sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

23:33

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Queria escrever algo doce. Queria tanto ser doce. De verdade. Não uma metáfora de doçura mal formada, essa mentira de doçura que camufla a espera e me faz essa fera de garras absurdas e tão cheia de pressa, como se estivesse sempre atrasada pra festa.

Queria ser mais que esse dia. Não consigo reter o dia.Não consigo manter a doçura. O dia não me cura. Fiquei dura. Menos contigo. Meu amigo. Porque amado tem que ser amigo. O meu bem. Que nunca vem. E me rouba um pouco todo dia de dentro dos meus dias...
 
Queria uma doçura dessas que a gente esbarra, às vezes. Que algumas pessoas têm. Parecem abelhas. Ou melhor, parecem conter o néctar. Outras são flores. Perfumadas. Mil cores. Queria ser flor, mas me resumo à ardores. E dores. Eu não queria ser assim.
 
Queria uma doce de mim. Seria o seu fim. E a sorte pra mim. Sou essa farsa ambulante, veja que farsante, quero ser doce, e cá estou fazendo doce. Fazendo bico. Eu comigo. Me sinto tão sem abrigo. A noite. Devo preferir o noturno porque nessa hora, os doces, dormem, as abelhas somem, toda falta me consome.
 
Escrever pra você sempre foi mais do que te escrever. Foi e tem sido uma forma de me conhecer. É no escurecer dessas letras que me faço reconhecer. Vejo que meu mundo é a culpa do nada acontecer. Precisaria remover o mundo todo que criei por dentro.
 
Sou uma lua minguante. Não sou sua amante. Sou seu reclamante. Não sei o que viu em mim. Há uma tristeza inerente que trago de outros confins, sou tão simples que até pareço complexa, tão descrente pra seguir em frente, queria ter a coragem do fim.
 
Mas não a tenho. Sou, além de tudo, covarde. Essa névoa que você beija à cada nova aurora, dessa, que te adora, hoje está cheia de manha, e nem se acanha de se expor, é que hoje tá doendo, cada pedacinho que sou, dói a tua ausência de mil vidas, divididas entre não ser e não estar, e nesse verbo quase maldito que me ensinas, amar.
 
A pergunta sempre fica a martelar. Até quando vou aguentar. Até quando vou ter que me virar com teus noturnos, com suas mudanças de turno, com esse tiquetaquear de horas que sucedem horas, eterna demora, porque simplesmente não vem e me namora, feito todos os doces mortais...
 
A doçura me fez dura. Paradoxo de uma alma crua, nua em letras e entregue de amor. Só poderíamos assim. Disputamos o pódio da mais estranha criatura. Porque é ácida a tua doçura. Tão ou mais que meus ais.
 
Estou tão cansada. Essa travessia nunca chega à virada. Tudo se repete, nada me acomete, e o mel que te queria, vira fel, eu sou só o teu pedaço de céu em labaredas, somos a esquerda do amor, o inverso, o controverso, o estranho verso, onde a doçura é quase secura, onde a rua não nos permite o passo, onde o vácuo suspende nosso abraço, onde as promessas são caleidoscópicas e as possiblidades, mínimas, ínfimas partículas, que nem mesmo ao sonho, ao humano sonho, nos permite adoçar.
 
Hoje, meu amado,  só os travesseiros saberão o doce que te quis. E aquelas doces pílulas de fazer o sono vir ligeiro. Pra daí, você vir sorrateiro, velar meu sono e beijar meu corpo dentro de um sonho perfeito, um sonho que não precisa de doce, ele te trouxe, o meu gosto e o teu mais intenso sabor, juntos somos, AMOR.
 
 
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