domingo, 10 de janeiro de 2016

21:31

.

Pergunta.
Haveria tempo de pedir perdão ao vento, esse imenso elemento, composto de partículas miúdas, agigantadas por vozes e posses, acrescidas de sonhos, os mais toscos e os risonhos, por  ansiedades e delicadezas, intenções e asperezas, essa força da natureza, versos que através dele agem, provocador de coragens, pai dos seres selvagens, agarra os uivos nas paragens, e por toda paisagem passa, arrasta, mas não se detém. Haveria, apesar que, mal  pisco o olho e ele já vai tão além...
 
Nada o retém. Fazer-se refém. Tentar, nem. Quem. Porém. Nada e absolutamente, ninguém, faz-se alguém quando o vento é a força de outro alguém.
 
 
E nem. E nada. E as folhas se arrastam nas calçadas, ouço as gargalhadas desses pequenos seres inanimados, parecem animados, folhas, galhos e as calçadas, brincando de vento sem precisar de argumento pra se sentirem encantadas.
 
O teu elemento. Estou cometendo um delito. Isso vai gerar atrito. Não poderia nem deveria. Mas o meu eu que delira, tomada por uma espécie de pomba-gira, gira, gira a minha cabeça quando capta os sons desse vento, poderoso fundamento dos que dominam, dos que se dominam, dos que terminam nas asas do vento sem olhar pra trás.
 
Meu reflexo. Hoje não. O teu reflexo. Hoje não. Deitamos nossos textos sobre um chão de folhas secas, macio ninho, e dormimos, exaustos de outros delírios.
 
Acordei primeiro. Pé ante pé, abri a porta. Eu e essa minha alma torta. Que nunca acorda. Mas acorda. Esquece a corda. O dia mal se resumia às primeiras horas do fim de mais uma madrugada. A vela, deixada interinamente na janela, ainda jazia sua chama bonita, irrestrita, sinalizando pra quem se perdeu.
 
Doeu. Corroeu. Corro eu, pra lugar nenhum. O vento garra o mundo e galopa apressado. Meu relógio, como sempre, atrasado. Está no século passado. Não tenho hora, embora, outrora. Ainda não se faz hora de você despertar. Mas haverá de. E eu me arrependerei destas mal formadas linhas escritas em letra corrida, mas não tinha como, o vento, que tantas vezes me fez acolhida, que me deu o piscar de olhos de um amor sem saída, dois amores, perdida, me fez feliz da vida, antes da infeliz despedida, onde eu, perdi a medida, e o filho do vento, bem, o filho do vento e sua  desatenção desmedida,  tão própria dos que voam, e não se deixam ficar,  dos que caçoam dos ficares alheios, pra que ficar quando se pode voar... Grande pergunta. Nem eu. O mundo todo pra percorrer. Vou me recolher. Antes de olhar meu reflexo te traindo. Eu estava caindo. Mas voltei. Segue vento.
 
Faz voar. Vento. Pode levar.
Mas, saiba,  mantenho acesa aquela vela na janela.
Nunca se sabe quando alguém pode querer se achar.
 
Ou se encontrar.
 
 
 
*

Nenhum comentário: