quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

20:20


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Se existe algo mais chato do que PENSAMENTO, eu desconheço. Bichinho mais temperamental não existe igual. Você quer pensar coisas boas, quer livres voos, quer um tempo, e lá está ele, o bendito pensamento marcando seu lugar.
 
Não tem um botão, não tem distração, não tem abstração que controle, ele é absoluto, é uma luta desleal, porque ele, o pensamento, é de temperamento animal. É tipo uma sucursal da Divina Comédia, céu, que quase nunca, purgatório, coisas práticas da vida, e inferno, o dominante, que te faz arder seus pecados, te faz queimar os neurônios, eles se achegam anônimos, e vão te minando, te cercando, uma coisa dando a mão pra outra, as mágoas se alimentando das raivas se alimentado das palavras recebidas, ofensas proferidas, coisas caras, findas, e a chama, vermelho intenso de um firmamento sem chão.
 
Pobre razão. Divina ponderação. Obsessão. Dominação. Frustração. O nome da rosa. Não tem flor neste canto de dor. Dor, no entanto, tem raiz. Avança pelas entranhas, ruas estranhas, a gente só quer um descanso, e nessa altura do jogo, qualquer descanso já é ser feliz.

inferno
 
 
Lembrei de uma frase que me foi dita. Só queria dizer que concordo inteiramente, em número gênero e grau. A  frase dita nem vem ao caso. Ao caso é o som dessas risadas bonitas que vêm da rua. Paro a escrita pra ver, três crianças crescidas, uns dez, onze anos, duas meninas e um menino, correndo soltos, e rindo. Eita! coisa mais linda.

purgatório
 
Com certeza não chegaram aos desenganos ainda. Só correr bem louco, pelas calçadas, criançada solta, bateu saudade, lado do céu, correr no final da tarde antes que a mãe chamasse pras chatices, banho, lição de casa, jantar, escovar dentes, rezar, dormir.
 
Pensamento era pequeno. Decorar a tabuada, combinar o piquenique, convencer o pai de levar a gente pro circo, pro cinema, lembrar o que significa fonema, fazer as pazes com o menino bonito, ops, aí já havia complicação, coisas do coração nem criança dá conta, não.
 
 CÉU
 
Tenho duas pitucas na minha vida. Uma de oito. Uma de quatro. Minhas sobrinhas. Quando elas vem me visitar, a gente brinca de desenhar, de aprender novas palavras, fazemos sempre uma merendinha, que elas adoram, e nessas horas calminhas,  elas me fazem confidências. Os nomes do perigo. Um se chama Guilherme. O outro, Caetano. E eu morro de rir das dores pequeninas das minhas meninas que já se acham enamoradas, elas nem sonham o quanto é cilada as travessuras da paixão.
 
Vão brincar de esconde-esconde, meninas! Vão pintar o sete pelas paredes, tocar campanhias e sair correndo, vão fazer cabaninha, mas nada de fazer comidinha, sonhem mais alto, minhas meninas, sonhem-se livres, sonhem-se no comando das suas vidas, sonhem viagens, profissões, multipliquem suas paixões para amplos campos, sejam idealistas, façam listas e listas, lugares, passeios, façam anseio ser um termo suave, deixem de lado as cinderelas, pulem as janelas, sigam na contramão dessa educação dantesca, sonhem alto, e corram pro abraço do eu. Façam de vocês mesmas o seu amor maior.
 
Não ensinam isso na escola. Tem que ter uma tia que descola a visão e convida pra o outro lado da história. Lembrei que pegamos todas as estórias da carochinha, e mudamos tudo, começo, meio e fim, e elas adoram, cada encontro mudamos a retórica, e nessas horas sou feliz. O pensamento dá um tempo. Meu lugar no céu.
 
É, Dante, quem disse que seria fácil... Sucessão de pensamentos, acontecimentos, um pé aqui, outro ali, desistir, resistir, prosseguir, e o verbo sorrir, porque de vez em quando a gente faz o pensamento ficar contrariado, consegue mudar de lado, um barulhinho no telhado, chuva caindo, uma coisa boa surgindo, e de devagar em devagar, a gente vai aprendendo a se dominar. E isso também é parecido com ser feliz.
 
 
 
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