quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

21:36





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Tenho tido sonhos ruins. Dias ruins. Sensações ruins. Estou ruim agora. E é muito ruim se sentir assim. Tive um sonho especialmente ruim na noite passada.
 
Sonhei que acordava no meio da noite. Ao acordar, acendia uma pequena lâmpada azulada do abajour de cristal que ganhei no natal. Ao acender, no entanto, a luz não era mais azul, mas cinza. Um cinza assombrado. Estranhava a cor no abrir dos olhos, quando percebia que o quarto estava todo pichado. Todas as paredes, todos os lados, tudo riscado à carvão. Pelo chão, tocos de cigarros, alguns ainda mal apagados, misturados aos pedaços que restaram do carvão. Assustada eu corria pra sala, e mais daquela palavra pichada. Rabiscada. Em todas as formas de letra, de todos os tamanhos, estranho presságio. Era a palavra o que mais me assustava, mais que todo estrago que percebia. A noite estava fria, a pele arrepiada fazia  perceber que a chuva fina respingava pra dentro pelas janelas vazias de imagens e cortinas igualmente marcadas e rasgadas.
 
Tua foto, que guardava no porta retrato de prata, estava rasgada em mil pedaços, e o vidro quebrado revelava que alguém se cortara. Havia gotas de sangue no chão. Então me dei conta, dentro do sonho, de um som. Sinistro eco da palavra reverberava estridente numa repetição alucinante em vozes multiplicadas como um coro desarranjado de maestria. As portas estavam todas abertas, as chaves sumiram, corria de um lado para o outro, desci de pronto a escadaria, e lá fora, o eco se alastrava pela calçada, onde todos os anúncios repetiam a palavra.
 
Placas de trânsito, placas de lojas, placas de carros parados, placas de propaganda, panfletos esquecidos no lixo, um jornal largado no banco do ponto de ônibus trazia, em letra garrafal, a palavra em plural, por toda parte, tudo igual, a palavra, insistente, um ônibus parado trazia como destino a palavra, na porta da loja de flores, a palavra, no açougue, na locadora, na padaria era a oferta do outro dia,  no jardim de infância, e uma ânsia desesperada de entender me fez correr, a rua ao lado, a rua acima, a rua abaixo, tudo vazio, tudo repleto desta única palavra.
 
Meus ouvidos, minha cabeça, latejam com o som que só aumenta o eco de palavra, quanto mais me distancio de casa, mais vozes entram no coro, mil tons, fantasmagóricas notas anunciavam a palavra, volto pra casa, em disparada, são três horas da madrugada, olho pro céu tentando uma súplica, vejo que as estrelas sumiram, uma nuvem gigante resta apenas, um desenho mal formado da maldita palavra.
 
Na sala, onde tudo é esta palavra, num segundo de distração, olho minhas mãos e percebo que estou toda marcada, mãos, braços, pernas, ventre, seios, meu rosto, olho no espelho maior, dou-me conta da nudez vestida por esta triste palavra em mim riscada, uma de cada vez, a ferro marcada.
 
A palavra que mais me assustava, a palavra que eu tanto evitava, a palavra que eu jurava não ler, não querer, não considerar, não aceitar, refutar com todas as minhas forças, a palavra que não tinha cabimento, o atrevimento da palavra que não permitia o arrependimento, a palavra que tornaria o afastamento definitivo, todo seu teor aflitivo, a palavra que eu não queria ouvir, a palavra na qual me negava refletir, a palavra que te tirava de mim, assim, por todos lados, anunciada, a palavra mais odiada pelo meu coração, a palavra que superava o não sequer pronunciado, definitivamente, revelado,
 _foi justo esta a infeliz palavra que a minha mente acumulava:
                                     .NUNCA.
 
Nunca, nem nos meus piores sonhos, houve palavra mais fria.
 
 
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