quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

17:27

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Daí o assunto LIBERDADE entrou no salão para dançar. Não houve quem não parou pra olhar. Suas vestes, seu caminhar, seu olhar a desafiar quem sem atreve, suspiros, espanto, como pode tanto encanto por aqui se aproximar. Dança só. Não escolhe ninguém como par. Liberdade é uma miragem pra quem tem coragem de olhar. E todos olham. Embasbacados de vontade de tocar.
 
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Um paizinho lindo de barba clara. Uma bicicleta de dois lugares. Uma menininha linda, vestido cor-de-rosa, cabelos cacheadinhos, claros como os do pai, na garupa, agarrada naquele ser que seus olhos declaravam herói, passeando contra o vento, a favor do vento,  rindo os dois, às gargalhadas, divertidos,  bonitos, nem acredito no que meus olhos veem, uma poesia sobre alegria em frente aos meus olhos passando, desfilando em um ensolarado feriado de carnaval.
Ecoa nos meus ouvidos um terceiro riso. Feliz, feliz.
Sim, um terceiro riso!, o paizinho, a garotinha linda e a LIBERDADE.
 
 
Pude vê-la ao vivo e em cores. Eram só amores. Babava até de se ver viva na espontaneidade do momento daqueles dos amáveis seres que mergulharam no amor sem medo, vi a  liberdade mudar de nome, FELICIDADE.
 
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Por outro passeio, desta vez na rede, passei por um jardim esquisito, cactos, bonitos mas, ásperos, fazendo-se valer da liberdade de se expressar. Um dos espinhos se ardia em palavras contra o direito do escritor ser prezado somente quando não fala de suas particularidades e  quando não se expõe de forma pessoal. Tomei a pedra por todos os autores que fazem uso da palavra de forma absolutamente pessoal, Clarice, Manoel, Rubem, Raquel... Eis a LIBERDADE, de uma forma ou de outra, visões são sempre pessoais. A palavra não é nada desprovida de vida. De energia. De detalhes. De exposição. De enredo. De algo que agregue à ela uma substância infalível: a experimentação.
 
Vi a liberdade ali também. Arrogante. Pretensiosa. Toda prosa no palavreado, e vi a mesma liberdade instigar-me aqui, exercida no direito de quem escreve, não uma artista, mas uma equilibrista que dança na corda bamba com as palavras,  quero expor,  expor que horas acordei, o que sonhei, a cor da minha calcinha, no caso, hoje, preta, de renda combinando com meu sutiã de alças finas, e ainda falar das dores, dos bálsamos, das simplicidades que de tão simples fazem-se complexas como só a liberdade saberia explicar.
 
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Penso ainda mais sobre a liberdade. Nos seus extremos. Onde a sua realidade se faz. Efêmera, linda, reluzente, toda gente já teve um ou mais instantes que permitem relembrar.
Porque desconheço sensação mais livre do que mãos que se dão. No começo de uma estação. Na primavera de um romance que se inaugura. É tanta liberdade que ultrapassa a possível sensação de prisão que uma paixão possa sugerir. Livre querer de juntar os corpos. Livre delírio de alcançar juntos um prazer onde a liberdade se confirma, e geme tanto ou ainda mais, porque a liberdade é quase isso, uma felicidade. Ao menos quando se decide assim. Liberdade não é exatamente uma opção. Muito menos a felicidade. Mas quando a circunstância faz-se vizinhança, abram-se os portões.
 
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Aí lembro do preço. Não há nada na vida que não cobre seu valor. Correspondente. O paizinho e sua linda menina passeando de mãos dadas com a liberdade, e claramente  com a felicidade, têm mais responsabilidades do que eu possa supor admirando-os e morrendo de amor. A pessoa que critica provoca o atrito, paga o preço do conflito que toda palavra, quando é dita, livremente, instiga, e a resposta, e a palavra, e o compromisso que poderia ser livre à todos, aquele de fazer-se livre pra o que conta, liberdade pra cabeça, abraço, beijo, festa, floresta, orquestra, ballet, o sabor daquela comida delicia, os cabelos cheirosos no afago das mãos de quem se quer, e que te quer também, correr na chuva,  livres se sentem os pingos quando precipitam-se em queda, assim como livres são as flores que engolem os pingos para livres virarem seiva, essência, liberdade justifica-se na felicidade que se alcança.
 
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Esperança. Não sou livre. Ninguém é. A gente se faz só. Assim como feliz não se é, se está. Quando se quer. A roda é maior. A música que toca define os passos da ciranda. Sonhamo-nos livres. Mas estamos presos. Presos no corpo, presos nos desejos, presos nos amores, presos nos receios. Estamos presos nos vícios, presos à beira de abismos, presos nos pensamentos, nas dores, nas esperas, nas demoras. Presos nas chegadas, presos de partida, estamos presos na gravidade do mundo, da órbita, dos costumes, das morais e ditames, estamos presos nos julgamentos, presos dos sentimentos que nos aprisionam em tristezas, em fraquezas, somos livres sem grandeza.
 
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Feito a lua. Só parece. Feito as estrelas. Só parecem. Feitos os astros. Só parecem. Feito as partículas que compõem o Infinito. E só parecem. Livres. Felizes. Somos espiões da aparente liberdade alheia. Somos observadores da felicidade que paira breve, nossa, do lado, passeando agarrada ao pai, cabelos ao vento, nem o vento, o elemento de aparência tão livre, refém também, das correntes, dos comandos, dos controles. Nada sobre controle. Tudo nos escapa. Tudo nos detém.
 
 
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E o que convém. Não me convém sair. Não me convém me arrumar pra sair. Me convém me perfumar pra ficar. Minha liberdade é ínfima. Mas eu a exerço do avesso. Flerto com versos. Com palavras que me revelam comum, a mais comum das mortais, minha liberdade se faz escrita, lida, vivida nos pequenos gestos, no amor que invento, na lamento da paixão que aguento, nos meus objetos, nas minhas músicas, quando quero danço, quando quero choro, quando quero sonho, quando quero mando às favas, quando quero me iludo que posso, mas não posso, e sou livre pra saber que o limite não existe pra mim. Ele existe pra você.
 
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Daí eu lembro do mar. O mar imenso. Azul. Sempre azul em tons. A onda vai. A onda vem. Lembro da sensação quase erótica de entrar em suas águas, as águas  penetrando todo meu corpo, um mergulho, o corpo solto, boiar com azuis por cima, com azuis por baixo, avanço, mar adentro, não tenho medo, e copulo com o mar suavemente, sem que ninguém veja, sem que ninguém perceba, exceto ela, a LIBERDADE.
 
A liberdade de não querer ser livre. A felicidade de não querer ser feliz. A livre felicidade de me aceitar cativa de mim.
 
 
 
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