quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

22:00

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Fui eu que inventei o amor. Eu inventei o amor. Inventei as pessoas. E daí, inventei A pessoa. O cheiro da pessoa. A voz. Mas antes, eu inventei a brisa, inventei a rima, inventei cada pedacinho de calçada atravessada no mundo dos passos que eu inventei.
 
Eu inventei o desejo. Inventei o sorriso. Inventei o desaviso, inventei o piso em que me deitava pra olhar as estrelas que eu mesma inventei, nas madrugadas inventadas,
 
eu peguei o nada, e fiz uma poção encantada em que tudo cabia inventar. Então eu inventei o teu nome, depois cada pedaço do teu corpo. Eu inventei a cor dos teus olhos, a força dos teus braços, eu inventei o abraço,
 
só que dada a inventar, distraída entre risadas, eu inventei o querer, inventei o dizer, inventei cada amanhecer, depois cada anoitecer, e também inventei a paixão, caprichei na poção, dupliquei condimentos, coloquei sangue, suor, fluídos, coloquei todas as flores que eu consegui inventar, porque eu inventei um jardim,
 
e eu inventei uma de mim, assim, uma capaz de inventar o ciúme, as urgências, tratei de inventar mais desejos, e no meu caldeirão de invenções, eu inventei o amor.
 
Segui passo a passo as formulas do livro muito antigo que achei em Paris. Tudo escrito em uma língua pouco conhecida. Os arredores. Os becos. As historias. Cada pedra daquelas calçadas antigas foram me levando àquela pequena loja de coisas muito velhas, quase escondida, onde eu inventei de entrar.
 
Dentro havia uma senhora muito velha, muito linda, muito erguida, muito sábia, que me sorriu e em sua língua enrolada me perguntou sem mais:
_ você sabe inventar ( interrogação)
 
Eu sorri. Disse que não. Nunca. Só umas letras. Mal entrelaçadas letras. Ela saiu. Demorou. Voltou com o tal livro nas mãos e me disse que ali havia um segredo, e que este eu poderia usar uma única vez, até acabar,  o segredo de inventar.
 
No momento certo, e eu saberia inventar o momento certo, estava autorizada a usar. E me esbaldar de inventar.
 
Guardei o livro de inventar. Trouxe junto, por via das dúvidas, coisas que a velha tratou de me empurrar, coisas que se resolvesse inventar, iria precisar.
 
Quase não passo na alfandega. Todas aquelas especiarias de aromas e aspectos esquisitos, asas de morcego, dentes de elefante, patas de coelhos, unhas de gatos misturados à contas e conchas e moedas, véus, muitas ervas, flores secas de todas as cores, licores, um vinho um cálice, tudo viajando comigo na frasqueira por cuidado.
 
Muito tempo ficou guardado. Até que inventei um dia. E ele se fez. Me espantei. Inventei outro dia. E outro dia se fez. E fui inventando coisas pro dia. Coisas que amo.
 
Sol, nuvens, corações, janelas, estrelas, portas, calçadas, esquinas, passarinhos, flores, perfumes, crianças, beijos, noite, lua, comidas, bebidas, tecidos macios, silencio, musica, luzes coloridas, sons, bichinhos bonitinhos, e tudo ia sendo inventado a contento.
 
Só não podia parar. Era a única vez que funcionaria. Daí, sai feito doida inventando mais. Inventei casa, lojas, ruas, cidades, saudades, mas inventei de no meio de tudo, me sentir só. Tudo inventado e eu olhando as invencionices,
 
e foi aí que eu inventei. Inventei o que vinha inventando com palavras. Inventei um alguém. Inventei. Mas já tinha inventado tanto que no meio de tudo, me danei. Inventei tanto, tantas coisas sem prestar a atenção, porque eu não inventei a atenção, nada mais quase restara das coisas raras que eu precisava pra continuar a ter o poder de inventar.
 
No meio da minha mais cara invenção, olhei pro chão. Os frascos estavam vazios. Por todo lado, só restavam galhos daquilo que um dia me deu o dom da invenção. Estava no meio do mundo. Eu inventei todo um mundo. Inventei todos os personagens. Inventei o alguém mais perfeito que imaginara. Inventei a mim mesma, mesmo mal enjambrada, e na hora de inventar o final feliz, eu não tinha mais nada.
 
Que grande cilada. Eu tinha sido avisada. Não fica deslumbrada. Não gasta o presente de forma estabanada. E eu, que nada, bora lá inventar a escada, eu sou uma fada, eu posso até voar. Mas nem cheguei à.
 
Inventei até não ter mais com inventar. O que eu não inventei, sobrou em forma de dor e bagunça. Estava até agora dando uma ajeitada. Ainda me sinto enganada pela velha francesa que me fez inventar o mundo, e depois dele, me descartou.
 
O que será da velha. Será que ainda vive, estará ainda vivendo naquela casa antiga daquela arruela escondida daquele canto inventado de Paris...
 
 
Não tenho mais o que inventar. Não tenho mais como inventar. Só me restaram essas palavras pra me consolar. Me ajuntar. Ou inventar algum jeito
de voltar pra Paris.

Não consegui inventar o feliz. Só o final.
Mas cheguei muito perto,  foi mesmo por um triz.
 
 
 
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