segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

19:24

 
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Outros jardins. Ai ,de mim! e minhas margaridinhas pequenas e pouco amarelinhas, quero olhos pra vê-las enquanto gasto-me em apelos sem o cultivo cumprir. Vez ou outra cai um retrato apropriado no meio das nossas fuças para o olhar ganhar foco. Olho. Não sei avaliar. É quase como se eu mesma não visse. Possível que não exista. Tô levando no grito uma não existência, sou eu o jardim sem aparência.
 
 
Sonhei com um ente querido a noite passada. Pai de uma amiga de infâncias imorredouras. Um tipo de tio, vô, mágico, nos chamava à todas, as meninas, de 'senhorinhas', e a gente se ria por alcunha tão excepcional. Quando resolvíamos fazer nossas incursões pelos terrenos vizinhos que ainda se faziam existir com árvores, muitas, campos, arbustos, ele nos lembrava:
 
_ Não se esqueçam, senhorinhas, de pedir licença para os passos.
 
E a gente repetia o que ele nos ensinara: _ Licença, compadre, licença, comadre!. Ele nos garantira que sob este mantra estaríamos resguardadas de mordidas dos bichinhos do mato, de imprevistos e sinistros, porque pedindo licença para nossos passos, o respeito seria recíproco. E a gente saia correndo, com cestinhas, as senhorinhas, colher mimosas, jabuticabas, moranguinhos, coquinho verde, umas flores de nome engraçado 'maria sem-vergonha', que a gente amava porque coladas às unhas, nos fazia parecer moçoilas de unhas cumpridas e coloridas, e nunca ninguém se machucava, voltávamos sempre felizes, sãs e salvas.
 
Metáfora pra vida. Licença pra tudo. Licença pra existir. Licença pra falar. Licença pra passar. Licença pra sentir. Licença pra pedir licença, licença pra expressar. Sem censuras. Sem ataques. Sem achaques. Sem mordidas. Sem feridas. Licença pra se sentir querida. Licença prometida. Licença pra vida.
 
Junto tudo numa cesta, flores miúdas, flores graúdas, morangos vermelhos vivos silvestres, morangos ínfimos, meio verdinhos, sujos de terra, bichinhos passando, um besouro, uma abelha, formigas, amigas de tempos idos, tempos floridos, carinhos colhidos, encolhidos sentimentos de passar, sem incomodar, pelos caminhos, pelos matinhos, pelo mundo que cerca, e as cercas que  não existem mais. Só prédios. E seus aços colossais. Só gente que se pretende, sejam todos iguais...
 
Sentido. Licença por não fazer sentido. Licença para as flores caipiras. Aquelas que nascem sem plantio. Vão nascendo onde der. Nos vãos das calçadas. Em torno das árvores velhas das cidades de concreto. Vão se esgueirando aqui e ali, só pra existir. Não lhes cabe um jardim. Um cuidador. Água fresquinha de um regador de fim de tarde. A água é a chuva. A semente é o vento. O cuidado é a sorte. A colheita é a inexistência. E o perfume é a resistência.
 
Coração. Coisa que sai assim, tipo flor sem nome, tipo letra sem sentido, tipo poesia sem rima, tipo prosa sem charme, tipo amor sem dom, tipo desejo sem jeito, tipo querer sem poder, tipo transparência sem intenção, tipo atração sem culhão, tipo vontade e frustração, essas,  não precisam pedir licença, convivem bem com os miúdos entes transformáveis, não servem pra nada, mas existem porque é assim.
 
pergunta-se
 
De que serve uma flor miúda de calçada. Nada. Não será colhida, não estará num buquê bonito de alguma vitrine linda, nem verá o sorriso de alguém ao receber dos braços de outro alguém, as belas vestes de um buquê, não enfeitará quartos, nem salas, nem saberá o que é ser admirada, conservada, regada,  e bem guardada quando secar, em algum livro de poesia, de onde será, pra sempre recontada. Amada.
 
me perdi...
 
Misturei tudo. Me perdi. Onde eu estava. Licença. Compadre. Comadre. Vida. Adulta. Flor miúda. Jardins. Existir. Coração. Frustração. Permissão. Liberdade pra ser. Sem ter que parecer. Ser. Simplesmente ser. Ser miúda. Cair na real. Não há jardim aqui. Aqui é mato. Flor  aqui nem é bem flor, é só flor do mato. Jardim bonito é logo ali. Do outro lado.
 
Obrigada, compadre! De nada, comadre!
 
 
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