domingo, 20 de março de 2016

16:06


.

 
De repente fiquei tímida:
 
não sei o que fazer com a pena.
não sei o que fazer com as tintas.
não sei o que fazer com os livros.
não sei o que fazer com as rimas.
não sei o que fazer com as linhas.
 
tecer
tecer
tecer
um fio é puxado.
Um fio inicial.
 
Chamado vida.
Que vem de onde, o fio original,
o tal que a tudo integra, grande trama
Universo de vidas e
energias.
 
Tecer.
Um fio. outro fio. amarra. dá o nó.
ou um laço. tem que ser bem dado.
nem muito fraco, nem apertado demais.
o próximo fio. passa, amarra, dá um nó,
ou outro laço, nem muito, nem pouco,
 
senão escapa o ponto, tem que voltar,
recomeçar, desmanchar anteriores
pra não ficar um bordado esquisito
tem que ficar bonito de olhar.
 
mais um fio. mais um nó. outro laço.
vai crescendo. formando um desenho.
tomando forma. já não é uma colcha.
nem um tapete. vai virando manto.
que aquece a vida.
 
fio por fio. uma vida composta de
nós, laços, apertos, presentes ligados
laçados, bem dados, recomeçados,
desmanchados, desejados, caprichados
e já é mais que um manto,
 
já é um mar inteiro, um pedaço de céu
tem estrelas, tem nuvens, tem tantas formas
coração, dragão, pétala, gotas, uma flecha,
tudo mira na trama, nos nós, nos fios,
 
Um nome para o fio: VIDA
Um nome para o nó: PAIXÃO
Um nome para o laço: AMOR
 
 
Feito digitais. Nunca iguais. Tramas amarram-se em outras tramas, feito a vida, esbarrando em outras vidas, emaranhando-se todas, um bolo, uma confusão, bom de olhar, hora não, abre a janela, tem que ter luz, e provocar a expectativa, a vida de cada um, querendo se juntar a vida de outro algum, o que nos faz próximos de uns, enquanto outros nos passam comuns, aos olhos, fios coincidentes,
_ por aqui quero me enrolar,
 
lá vem a vida, cheia de paixão, querendo bordar amor no coração de um, e de outro. Sucessivamente. Numa ciranda de sim e não. Pontos que se dão. Pontos que não. Fios de algodão. Tão macio ao toque. Embrenhar-se na trama do outro a ponto de virar uma trama só e gostar de ficar. E querer ali estar. E querer dali, continuar...
 
 
[aprendi com minha avó a bordar tapetes. Em um ponto chamado Arraiolo. Para tanto se faz necessário uma tela de bordar,  cheia de buracos vazios, onde se farão os pontos com lã. Lãs de todas as cores. Uma agulha grossa. E uma tesoura. E uma ideia de desenho. Talvez um rascunho riscado sobre a tela na intenção do que se imagina para o tapete. Você escolhe dizia vovó, que sempre preferia bordar à mão livre, formando na intuição do saber-fazer a beleza do resultado. Devo ter herdado dela a rebeldia, a indisciplina, a resistência em aceitar um plano traçado. Faz tempo que não bordo um tapete novo. O último adorna uma parede lateral pequena que tenho aqui. Gosto de olhar pra ele. É abstrato de forma e cor, embora perceba-se nele um padrão, uma simetria despretensiosa que se deseja agradável, apenas e essencialmente aos olhos de quem fez. Eu no caso. Sorrio pro tapete. Ele tem um pouco de mim. Demora pra fazer. Devo ter estado na companhia dos fios, dos pontos, por meses. E hoje ele é um dos muitos pontos de quem sou. De quem vou sendo.]
 
 
Ser é isso, pra mim. Se tecer. um ponto a cada minuto. Às vezes, precisando ser refeito. Às vezes percorrendo rápido a tela que é o dia. Às vezes, esquecido num canto de expectativas. Um tapete que pode virar um manto, não obstante, tem até pranto, não se pode negar, um dedo furado, uns calos por onde o ponto resolve dar nó. E sempre o fio. A atenção. O cuidado. O apuro. O respeito ao tempo. E aquele gosto aprazível de em certo ponto perceber que tá indo, já não é só uma tela vazia, já dá pra ver o formato, já dá até pra sentir prazer por ser aquilo que se tece, ponto por ponto, alternando dor, alegria, esforço, beleza, carinho, cansaço, nós delicados, paixões, laços bem dados, no AMOR.
 
 
[licença solicitada para TECER sem rascunho.]
 
 
*

Nenhum comentário: