segunda-feira, 18 de abril de 2016

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Me exibi pra paixão. E acabei marcada pela dor. Aí era uma vez. Decidi escrever. Convidei a dor pra entrar, e tirei  dela substância, ainda que parca, para me escrever. Escrevi de mim para mim. E me descobri.  Peguei gosto e segui. Letra por letra me atrevi. Escrevi sobre a dor e suas dobraduras porque aos meus olhos elas me pareciam bonitas... (Ah, olhos meus!, gosto estranho o teu) . Olhos que veem e mãos escrevendo.  Escrevi sobre a dor e suas pétalas caídas. Vi poesia. Vi beleza. Vi o lado escuro aceso.  Escrevi sobre a dor líquida, ouvi seu choro, chorei junto à ela, e deixei a  dor febril dos dias dos descobrimentos arder e queimar e me levar ao grande pequeno espetáculo do sentir. Escrevi sobre as avenidas da dor. E por elas transitei. Me perdi. Me encontrei. E depois afundei sem quase voltar.  Escrevi  sobre a loucura.  Porque dor é uma loucura em graduações. Amplifiquei seus sons. Equalizei seus tons. Aderi ao bloco. E cantei enquanto dançava com a dor seus passos descompassados de uma dança insana de rodopios e meias pontas. Alucinei. Porque é o que a dor e as paixões fazem. Alucinam. E nos visitam sorrateiras, uma tão ligeira, enquanto a outra perpetua-nos em ais. Vi poesia nas chegadas. Vi cenas que queriam partir. E rimei alhos com bugalhos porque escrever quebra um galho danado. Passa-se atestado de insanidade mas nos mantém, porém.   Espiei sua rima estranha com o amor. E me atrevi mais. Fui além. Passei quadras. Errei a mão mil vezes mil, e conheci seu lado vil.  Não me poupei, queria essa beleza estranha da dor. Porque eu a vi. A conheci. Virei íntima da dor pra poder chamá-la de amiga. Amei cada pedaço de dor abstrata que vivi. E criei. E chorei. E parti. Parti a louca dor em pedaços, e depois eu mesmo colei seus cacos. Chamei a dor de loucura por tanto insistir. Excessiva.  Fui. Fomos. Somos. Louca pra escrever toda a dor. Escrevi tentando captar sua extra sonoridade. Ora, vazia, ora odiada, ora caminha, ora me escapa, a reconheço por todos os meus passos, e sobre a dor escrevi pra alcançar seu pico. E nele pulei. E dele caí. Me feri e me curei. Gritei e me calei. Fuji e chorei. Fui e voltei. Morri sem morrer. Amei e me enganei. Nas palavras mergulhei sem saber nadar suas letras. Mas foi tudo pela dor. Muitas, causei. Certamente. Causei e virei as costas como carrasca que também sabe instrumentar. Machuquei as letras. Mas respirei e segui. E cantei pra subir. Com a dor. De correr os riscos. A dor de arcar com os prejuízos. A dor que faz perder o juízo, e ainda sim, ficar. Algo como um pecado original. A dor é raiz. Do primeiro segundo. A dor dos átomos. A sina que precipita-se a cada colisão, que repete-se infinita, se exceção. E, então, acordei um dia e,  eis que surge uma flor, e depois um jardim. Semeado de dor. Um mundo de flor por nascer, ou renascer. O inverso possível. A experiência é incrível, mas a gente só descobre depois.
 
 
 
Novas horas.
Algum Repouso.
Hora de mudar.
 
De assunto.
 
 
 
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