quinta-feira, 24 de março de 2016

16:41



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Uma coisa é inegavelmente fato ----------------->
A VIDA SEGUE.


E é um espanto. Um soco na boca do estômago a cada olhar. A cada constatar que sim, ela segue. Você pode espernear. Você pode gritar. Você pode se acabar de chorar. A vida. Ela segue. E tem gente que fica pra trás. Azar. Chora, bebê!
 
Pode chorar. E resolvi chorar. Chorar toda a vida que seguiu sem que eu notasse. Devo ter parado ainda antes da colisão da partícula do meu pai com a partícula da minha mãe. Imagino um grande jardim, cheio de Lisyanthus, aquelas flores que têm todos os tons de rosa, passam pelo branco e terminam nos roxos, rosa, lilás, tantos tons, tanto perfume, parece tão bom na lembrança descabida, mas a proposta, tão atrevida, um anjo malvado pergunta, _ quem quer dar um pulinho por aí, fazer parte da vida de algum planeta, não especificou nada, Vênus, Marte, Terra, vagas abertas, e no atrevimento ergo as mãos pensando frente ao novo e a emoção.
 
Fui escolhida pra vida. Na Terra. Mas quando fui pra salinha escura da espera, um arrepio percorreu todo meu ser não-etéreo, e eu tenho certeza que eu quis voltar. Eu pedi pra sair. Eu desisti. Eu pedi. Me deixa aqui. Foi engano. Coisa de criança. Por favor! Pro favor! Já dá pra sentir aqui a dor que é esse negócio de existir. Por favor! Pro favor! Não tinha ninguém ali. A solidão. A vinda. Eu queria voltar. Mas não havia volta. Eu estava ali, na boca do existir. E pensei no recente dom da consciência:
_ que cagada! que cagada! que cagada!
 
[minha mãe sempre conta. Teve que ficar os nove meses da minha gravidez de repouso. Já havia perdido dois bebês antes de mim. Penso que foi sorte deles. Eu também quase não vinguei. Ela quase me perdeu umas tantas vezes. Hoje, sentindo essa dor remota, ancestral, penso que eu não queria. Eu já tinha desistido antes da colisão. Mas nada volta. Nem uma decisão. E aí eu vim, uma bebê cor-de-rosa que não chorou, tamanha tristeza. Não havia como voltar atrás. Estava feito. Ficar. Mamãe conta que eu era o bebê mais quieto do mundo. Não chorava. Não mamava. Ela tinha que forçar. Vomitar. Vomitava a não possibilidade de desistir. Vinguei. E não gostei.]
 
 
As lembranças me doem. Viver não compensa o gasto. Não existe querer. Existe a corrida dos dias, onde nada fica, só a vida que segue, sem que nada se possa fazer, ajeitar, remexer pra lembrar aquele jardim de flores de tons de rosa,
 
AMO tanto as flores, cor de rosa, lilás, brancas, nem precisa perfume, a cor inunda os sentidos, bom de tocar, bom de cheirar, bom de ver, bom de escutar, bom de tocar de novo, bom de lembrar, de intuir... naquele jardim sim, havia o livre acontecer, tão leve lembrar outrora vividos, nunca esquecidos, lembrar nem é o nome, lembrar...
 
NÃO esta coisa terrena, extrema de dor, de coisas feias, de vida que segue, queria vomitar todas as experiências, nada valeu a pena, nada que eu queira voltar, aqui não é o lugar, aqui é a cilada do tempo, da vida piada sem graça  AQUI A VIDA SÓ SEGUE
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pra lugar nenhum.
Vez ou outra há um vislumbre de jardim. Algo que parece. Olhos de assim. Assim. Eu não quero estar aqui. Eu cansei daqui. Eu cansei daí. Eu cansei antes de vir. Eu não queria vir. Eu não queria vir.
 
Saudade. Palavra sem explicação. A gente pensa que sente saudade do vivido aqui. Mas não é não. Aprendida lição. A saudade é de outro lugar. Outro ar. Outro tempo. Espaço sem corpo. Almas livres. Nada a provar. Nada a conquistar. Nada a sentir . O lixo da paixão. O castigo de optar e vir. Renegar o jardim. O pecado do atrevimento. Tudo trocado por NADA.
 
NADA
ESTE É O NOME DO JOGO ----------------->
VIDA QUE SEGUE
 
E só faz magoar. Decepcionar. Magoar. Pisotear. Te provar o minúsculo, o mínimo, a insignificância da sua vaidade. O nome da condição. Sobrevivência. Sofrência.
 
VAIDADE.
Quem nunca, que seja hipócrita, e atire a primeira pedra.
Tudo é vaidade. A raiz de todo mal. O nome da rosa. A vida que segue. VAIDADES. Flores sem cor, murchas de dor, é tudo vaidade, sinônimos de dor. Tudo ORDINÁRIO. Tudo comum. É o que temos em comum. Todos. Não pense em exceção. VAIDADE.
 
A vaidade das mães. A vaidade dos filhos. A vaidade dos idealistas. A vaidade dos artistas. Dos poetas, dos velhos, das crianças, das fianças, das confianças, da esperança, vaidade do adormecer, do meter, do foder, de cada amanhecer, vaidade em dar, vaidade amar, vaidade levantar, vaidade até em cair, vaidade em cada sorriso, o nome do gesto, o nome do gosto, o nome da vida VAIDADE.
 
VAIDADE É VIDA QUE SEGUE -------------->
 
 
Tudo é só vaidade.
O preço a se pagar. Querer vir pra este lugar terrível, triste , onde o único gesto que fala é o chorar.
 
se bem que até chorar, é VAIDADE.
 
 
Vai lá.
No que você  faz é muito bem.
Se fosse eu, corria daqui também.
 
[o nome da licença hoje é foda-se, tô triste demais pra ter que pedir licença pra chorar até dentro da   minha própria casa]
 
 
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