domingo, 13 de março de 2016

19:34


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Todo momento quer ser único.
Imagino que seja difícil para o tempo também.
Imaginar-se o próximo minuto, a próxima hora,

a próxima data, o dia seguinte,
estar à beira de entrar no jogo da vida daquela pessoa,
com a vontade imensa de se fazer marcar.

Talvez o tempo nos ame.
Talvez a gente se ame. A gente mesmo, quero dizer.
Talvez a vida seja amiga. Talvez a circunstância também seja.
Em incógnitas reveladas nos futuros.
Talvez tudo anseie o prazer de ser favorável,
embora nem sempre seja viável.


[Lembro tanto dessa frase que vi num filme uma vez:
_ Até um tijolo quer ser mais que um tijolo. Ele quer ser

 parte da casa, do sonho, do abrigo de alguém.]


Nestas noites que se iniciam estranhas aos Domingos, imagino nostalgias. Não do que houve. Mas do que poderia ter sido. Ao meu lado, sinto as horas que não foram, as circunstancias que não favoreceram, sinto as partículas que não se concretizaram tão nostálgicas quanto eu.
Tudo queria ser mais. Ser melhor. Ser parte. Ser arte.
 
Embora em se tratando de arte, vejo arte por toda parte.
 
 
 
Lembro de uma ocasião pequena. Fazia escola de arte num museu aqui da cidade. Primeiro semestre. Acanhada, queria me expressar de alguma forma e mesmo tendo a certeza do não-talento fui aceita no curso. Ao final do semestre, a professora nos chamou para um exercício que revelaria os que poderiam participar de uma exposição. Levou-nos até o jardim nos fundos do museu, e mandou que a gente observasse as folhas. Os seus movimentos, as suas cores, suas formas, para em seguida nos colocar na sala dos cavaletes para, todos ao mesmo tempo pintarmos, ou tentarmos pintar a nossa interpretação de FOLHAS.
Não era boa em formas. Fazia os exercícios propostos pela mestra sempre com muita dificuldade por não conseguir traduzir a realidade e escapar sempre para a abstração do objeto proposto. Ela gostava disso, mas me cobrava disciplina nas tentativas. No dia da prova, nada de concreto me ocorria. Então resolvi apenas deixar fluir. Ultrapassar a rigidez da forma exata e pintar alguma coisa que falasse de folhas. Nos primeiros traços, nos segundos, apreensão, coragem, intercalados, verdes agressivos, até que resolvi usar vermelhos, e amarelos, e nesta hora a professora direcionou sua banqueta alta em minha direção. Senti interesse. Mas na mesma hora, dois cavaletes vizinhos onde faziam suas artes duas senhoras de fino traço e que reproduziam detalhadamente e com perfeição arvores e folhas mais reais que as reais, ouvi delas o comentário que não se fez discreto: _ as pessoas deveriam ter mais senso critico.
PQP! Travei na hora. Senti o ridículo do meu borrão agressivo, larguei o pincel, abaixei a cabeça e já seguia no movimento de fechar meu material quando a professora chamou o meu nome para ir logo mais à frente, perto das janelas imensas de vidro de onde se podia ver o jardim. Ela disse: "Nem pense em fechar seu material e partir. Olhe a pintura daquelas pessoas, está vendo, agora olhe para as folhas destas árvores, iguais, e eu quero a novidade. Estou vendo técnica. Quando olhei seu trabalho, me surpreendi pela primeira vez neste dia, eu não estava vendo um fotografia, estava vendo a POESIA das folhas do seu jardim. Agora volte e termine."
 
Foi um grande momento.  Nostalgia daquele dia e do dia em que estava lá, olhando a pintura fria e esquisita que fiz, exposta junto à tantos trabalhos interessantes daqueles alunos da escola de arte que queriam, como o tempo, como os tijolos, como as horas, como as pessoas, todas,
ser alguma coisa mais do que o comum.
 
 
 
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