quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

20:31

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Sobre ESCREVER.
 
 
Houve um tempo em que o que havia era a pena. Ao lado dela, o tinteiro. Havia a pena, a tinta e o papel. Sobre uma mesa. Em frente à um ser estranho  que fazia-se voz  neste conjunto. Talvez a luz fosse a vela. Talvez a cor fosse a amarela. E talvez o tom das coisas escritas lembrassem mais a pátina de uma aquarela do que a explosão de cor que ninguém suporia, iria haver. Nesse tempo o que havia era o tempo passando mais lento. Fora isso, havia o nada, o amontoado de nadas que se multiplicam até hoje, em tempos de letras rápidas, pensamentos lépidos, raciocínios intrépidos, e o ontem. Tanto nada e já é ontem.
 
Um amigo usou o termo. "O que escrevemos não passa de um amontoado de nadas". E mais o pressuposto que de fato, somos nada. Viemos de um nada que ninguém sabe explicar. Voltaremos para algum nada que ninguém se atreve sequer a pensar.
 
 
Há quem fale. E saiba bem falar. Há quem cante, e saiba bem cantar. Há quem dance, há quem construa, há quem cozinhe, há quem cuide, há quem cure, nadas e nadas na tentativa de trazer algum sentido ao vazio. Não fui quem criou o vazio. O vazio nos criou. Muitos fazem bem o que fazem. Outros apenas o fazem. Porque é o que nos cabe. Fazer. Bem ou mal feito, fazer.
 
Cantam-se nadas em chuveiros, mas há o direito a cantar. Dançam sem graça muitos nadas na avenida, mas há o direito a dançar. Aprender faz-se no tentar. Cozinhar com maestria não desmerece o arroz que saiu uma papa, pois há o direito a tentar, aprendizes, amadores, estamos todos de passagem, prezados, fazer bem, _ que sorte você tem!, mas há quem faça meia-boca mesmo, se atrapalhe, tenha que refazer muitas vezes, e há quem tente e tente e não aprenda, mais nem por isso é-lhe privado o direito de fazer.
 
Como escrever. A pena, o tinteiro, o papel, as máquinas de fazer as letras voarem mais rápido do que o som, estão a disposição dos que bem fazem, e dos que nada fazem além de amontoar nadas sobre nadas, mas ainda assim, cabe-nos, e nesse caso me incluo por repetir o vazio e o nada de forma desconsertada, cabe-nos o direito de escrever, sim! Foi paga a pena, a tinta e o papel com os níqueis que saíram dos nossos bolsos. Se não escrevemos nenhum colosso, é só porque não somos esse talento estrondoso, somos os tímidos, os reprimidos, os não escolhidos, os que fazem da escrita um nada que nos abrigue nesta estrada cheia de nadas.
 
Porque no final, bem feito ou mal feito, bem escrito, ou um lixo, voltaremos ao pó, nossos papéis, nossas tolices, nossa completa falta de sentido, voltaremos ao que somos todos, os mais lindos, e os desmerecidos, um amontoado de nada, relatando lindamente ou de forma errada,  que o que resta é o que é, e o que  sempre será,   um monte de nada sobre nada, e mais nada.
 
 
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[Afora isso, a porta da rua, é a serventia da casa. Perdão!]
 
 
 
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