domingo, 24 de janeiro de 2016

22:33

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Foi apenas um sono mais que longo. Um sono onde se passaram três luas grandes, como esta que hoje pende no céu. Uma vermelha. Uma branca. E esta, bem amarela. Estive ausente todos estes meses e ninguém percebeu. Essa sou eu. Invisível criatura. Acordei em frente à mesa onde descansa a caixa de xadrez feita pelo meu vô. As peças estão todas misturadas. Todas em cima do tabuleiro. Pretas e brancas. Como um baile. As peças todas aos pares. Ninguém está à minha frente. Nem ao lado. No cinzeiro, uma ponta de baseado bem enrolado. O isqueiro do meu pai e o cinzeiro que ele roubou de um navio. Souvenier. As flores no vaso estão secas. Mas bonitas. Vou guarda-las dentro de algum livro.
 
Onde eu estava com a cabeça é difícil rever. Anoitecer foi fácil. Escurecer foi dor. Amanhecer tem gosto de nada. Ou de tudo. Ao mesmo tempo. O tempo caiu sobre a minha cabeça, urgente a ser retomado. Por onde começar... Olho o tabuleiro, lembro do vô, sempre obrigando a gente a aceitar as regras do jogo. Dele. E ele não dava moleza. Jogava com firmeza. Nunca deixava a gente ganhar. E com isso, a gente foi perdendo o gosto pelo jogo. Ele pedia, _ vem jogar com vovô, a gente ia, a cabeça até ardia, comia um peão, ele deixava, comia qualquer outra peça e ele deixava, e aí, dava cheque, cheque, até ser o cheque mate.
 
Uma lição ainda resta. "Quando perceber que a derrota é iminente, faça com que seu rei se deite". Ao chão. Sem precipitação. Mas ponha atenção. Lição. Com o tempo, ou não jogávamos mais, ou nossos reis jaziam. Era essa a lição que vovô insistia, tente, mas saiba perder. Encerre o jogo, cumprimente seu adversário, e da próxima vez, não repita, ou repita, até aprender. Com vovô os cumprimentos davam lugar à abraços e doces que ele sempre tinha escondidos em seus bolsos de casacos. Até que não era ruim perder pra ele. A gente saía doce de alguma forma.
 
Mas deu. Vovô morreu faz tempo, e o tempo é outro. Tempo de guardar as peças e viver. Todas limpas e devidamente guardadas. As peças. A sala, no entanto, reclama,  desarrumada. Palavras soltas para todo lado. Pelas estantes, pelas paredes, no chão, nos tapetes, palavras penduradas no lustre, nos quadros, pelas mesas, palavras amassadas, debulhadas, palavras esgotadas. Hora de juntá-las. Começo separando. A palavra VOCÊ. A palavra Eu. As palavras SIM e NÃO. Muita repetição da palavra AMOR, seguida de perto pela palavra DOR. E suas derivações. Cansei da brincadeira. Encho sacos e caixas de palavras, vareio a madrugada até por fim acondicioná-las no quarto das palavras, abarrotado de anteriores palavras ditas em vão. Passo a chave. Duas voltas bem dadas e a chave, atirada no lixo.
 
Varro o chão. Tiro o pó. Jogo as pontas de vela, de cigarros, lavo as taças, os copos, escancaro as janelas pra mudar o ar, deixo as cortinas fechadas, perfumo tudo, com água de cheiro, boto uma água pro chá, tomo um banho, morno, não penteio os cabelos, mas me perfumo também. Respiro. Um certo alívio. Um alívio doído ainda. É como uma ferida que caiu a casca. Você acostuma com a ferida. Cuida. Um belo dia cai a casca e fica só aquela pele rosinha, onde houve o machucado. Você ainda cuida. Mas sabe que passou.
 
Acabou a prosa. Esta é última. Novas serão as palavras. Mas não serão prosa. Talvez, poesia. Alguma rima vazia que não se pretende, talvez a poesia, e sua discreta alegria de não se revelar.
 
 
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