, eita zona!
 
Ainda bem é que o mundo vai acabar. Disse sua Santidade que podemos não chegar ao próximo Natal. Finalmente, uma boa notícia. Ouvi isso por aí, sei lá onde,  vai ver nem disse, mas já considerei verdade e te conto aqui em primeira mão. Haverá ciúme noutra dimensão...
 
Sei não. Vou logo avisando que nesta, tive acréscimos excessivos, então acho mais que justo ser da turma que não. Que não sofre. Só vive. Mas aí também, a minha pergunta: _ é possível amar assim...
 
De você, por exemplo, não tenho ciúme, você não teria tempo. Tá o tempo todo do meu lado. Soprando sua presença macia, mesmo que desta forma vazia de forma, e sei também porque, sou igual, trocaria todas as estrelas, todas as galáxias, abriria mão do Infinito sem risco de volta, e esse exagero de amar me revolta, porque é a resposta pra nossa não realização. Dois exageros sem volta.
 
Que coisa, não...
 
 
Comprei hoje o livro de Baudelaire. Diários Íntimos. Pretendo começar a ler logo mais, à noite. Comprei almofadas brancas, novas. Um perfume de noite, novo. Um par de brincos. E uma camisola. Igualmente branca. Para essa noite. Pretendo estar à altura para ler Baudelaire. Charles Baudelaire.
 
Acho que te chamarei assim por uns tempos.
Meu amante, meu amado BAUDELAIRE.
 
Sempre sua, e
só pra você, sempre nua,
 
 
Eu
 
 
 
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