terça-feira, 12 de janeiro de 2016

22:18

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Não sei porque estou resistindo tanto para começar a ler Baudelaire. Penso que estou evitando o mesmo erro que cometi com você. Excesso de expectativa. Descobri Charles na rede, óbvio que sabia da existência dele, mas nada consistente, que justificasse uma busca, até que meus olhos cruzaram com os dele. Foi paixão à primeira vista. Ele fala coisas, fala no presente, porque se trata de um ser imortal, coisas do mundo carnal, acresce à elas o caráter do espiritual, necessário, salvador da pátria para que a vida não se repita maçante e igual.
 
Mas eu resisto. Quero ler nele as coisas que eu penso, e sob o risco de não ser, eu me retenho. O que não fiz com você. Com você fui na veia. Teci e morri na minha própria teia. Queria que você  fosse como eu queria, fui te lendo e interpretando, tirando conclusões, não sem sua devida e imensa colaboração, até que não houve jeito, e deu no que deu.
 
Engraçado que pra ler Nietzsche, por exemplo, não me fiz de rogada. O ser deprimido que precisou inventar um deus pra dar cabo das suas carências, um ser deprimido por morrer de amor pela maravilhosa e avant garde LOU SALOMÉ, mulher divertida, apaixonada pela vida, o vampiro alemão, que se projetava nas palavras feito um mimado, agarrado nas asas daquela que não o quis, fez sua obra amarga, saldo da sempre ela, a frustração amorosa com  fins doentios, tão próprio dos artista, só eles, que conseguem expor suas amarguras em bem elaboradas escrituras.
 
(Desculpa Nietzsche, mas não sou uma estudiosa, e esse é só um resumo de interpretação, direito que me cabe, e perdão às opiniões contrárias, é só uma visão bizarra dessa que vos fala).
 
O mesmo ocorreu com  Schopenhauer, outro alemão dono das dores do mundo, acreditava no amor, mas o mantinha fora das linhas da felicidade, coisa mais danada, como se não fossem conjugáveis na mesma frase, e eu o li sem pestanejar. Péssima influência. Adorável identificação.
 
(mais um pedido de perdão)
 
Devorei Espinoza. Baruch, o holandês. Quanta frustração naquele ser que sofria e sofria, e todo o lamento por não ser aceito por suas diferentes posições, que no fundo descabiam tanto quanto. Marginal sem ser. Contrário sem ser. Ardente negando-se a ser. Ciumento. Orgulhoso. Teimoso. Repousa seu busto no solo metafórico  que o baniu. Como todos, nasceu, viveu e morreu. E o gato segue com sete vidas. Ninguém entendeu...
 
Olhando os livros na pequena biblioteca, esses citados e alguns outros, tantos, queridos e amorosamente lidos,  me pergunto porque busquei influências tão frias, embora o mundo da filosofia seja bem assim mesmo, consistente de  autores que concluem a vida de forma esquisita, quase trágica, doída, pouco atrevida, são muitos se comparados  aos filósofos seres otimistas, quase uma contradição,  poucos são os  devotos do prazer como signo de salvação. Conclusão miúda minha. Conceda-me essa licença.
 
 
Talvez seja assim mesmo,  porque é fato que  a vida é dura. Pra cada tipo de criatura, uma dor que se anuncia, sem direito à renúncia, haveremos de pisar as brasas, e no final do dia correr pra casa, onde faremos um ninho, e dormiremos encolhidos no trauma de uma separação essencial. Somos seres essencialmente sozinhos. A agonia é latejante. É  quase ultrajante o tanto de dor. Até no amor. Nenhum tipo de dor deveria ser permitida. Nenhum. Pra ninguém. Tenho tanta pena do ser humano. Do meu ser humano. Do teu. Do mundo todo. Todo mundo tão tolo. Aff. Cá estou eu.
 
Perdão se me estendi em pouca ou nenhuma razão. Só fui dando vazão à meus pensamentos miúdos, talvez ridículos, até absurdos, toda essa volta pra me perguntar,
_ vai começar a ler ou não vai começar a ler Diários Íntimos de Charles Baudelaire ( pergunta)
 
 
(um parêntese que não deveria constar, mas vai lá)
 
Nem tomei banho ainda. Tô me enrolando aqui. Bonitas as novas flores do jardim do moço lá. Espiei, sim. Trata-se da mais autêntica auto sabotagem. _ Vai lá, vai lá ver de perto, isso, esmiúça, imagina, pira, veja que bonitas, mimimis que soam íntimos, pronto, confessei, e eu mesma me envergonhei dessa coisa corrosiva de ter que ver pra crer  e querer ver e não crer e voltar e ver e não crer, e de novo, repetidamente, ver, voltar pra ver, não crer, reler, até o dia que o mais lento dos verbos resolver fazer o favor de me fazer ESQUECER.
 
 
 
Eis a razão de citar alguns dos pensadores que li, é como se fosse pra comprovar minha tendência esquisita e masoquista de me dedicar à arte de conseguir me sentir bem-mal quista. Inversa conquista. Criatura esquisita. Que confusão. Nem eu tô entendendo nada, não. Largar de mão. Teimosia insistente. Larga minha mente. Não você. O outro você. Baudelaire. As fotos são dele. Me chamando: _ Vem!, vem pra perto do outro lado da força, eu resisto, mas ele insiste... Me lembra tanto você. E o outro você . Vem. Vem. Vem.
 
 
 
Francês. Só podia. Paris. Óbvio. 1867. Poeta. Boêmio. Dandy.
Termo que eu adoro FLÂNEUR. Sepultado no cemitério do Montparnasse. Paris. Marie Daubrun, sua musa. Fim trágico. Deixa pra lá.
 
 
"A alegria de precipitar-se no abismo."
 
Ainda são informações superficiais. Vou pro banho. Repetir os rituais. Perfume, brincos , velas, luz na janela, cabelos numa trança bonita, manta, aquele canto macio, só meu, e seu, e de BAUDELAIRE.
 
 
 
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