quinta-feira, 3 de março de 2016

16:06

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Fico pensando se essas fossem as minhas últimas palavras aqui escritas. O que seria mais importante dizer. Ainda. Vida que finda. Ou inicia. Reinicia. Começa. Atravessa a exclusiva palavra 'fresta'.
 
Amontoado de nada por nada eu fui me salvando como podia da insistente agonia que nos permeia, nos rodeia, à uns, sem quase incômodo aparente, à outros, sublimadas com efêmeras emoções, aquisições, tanta gente no mundo, quanto mundo, meu Deus!, e tem uma tipo de gente feito eu, substância mínima, confusa, imatura, quase infantil...
 
Queria ter sido um monte de coisa na vida. Bailarina, sobretudo. Dançar dia e noite até os pés não suportarem mas ainda estarem prontos sempre, para a apresentação da beleza, da realeza que é tomar o corpo e oferta-lo à uma arte, aos gestos, à delicada inspiração...
 
Queria ter sido cientista, uma astro-física renomada, conhecer os movimentos celestiais, viver dia e noite com os olhos naqueles instrumentos que permitem, que ilusão!, tão somente a observação. O vai e vem do mistério. A noite. A esperança. O menor sinal virar um motivo de comemoração. Queria brincar de espiar as artes de Deus.
 
Queria também ser jornalista. Dessas que viajam o mundo cobrindo os movimentos do mundo, os acontecimentos, passá-los o mais perto do real, informar, levar a verdade à passear, a inundar as mentes, escrever urgente em alguma matéria sensacional, tipo, descobriu-se a cura, houve paz a essa altura, a cultura como assunto principal...
 
Queria ser cozinheira. Queria ser aventureira. Queria ser costureira. Queria ser essas enfermeiras que dão o primeiro banho nos bebês no hospital. Queria saber tirar a dor. De dentro das pessoas. De fora das pessoas. Com as minhas mãos. Com as minhas palavras. Que fosse com os meus ouvidos. Queria ser atriz. Viver num palco. Mudar toda hora de ato, de hiato em hiato, viver e morrer tantas vezes que não temesse mais nada que não fosse o chão.
 
O frio. O chão. Queria ter sido um monte de coisa. E ainda mais. Queria ter sido mais doce, mais compreensiva, muito muito muito mais amiga, ter sido divertida, sobremaneira queria ter sido atrevida  o suficiente para ter uma coisa contente por dia, pra guardar num baú de lindezas, ah como eu queria!, ter dado mais alegria, ter vibrado de euforia a cada nascer do dia,
 
A gente pensa nisso, sim, em quantas vezes o sol nasceu nesses tempo de vida, e no quão poucas foram as vezes em que acordou para ver. Ao lado. De. Correr. Como eu queria ter corrido. Vivido de doer. Fazer o pulso sentir-se querido não por pouco, sobreviver é poço, fundo, queria ter abraçado todo mundo antes de sentir parte de um fim.
 
Assim. Dream. Descobrir. O que. O que. Quando. Como.
 
Um amontoado de nada eu escrevi aqui. Um amontoado de nada eu tentei fazer existir. Mas nunca, nunca, nenhum dia eu deixei de sorrir. Poderei dizer às estrelas, às esferas, às partículas que eu sorri sim, todo santo dia, pelo menos uma vez por dia, eu fiz um carinho no dia, e sorri.
 
Não fazer sentido é um prazer, meu caro!
Espero que descubra isso, e consiga, exatamente por isso, um motivo pra sorrir.
 
 
[a foto do taxi não é pra fazer sentido, é só que eu gostei. E vou]
 
 
 
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Um comentário:

Be Lins disse...

poderia traduzir pra mim.
e-mail.