segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

22:12


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Recebi um poema de presente. Um encaixe de rimas expressivas, vibrante composição de sentimentos, ponto a ponto enlaçados, desenhos delicados e coloridos que me fizeram sentir querida, e como é bem vinda a sensação! Um afago em meio à tormenta.
Junto ao poema, metáforas de coração. Num bem feito pacote de presente, laço de fita, caixa bonita, um mundo de novas palavras pra eu usar. Um bilhete que dizia:
_ Todas as palavras são suas.
 
Quase encabulada, agradeço. E me comprometo à usá-las com mais suavidade. Curiosa que sou, abri sem cuidado o presente, um mundo de palavras só minhas, antes de abrir já pressentia a alegria de subirem à minha frente as cortinas para novos atos. Experimentar novas sensações através das palavras. Fazer delas novidade. Explorar a variedade infinita que uma única palavra é capaz de navegar. Palavra é mar de possibilidades, precisa é habilidade para fazê-las tocar. Palavra que vire toque. Tentar tocá-las sem desafinar. Ouvir-lhe a melodia. Uma por dia...
 
Então, encontrando-me em meio desse mundo de palavras, fiz o sorteio de uma, ao acaso. Uma palavra para o dia. Uma palavra para expressar algo que ultrapasse a agonia dos dias recentes. SUAVIDADE foi a sorteada. Sorte apreciada. O dia transcorreu suave como suave estava o gosto dos pastéis de Belém, saboreados sem pressa no Doce Fado.
 
Começo do dia.

Não lembro o que sonhei. O que já é uma vantagem. Sei que chorei no sonho porque o travesseiro estava úmido. Mas como devo experimentar novas emoções, posso considerar um choro de alegria, o choro por alguma coisa genuína, algo que de tão bom,  fez-se molhado, mas não quis ser lembrado, pra não ser maculado de expectativas.
 
Acordei tarde. O café da manhã foi servido tarde. E já era tarde quando resolvi bater pernas pela cidade. Um banho, e os cabelos soltos ao vento. Não deu tempo de saber como você os preferiria: soltos e rebeldes, ou lisos e comportados. Eu escolhi soltos e rebeldes, e cada fio vibrou de alegria pela liberdade de sacudir-se ao carinho do vento, acrescendo ao meu rosto uma rebeldia delicada, um ar de expectativas, porém, controladas.
 
A curiosidade reside nos olhos que avisto. Deixei que meus olhos sorrissem um pouco, dar-lhes um tempo, cansa ser olhos de lamento, ardem  de tanto  tormento, dei-lhes folga, saí pra ver o mundo em recreio, e creio que fiz bem. Meus olhos à tempos não se sentiam tão bem. Zanzei sem compromisso. Deixei o relógio em casa. Não fazia diferença nenhuma as horas, de vez em quando é bom não marcar o tempo que insiste em tiquetaquear que não sou sua.
 
Pelas ruas da cidade um sossego raro. Todos nos litorais. Restam os contidos, os recolhidos, os tímidos, os introvertidos, meus preferidos, que na pausa não falam, sussurram sem pressa, como se o mundo lhes fosse de uma calma secreta, uma confraria de prazeres discretos. Nada contra os baderneiros e seus pandeiros na cadência do samba, mas bamba é esse silêncio bonito, nada de atrito, o acesso é restrito, há que se ter um coração aflito pra se aliviar enquanto os alegres saem pra viajar. É um alívio. Os gatos saem e os ratos fazem a festa.
 
Voltei já era noite feita. Um calor quase carinho. Uma brisa suave, e um chá geladinho de gengibre, tudo aberto, tudo livre, a noite também quer ver o desfile da suavidade passar.
 
No meio desse devaneio suave, agradeci as felicidades. Tenho tanta coisa pra agradecer, e não se trata de esquecer, mas só fiz me aborrecer nesta falta de você,  entristecer faz a gente desconsiderar o que há de bom. Inclusive na perda. Inclusive na rejeição. Inclusive experimentando o chão.
 
Reconhecer. Enquanto zanzava pelas ruas da cidade pude refletir sobre mim. Sobre essa nova que surgiu em mim. Que você trouxe. Pelas mãos. Já te agradeci por isso. Nos relatos enviados quando você se refugiava nas suas montanhas. Lembrei do que escrevi. E não menti em nenhuma palavra. Você me acresceu. Minha ideia de vida cresceu. Meus pontos de vista. As emoções. Talvez se justifique essa resistência em te esquecer justamente porque o melhor que a tempos em mim não via, tenha vindo através de você, e foi tão bom, tão vibrante, tão delirante me ver nos seus olhos refletida como a mais bonita, a mais querida, como não lamentar perder um sol desse tamanho, um sol que me acendia e deixava minha pele em chamas, enquanto por dentro a alma era só  dança,  alma que canta, a alma não se reconhecia tão cheia de encanto e o pranto, de quando acaba, é o mínimo porque literalmente tudo vem ao chão. Corpo, coração, mente, e a alma, ah, a alma!, foi um baque, ela ainda não aceita, segue contrariada, tão boba, se sentiu amada, e agora somos eu, meu coração e minha mente tentando fazer com que  ela, a alma, volte a ser uma menina animada.
 
Alma minha. Suave na nave. Um dia de cada de vez. Uma palavra por dia. Os olhos haverão de enxergar novas alegrias pra te fazer consolar, devagar, até que chegue um dia em que não mais haverás de chorar. Ganhamos de presente todas as palavras. Farei todo o possível pra escolher as mais delicadas, aguenta minha alma, se não nos é possível esquecer,  pelo menos vamos desanuviar a tristeza, vamos nos lembrar da beleza que tanto nos encantou, quem sabe um belo dia, haveremos de acordar refletidas dentro de nós mesmas, bonitas, eu você o coração a mente, tudo junto, quem sabe até o moço chega junto, e a tristeza resolve passar. Um dia ela vai passar, um dia ela vai passar.
 
 
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