sábado, 25 de junho de 2016

19:44

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Coisa mais estranha essa coisa de escrever. Sentar num fim de tarde frio em frente a tela de um computador e fazer das mãos, ponte entre pensamentos e registro. Sem finalidade. Sem utilidade. E sujeito à riscos.
 
Tempos estranhos pra escrever. Ou todos os tempos sempre foram estranhos. Tanto quanto é o ato de registrar pensamentos.
 
Faz-se necessário em qualquer tempo dizer que toda a escrita é absolutamente PESSOAL. Ainda que não. Sempre. Somos personagens nesse mundo onde "o palco quase sempre está repleto de cacos de vidro."
 
Viver dói que é a porra. Dói ardido. Dói pra cacete. Mesmo quando estamos representando tão bem o papel a ponto de não nos darmos conta. Dói por dentro a vida que não existe fora. E dói por fora os cacos que ferem nossos pés de tantos passos.
 
Somos passos limitados. Não há querer que baste. Além dos cacos, usamos correntes. Que nos prendem ao transcorrer da história, e nesta história dificilmente temos o papel dos sonhos.
 
Meu papel preferido nunca será meu. Embora nem de papel se trate. Sou da coxia. Bastidores. Aquela turma transparente que cuida do som, dos figurinos, dos cenários, da limpeza, das cortinas, e que no fim do espetáculo volta pra casa contando trocados. Aff!
 
Quanto drama pra contracenar. Assisto daqui dos fundos o vai e vem das falas de tantos personagens que assisti nas sombras, suas representações, suas elegâncias, suas comicidades, seus excessos, suas gafes, e penso nos meus personagens favoritos, aqueles com quem sonhei dividir o palco, sem cacos, uma cena externa talvez, uma fantasia de uma hora de duração.
 
Quando fecho os olhos, nas noites que estão frias de alegria e penso em mim mesma, fantasio, crio, dentro da cabeça da gente somos a direção. Ou não. Não consigo mais companhia pra passar os textos que imaginei.
 
É tanto silêncio. A plateia está vazia. O teatro está no escuro. O palco deve ser varrido para os cacos de outro dia. Observo como é alto o pé direito de um teatro. É um céu sem escalas. Resta a luz das laterais das escadas. Parece que as estrelas caíram no chão. Apesar do frio não resisto e deito no chão do palco. Todos esses casacos amortecem o contato com os cacos do tablado.
 
Tento de todas as formas sorrir. Tento a esperança dos sorrisos. Lembro do exercício dos atores em frente ao espelho, caras ensaiadas para cada fala. Tão natural viver pra alguns... Respiro o ar gélido desta catedral e alternando o ritmo do meu próprio respirar, consigo me ver, só a mim, muito distante dali, no meu único papel,
 
desprovida de todos esses malditos casacos, sinto um calor na pele que não mais, meus cabelos esvoaçam com o vento, e é tão imenso aquele movimento dos meus cabelos, noto meus braços, meus passos, o silêncio cede espaço aos sons que me acalmam, o barulho do mar, chua chua chua, caminho interminavelmente em direção ao mar que está à minha frente, mas, nunca chego, nunca chego, posso sentir a maresia, sentir o perfume das águas salgadas, embora saiba que este sal é meu, escorre pelos olhos que não vêem senão o deserto de todos os tempos, um deserto sem miragem, embora haja sol, e ecos, meus. De tempos que não existiram. E nunca haverão de. Nunca foi verão. Nunca serei eu. Sempre serão os outros. E cada grão desta areia me cobra a passagem. Porque ardem sob os meus pés descalços, de onde me vejo novamente no palco, tirando os casacos, as meias, o sapato, tenho por baixo sempre um vestido branco, para a personagem que nunca serei, só tem rei e rainhas nesse palco vida onde não me acho.
 
INSTANTE REAL
 
Ao meu lado, o gato se aloja por baixo da manta. Como se aprendem coisas convivendo com um gato. Sua reserva, seu distanciamento, seu ir e vir livre de apegos, sua altivez, sua sensatez em se preservar, e sua agilidade em se mover. Mas creio que estou influenciando negativamente a altivez do meu bichano. Ele anda de chamego. Eu que penso. Pois  é só o frio mesmo.
 
OS GATOS, suas lições
 
Preciso aprender a calar. Preciso aprender a me colocar. Preciso aprender a me preservar. E preciso aprender a rezar. Porque tenho um pedido urgente aos céus:
Ajuda-me a não sentir, ajuda-me a sair das fantasias criadas, ajuda-me a esquecer, ajuda-me a resignar, ajuda-me A não doer, ajuda-me a entender que não é meu aquele papel. Ajuda-me a encasquetar que não nasci pra bem representar, nasci pra olhar, dos fundo, o movimento do mar. Do mar.
 
 
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