domingo, 31 de janeiro de 2016

00:00

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se eu soubesse o quanto
isso ia doer
teria construído um muro
intransponível
inacessível
teria me feito
invisível,
 
 
razão estranha
essa vida
tudo de ruim se repete
 
só as coisas bonitas,
 estas,
NUNCA ACONTECEM.
 
 
 
*

20:00

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Dez horas da manhã. A cama não mais convida. Levanto com  espanto, como todo dia. Passo pelo espelho grande, olho meu reflexo, e é nesta única hora do dia que me acredito bonita. Acordo com jeito de menina. Cabelos bagunçados, olhos apertados, um ar de surpresa que não se explica, meu corpo parece até um convite sob a camisola de malha preta. Todo dia passo por esse espelho. E todo dia diante dele paro e penso: Ele me acharia bonita pela manhã. Daí a beleza se arrasta pelo resto do dia inconsolável, vai se perdendo no eco de um não, até se confirmar desfeita.
 
Silêncio de um dia de Domingo. A casa quieta. Dormiram todas as janelas abertas. Tem sol, tem nuvem, tem calor, tem aqueles raios de claridade que deixam a casa com outra cor. Cor de qualquer coisa bonita. Um cor que você acredita. Vou até a varanda. Preguiça de acordar pro fato. Preguiça de voltar a dormir. Preguiça de carregar essa sensação. Mal acordei e já me dói o coração. Arrasto meus pés descalços até a cozinha. Ladrilha fria.
 
Laranja, mamão, tangerina, umas fatias de pera, outras de maçã, numa tigela de vidro amarela. Na boca um leve frescor. Penso num beijo matinal. Um beijo de malemolência, não desprovido de ardência, e aquela urgência que parecia que, na minha mente, seria tal e só faria-se aumentar. Espanto o pensamento. Vai virar lamento e ainda é cedo pra tal.
 
Sento no banco forrado de almofadas floridas. A velha árvore do jardim faz a sombra que se alonga sobre o dia. Sinto pena da árvore. Deve ser dureza ser árvore. Anos e anos ali, no mesmo lugar. Presa pela raiz que se cortada, não lhe resta nada. Suas folhas se soltam e voam, seus galhos caem e se transformam, os ninhos dos passarinhos comemoram novos pássaros, saem todos em revoada, e só a árvore resta ali. Dou um sorriso amarelo para a velha amiga árvore. Te entendo, cara amiga! Não vou te deixar sozinha. Confia. Lembro de como me disse isso aquele lindo alguém: confia! Confiei. Sigo confiando como esta árvore que deve crer-se livre por não haver outro fim.
 
A noite foi confusa. Houve pedras na janela. Os vidros não quebram porque deixo abertas as janelas. Por prudência, no entanto, deixo a cama longe. Por saber da existência dos jogadores. De pedras. Vez ou outra, quando cochilo, finjo no sonho que são flores, recados de amor, bolhas de sabão,  mas quando as pedras são jogadas com não poupada violência, eu acordo com o barulho, me assusto como se fossem alguma novidade, avisos maldosos, defeituosos gestos que nesta noite com mais uma pedra quebraram um vidro de perfume lindo . Atingiu a penteadeira que foi da minha vó. O vidro caiu no chão e o perfume suave se espalhou. Um segundo antes eu sonhava com flores. Deve ter sido o perfume. Juntei os cacos na hora, pra não correr o risco de pisar sobre eles. Não acendo a luz nunca. E também não olho. Deve ser oque querem, que eu bote o rosto na janela, e a pedra me acerte em cheio. Receio que um dia aconteça.
 
Os jogadores de pedra não se cansam. Penso se existiria algum lugar no mundo onde eu pudesse estar fora do seu alcance. Fico buscando entender. Mas nenhuma coisa faz sentido. Repetidas são as pedras e seu som agressivo, incômodo, insano, pedras jogando pedras no caminho. Assusta no início, mas acostuma-se à tudo na vida.
 
 
Podiam ser apenas flores. Penso num motivo pra não serem flores. Penso no mal que possa ter feito. Refeito. Bem feito. É tão estreito esse ínfimo portal, sei que existe, mas ele insiste em se fazer visto mas impenetrável. O imponderável ronda.
 
Já falei que não tenho medo de fantasmas. Nem de nada. Mas ando cansada. Cansada de tantas charadas, cansada de sentir tudo sozinha, enquanto, _ lembrei de uma pedra!, a melhor amiga, enigma, os jogadores de pedra realmente acham que alguma coisa será capaz de me chocar...
 
Podemos bater outra aposta. Aumentar o lance. Quebrar a banca. Outro desafio. Enquanto não se rompem todos os fios, haverá cacife...
_A única coisa que iria me espantar, sobretudo e sobremaneira, seria a existência do amor.
 
E aí, rola a aposta ( interrogação)
_ eu aposto que não!
 
 
*

sábado, 30 de janeiro de 2016

16:36

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Porquê é tipo beber o morto. Você tem que mergulhar no todo que se foi, escarafunchar, lembrar, lembrar, lembrar, como se fosse a derradeira tentativa de trazê-lo à vida de novo. Você não quer olhar a partida. Você não quer sentir esse cheiro de flores mal colhidas. Você quer retardar o fato. Ao máximo. Bebe-se ao morto como se ele ainda estivesse presente, restos mortais que irão se deteriorar no ausente passar das tuas horas, mas você ignora, você quer reter o tempo, você quer matar o tempo, você garra ódio do tempo, sempre o tempo, que passa, e mata nossas melhores horas.
 
O que você passa com alguém é dos dois. Mas quando acaba, cada um bebe a sua parte. Aos meus restos não coube bebidas. Fui largada sem delongas em alguma vala fria. Aos seus, ainda não me dei conta sequer de que morreu. Segue vivo e virou meu. Cada qual com sua parte. O que eu te dei, você esqueceu. Problema seu. O que você me deu é meu,  e destas memórias eu construo mais e mais histórias, eu concedo o dom da vitória à verdade, o tabuleiro é sempre pra dois, do meu lado da história éramos vivos, tuas juras eram flores da manhã,  ainda que depois tenham sido escarnadas, ainda que confirmadas como vãs, não são mais suas as tuas falas, são minhas, saíram do seu território mal juradas, chegaram pelas mãos de um vento bravo, e foram recebidas como só as palavras mais queridas merecem ser.
 
Hora errada. Outras muradas. Impedimentos. Constrangimentos. Erros meus. Exageros meus. As suas falhas justificadas por ser a hora errada. Que patacada. A hora pode ser soberana, mas há uma coisa que a engana com exatidão: a paixão. Nada a contém. Nada nem ninguém. Não há força mais intensa. Nem tente, se convença. Quando a razão vence, não era paixão. Então, não venha com essa de hora incerta não, arrume seu mundinho e dê as suas mãos ao que te interessa.
 
Quanto à mim, estou sem pressa de beber o morto, embora, entre calafrios,  já possa sentir que rompem-se os últimos fios. De realidade. Que nos ligava. Vai virando tudo fantasia. Teu rosto. O tom da sua voz. Falamos pouco por voz. Seu recado chegou. Outra. Real. Que legal! Boa sorte! que os ventos  do norte sejam suaves na sua reconstrução.
 
Os ventos do sul são intensos. Por onde passam, mais que beleza, causam impacto. Perturbei sua paz. Mas você a refaz. Nem canto mais a sua canção. Não é minha. Nunca fui de me apoderar do que não me pertence. Só não me venha solicitar o silêncio aqui, onde bebo a morte de uma ilusão perfeita, que será refeita todos os dias,  até eu desistir.
 
Tenha fé. Tudo é possível. Até eu recobrar meu respeito. Por mim mesma. E resolva fechar finalmente este portal. Mas não agora, há de ser em outra hora, em que o último fio se rompa, em que a sua felicidade se confirme, e as provas afirmem sua alegria  à mais extrema distância de mim.  A distância. Aquela. Que nos separa. Aquela, que sempre existiu.
 
Li hoje em algum desses cantos que "as pessoas vão te tratar como você se trata". Descubra em você o que busca no outro.
 
Relativizei. Pensei sobre. Depois achei bobo. Depois reconsiderei. Mas aí, cansei. Vou fazer alguma coisa agora. Dar uma volta lá fora. Sei lá. Vou ali. Catar umas penas. Que perdi.
 
 
 
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

15:30

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De algum lugar, todas as crianças que fomos, nos espiam pasmas. A exclamação é quase invariável: _ mas não é nada disso que eu imaginei pra você, mano!
 
Parei uns minutos pra fumar um cigarro, no portão lateral da loja, e a cena me trouxe pra perto a lógica das crianças. Dois meninos de bicicleta. Uns onze anos. Bonitinhos. Um ia um pouco mais à frente, quando a bicicleta do menino de trás, pára porque caiu a correia. O da frente pára imediatamente ao perceber, larga sua bike no chão, e vai, sem que se faça pedido, arrumar a correia da bicicleta do amigo. Arruma direitinho, comentam que é foda, dão risadas, e saem de novo, em disparada carreira  à este tempinho mágico de alvoradas, ruas livres, pequenos pássaros.
 
 
Observei calada, admirada, me deu tanto amor no coração por aqueles dois guris pedalando pelas calçadas, um orgulho de ter a percepção e a oportunidade de notar que ainda que não, a delicadeza paira, nos gestos invisíveis, os gestos que não atentamos, o  porque,  eu não sei não!
 
Lembrei de mim mesma, menina. Brinquei na rua. Do bairro. Subimos em pé de árvore. Comemos fruta verde. Metemos o dedo em formigueiro. Invadimos galinheiros. Enlouquecemos o doceiro.  Atravessamos tardes e mais tardes inventando mundos só nossos, toda a meninada do bairro, às vezes um se ralava, ou a gente quebrava alguma coisa, todo mundo cooperava, na minha infância, ninguém ficava pra trás também não.
 
Já joguei muita pedra na minha própria Geni por aqui. Atirei pedras em mim, mesmo quando pareceu ser noutro ser. Mas aí, vendo aqueles meninos pelo portão, olhei pra mim mesma e senti que não sou tão mal assim. Não perdi a conexão com a minha criança. Ainda sou dessas que pára na rua se alguém cai, que compra briga de amigo, que dá passagem pra o outro passar, que sorri pra estranho pra que o mundo não parece tão cruel e insano, recebo com alegria, reclamo muito, mais volto, chamo, dou o braço a torcer, concordo em retroceder, divido o que tenho, faço das tripas coração pra que a alegria reine, pra que as festas sejam divertidas, pra que as pessoas adiem partidas, sinto dor mas não economizo sorriso, não choro pitangas, e quando choro, rio da minhas próprias feridas, amo fazer pessoas se sentirem queridas,
 
me esculhambo a mim mesma para que a pessoa que tá no chão, não se sinta sozinha na aspereza do chão, garro na mão, não largo,  sento no gelado de qualquer madrugada até o ultima lágrima de um amigo secar, faço bolo, mando pros vizinhos, compro doce pra criança que chora no mercado, abraço todo mundo, apertado, deixo povo encabulado, dou atenção, olho nos olhos, morro de amor, pelo ser humano, mesmo em meio a tanto desengano, tenho dó dos corações que enganam, penso que à eles cabe o pior papel: nos fazer perseguir razões pra apesar de tudo, sorrir. E eu morro de rir.
 
Eu pareço que choro nas palavras. Mas é só nelas. Foda é quando você não tem tempo de se revelar. Deduzimos rápido demais. Classificamos pessoas rápido demais. Desfazemos da sua serventia rápido demais. Queremos mais, sempre.
 
Nos jogos amorosos é um pouco pior. A maneira mais eficaz de chegar ao coração de alguém é não querer esse alguém. Tantos corações meninos e meninas magoados. Todos ali, logo ao lado, olhando a gente se fazer de rogado ao amor. Dureza é que nem quando velhos a gente  aceita, e  deveria saber ,feito lição, decor e salteado:  _ninguém é obrigado! Ninguém é obrigado a retribuir sentimentos à ninguém. É meio difícil pra criança entender isso porque, não é o que a gente aprende pedalando na rua, nem quando chega uma criança nova na turma, quando criança a gente só aprende a gostar. E se rolar uma treta, ainda assim, criança só sossega quando tudo acerta.
 
 
Quando a gente se machuca a gente não machuca só o adulto daqui. A gente fere a criança. A da gente. A do outro. A gente fere fundo mesmo é a criança. Que está logo ali, no lado, consertando a correia da bicicleta do amigo atrapalhado.
 
 
......................................................
 
 
Trabalho. Coisas. Fazer. Seguir. Aceitar. Lembrar de dizer uma coisa engasgada, um p.s. de última hora:
 
 
_ não quero personagens novos, não quero novos capítulos, quero ficar livre dessa ciranda de apostas, estão todas abertas, todas as portas, todas as janelas,  não precisa de nenhuma resposta, apenas botar ficha na aposta que eu desafio:
 
_ Se não for você, não será mais ninguém.
 
Teimosia de menina. A minha menina que me pisca um SIM.
 
 
 
*
 
 
 


terça-feira, 26 de janeiro de 2016

19:48



Num universo paralelo eu estou
dentro de uma canção,
dentro de um avião,
dentro de um coração,
 
que saltita excitação.
 
 
 
*


16:06

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Não é prosa. Também não é poesia. É só um buraco negro no meio de mais uma tarde vazia. Embora o vazio nem exista. O vazio está cheio de substância. A substância que está em todas as coisas, com ou sem concordância. O que é deveras interessante. Existe o vazio. Existe a substância que ocupa todo o vazio. E existem substâncias que se agrupam e escapam do vazio. Formando as coisas. Palpáveis. E as intocáveis. E ainda assim, tudo parece, à todos,  vazio. O que me faz pensar que esse mundo onde vivemos agora além de ser limitado, é habitado por seres incapazes de criar bem com as substâncias que têm . Nós  no caso. Não nós dois, três, quatro, mas todas as criaturas do pedaço.
 
Tem tanta gente no mundo. Carteiros, padeiros, carpinteiros, jardineiros, donas de casa,  artesãs, cortesãs, doutoras, doutores, amadores, pais, mães, filhos, avós, moradores de casas, de calçadas, coisas e mais coisas e mais coisas, a alegria morando junto à agonia, de manter, permanecer, pertencer, crescer na vida, sentir-se acolhida, gente querida, gente sofrida, e toda gente tentando tocar o vazio com as mãos. E criar desenhos no ar.
 
Transformar o intangível em algo possível, ignoram a ronda do destino, fazem, correm, rezam, velam, se descabelam, meio modernos, meio homens das cavernas, bebemos em casernas, comemos em landernas, acendemos arandelas para o mal se afastar, para o bem suplantar a dor, ignorando ainda o mistério, da fusão, que possibilita. Quem se habilita à alguma explicação... cientistas, analistas, artistas, equilibristas, os reis do mundo, os bem nascidos, os mal dormidos, os tranquilos, na madrugada, ou o senhor que dorme logo ali, na outra calçada...
 
 
 
Na substância está a cura e a loucura. Está o amor e o desamor. Está a beleza e a podridão. Está o conforto e a agonia. Os devaneios e as noites frias. Os paralelos que nunca são alcançados. Os peixes içados, os laços dados, os nós desatados, os sonhos sonhados, os enlaces, os impasses, enquanto corremos tateando nossas parcas conquistas, perdemos de vista a confirmação de que tudo é composto de vazios de ilusão, um imenso buraco negro disfarçado de céu.
 
[Devoradores de estrelas]
 
 
 
*

13:50

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havia um tempo em que toda gente cria
que as estrelas estavam ao alcance das mãos:

tempo ido,
meninas e meninos,
tristes por terem crescido.



*

13:38


segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

00:00

(...)
 
 
Nada de prosa, nada de prosa, nada de prosa, nada de costas, se enxuga, resmunga, noite quente, e se fizer de conta que é poesia, tentar manter a linha, levar tudo na rima, será que pode, será que não, é que pra tudo tem exceção, e teve aquela interrogação lida:
 
 
_ quem sempre esteve presente em todas as suas tristezas...
 
 
EU. EU. EU. EU.

[preciso aprender a escrever 'eu' com letra minúscula]
 
 
 
Eu sou a culpada. Eu e minha coleção de nada. Olho o que fiz na vida. O que eu fiz com as pessoas. O que eu acreditei. O crédito que eu me dei sem cacife nenhum pra bancar. Eu delirei. Além de criar todas as fantasias, devorei todas sozinha, não dei espaço à ninguém, insana, não deixei nada pra se revelar, pra sintonizar, talvez, porque o que fosse revelado fosse tão desengonçado, tão mal acabado, nada de prosa mas é final de noite de ficha caída, sem saída, atravessada por essa adaga que eu mesma me cravei, eu não sou nada disso, eu não passo de um falso precipício, uma janelinha de porão, eu sou o chão, rasteiro, de terra, batida, sem viço pra fecundação, eu sou a infertilidade dessa terra em que semente não brota, eu sou quase uma folha morta, levanta, sacode a poeira, esquece que existe em cima, segue embaixo, da média, eu sou uma comédia sem público se achando engraçada, uma piada, a estrada abandonada, eu sou o meio do dia, nem muito pra lá, nem muito pra cá, sempre menos, menos do que se pode imaginar, uma coisa sem importância, a verdadeira e cruel irrelevância, não conhecia a distância que havia entre essa que se metia a se fantasiar de algo raro, quando de caro, nem seus órgãos vitais, desgastados pela repetição de dias e dias sempre todos iguais, eu nunca fui meia-noite, eu nunca fui a grande amante, eu sou mesmo essa farsante que posa de poesia, quando estou na condição de qualquer coisa fria, uma utilidade qualquer, uma pia, uma calçada de pedras quebradas que não dão em nada, uma figura atormentada por uma imaginação tosca, onde nunca a imagem se fará sequer reflexo de ação, eu sou a contramão, a desilusão, a frustração, sou alguma coisa a caminho do lixo, do lixo para algum depósito de lixo, depois fragmento de lixo, depois bactéria, na melhor das ideias viro subpartícula de alguma coisa que possa querer se reiniciar, nas profundezas, nas baixezas dos subprodutos, faz-se uso, sem notar, nunca tinha parado pra pensar que a insignificância me cabia, sob medida, estou vestida com os trapos de uma mendiga, que ao meu lado, ouve  o fim da mesma canção:
 
TÃO SIMPLES ASSIM.
 
 
 
*

23:11



Quando uma canção
te revela no ato:

'você se imagina mais do que
consegue ser'


[FATO]


*

22:44

 



Rudes ruídos
alteraram a rota
de uma doce
FANTASIA.

[quando se perde a sincronia]


*

22:28




Não sou suave
Sou tormenta,

Embora seja sempre o lado da corda
que se arrebenta.


*

20:22


Até as folhas da árvore
bateram asas ao vento.

Restou, silêncio.


*



*

17:04



A distância entre
o sonho e a realidade

usa-se chamar, INSANIDADE



*

17:00

achei


Achei duas palavras  perdidas
atrás da porta:

uma era PERGUNTA
outra, era RESPOSTA


pergunta com resposta.



*





domingo, 24 de janeiro de 2016

22:33

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Foi apenas um sono mais que longo. Um sono onde se passaram três luas grandes, como esta que hoje pende no céu. Uma vermelha. Uma branca. E esta, bem amarela. Estive ausente todos estes meses e ninguém percebeu. Essa sou eu. Invisível criatura. Acordei em frente à mesa onde descansa a caixa de xadrez feita pelo meu vô. As peças estão todas misturadas. Todas em cima do tabuleiro. Pretas e brancas. Como um baile. As peças todas aos pares. Ninguém está à minha frente. Nem ao lado. No cinzeiro, uma ponta de baseado bem enrolado. O isqueiro do meu pai e o cinzeiro que ele roubou de um navio. Souvenier. As flores no vaso estão secas. Mas bonitas. Vou guarda-las dentro de algum livro.
 
Onde eu estava com a cabeça é difícil rever. Anoitecer foi fácil. Escurecer foi dor. Amanhecer tem gosto de nada. Ou de tudo. Ao mesmo tempo. O tempo caiu sobre a minha cabeça, urgente a ser retomado. Por onde começar... Olho o tabuleiro, lembro do vô, sempre obrigando a gente a aceitar as regras do jogo. Dele. E ele não dava moleza. Jogava com firmeza. Nunca deixava a gente ganhar. E com isso, a gente foi perdendo o gosto pelo jogo. Ele pedia, _ vem jogar com vovô, a gente ia, a cabeça até ardia, comia um peão, ele deixava, comia qualquer outra peça e ele deixava, e aí, dava cheque, cheque, até ser o cheque mate.
 
Uma lição ainda resta. "Quando perceber que a derrota é iminente, faça com que seu rei se deite". Ao chão. Sem precipitação. Mas ponha atenção. Lição. Com o tempo, ou não jogávamos mais, ou nossos reis jaziam. Era essa a lição que vovô insistia, tente, mas saiba perder. Encerre o jogo, cumprimente seu adversário, e da próxima vez, não repita, ou repita, até aprender. Com vovô os cumprimentos davam lugar à abraços e doces que ele sempre tinha escondidos em seus bolsos de casacos. Até que não era ruim perder pra ele. A gente saía doce de alguma forma.
 
Mas deu. Vovô morreu faz tempo, e o tempo é outro. Tempo de guardar as peças e viver. Todas limpas e devidamente guardadas. As peças. A sala, no entanto, reclama,  desarrumada. Palavras soltas para todo lado. Pelas estantes, pelas paredes, no chão, nos tapetes, palavras penduradas no lustre, nos quadros, pelas mesas, palavras amassadas, debulhadas, palavras esgotadas. Hora de juntá-las. Começo separando. A palavra VOCÊ. A palavra Eu. As palavras SIM e NÃO. Muita repetição da palavra AMOR, seguida de perto pela palavra DOR. E suas derivações. Cansei da brincadeira. Encho sacos e caixas de palavras, vareio a madrugada até por fim acondicioná-las no quarto das palavras, abarrotado de anteriores palavras ditas em vão. Passo a chave. Duas voltas bem dadas e a chave, atirada no lixo.
 
Varro o chão. Tiro o pó. Jogo as pontas de vela, de cigarros, lavo as taças, os copos, escancaro as janelas pra mudar o ar, deixo as cortinas fechadas, perfumo tudo, com água de cheiro, boto uma água pro chá, tomo um banho, morno, não penteio os cabelos, mas me perfumo também. Respiro. Um certo alívio. Um alívio doído ainda. É como uma ferida que caiu a casca. Você acostuma com a ferida. Cuida. Um belo dia cai a casca e fica só aquela pele rosinha, onde houve o machucado. Você ainda cuida. Mas sabe que passou.
 
Acabou a prosa. Esta é última. Novas serão as palavras. Mas não serão prosa. Talvez, poesia. Alguma rima vazia que não se pretende, talvez a poesia, e sua discreta alegria de não se revelar.
 
 
*

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

17:00

i
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Aí a gente fala de jogo, penso que não gosto de jogo, mas aí lembro que gosto de um jogo, mas tinha esquecido. Xadrez. Já te contei uma vez, aprendi com meu avô, quando criança, eu e todos os netos que faziam do grande sobrado seu ninho preferido. Todo Sábado. Todo Domingo. E quando desse mais. Eu estava sempre lá. Perto do meu avô. Feito sombra. Que ele acolhia.
 
 
Uma partida com você é um desafio a mais. Sou duas, contra seu exército de vocês. Todos você. Eu ainda prefiro aquele você de você. Você sabe qual. Embora você goste de jogar sozinho, você vem. Uma mesa própria. Um tabuleiro de madeira, antigo, com peças bem torneadas e elegantes. Uma poltrona de braços pra você. Uma para mim. Um abajour no meio, pra concentrar a luz. Você bebe seu whisky metido a besta. Eu bebo meu licor, igualmente fresco. As taças ficam bonitas vistas daqui.
 
Sorteio das peças. Fico com  as brancas. A largada é minha. Você diz: _ quando quiser, milady! Sua ironia fria. Puxo o vestido pra cima, para que minhas pernas fiquem livres, nada me prenda o movimento. O pensamento. O ataque. A defesa. Você olha. E não pisca. Nenhum vacilo. Olho em seus olhos antes da jogada, um fio de sorriso, cínico, que afirma, _ vou te comer!, suas peças no caso, ao que meus olhos não desviam, e replicam _ tô pagando pra ver você me comer!, minhas peças no caso, e mergulho pra dentro tentando entrar naquelas horas e horas de xadrez quando meu avô me ensinou.
 
Você tem que pensar! Você não pode ter pressa. Você tem que observar. Não jogue muito rápido. Não arrisque. Canse seu adversário. Seja fria. Não se abale quando perder uma peça. Trace alternativas. Proteja seu rei. Proteja sobretudo sua rainha, se você perdê-la, provavelmente perderá, dê valor à todas as suas peças, a torre é mágica, mas o cavalo surpreende muito, desconfie do bispo, dê valor aos peões, um peão pode derrubar um rei, proteja sua rainha, proteja sua rainha, mira, foca, pensa, pensa, calma, uma partida não termina enquanto não começa, pense, estude, deguste, tenha prazer no jogar. Divirta-se.
 
Meu avô. Trocaria o meu reino por seu colo calmo. Sempre de chapéu. Fala mansa, baixa, coluna reta, magro, ares de francês ainda que se dissesse um autêntico alemão, língua em que lia seus repetidos títulos, hábitos raros, fazia a mão nossos tabuleiros, as peças, todos os netos ganharam, e amaram esse avô de riso safado, carinhoso sem alarde, atual, sem igual, digno, ares de segredo que amava, amava, era sua sombra, seu encalço, fiquei no hospital com ele antes da sua partida. Acarinhei suas pernas compridas, cheias de sardas coloridas, seu cabelo branco, cadê meu chapéu, fizemos sua barba todo dia, trocamos seu pijama, perfumamos seu corpo, e não foram só rosas que jogamos, mas todo tipo de flor de jardim, sua paixão sem fim, dentes de leão, margaridas, beijinhos, rosas de toda cor, caipiras, que dão em penca, rosas de cores suaves, colhemos todas as flores do seu jardim que não deixou de ser cuidado, como se quiséssemos ir junto com ele, a cada flor que atirávamos. Em despedida.
 
Jogamos este jogo sobre o tabuleiro que me coube. Ele quem fez. E nesse momento, depois desses longos anos em que se deu nosso último abraço, resolvo retomar suas lições. Que havia aberto mão. Meu jogo é arriscado. Nada compensado. Não sigo um único ensinamento por ele deixado. Saio com um peão estudado, abrindo passagem logo à quem... a rainha. A minha rainha é a minha peça do jogo. Não me defendo. Ataco. É com ela, assim que as casas a liberam, que eu sigo. Preparo toda a artilharia pra morrer em cada jogada. Garantam que a rainha passe e prepare a cilada. Muitas vezes joguei assim e deu certo. É um prazer. Imediato. Poucos minutos e jaz um rei ao chão. Delicia de sensação. Embora efêmera, como um trovão que antecede o raio, quem vence é a chuva que molha o chão. Lágrimas sempre evitadas.
 
Jogava assim. Sempre. Até hoje. Até agora. Até esse momento frente à você. Olho seus olhos. Quantas partidas já perdi. Duas. Quatro. Mil. E não aprendi nada. Insisti na jogada. Teimosia de mula empacada. Mas você me chamou as falas: _ já não é hora... É!!! , com quem você quer jogar é a pergunta, com uma nova de mim, uma que no mínimo te renda em algum canto, ou te faça penar, pensar, te desafiar, você já conhece cada um dos meus passos, sou óbvia como uma coisa qualquer que seja sempre óbvia, e você, surpresa, quem joga comigo hoje, qual será seu nome,  nunca sei, haverá atrito, ou devo seguir os conselhos do meu avô e me redefinir, me segurar, me retrair até não poder ainda que meu instinto seja correr com o jogo, desmanchar o prazer do olho no olho, do tempo ao tempo, da observação, da degustação, das insinuações, da dança, da sedução, o poder de desencadear alguma alucinação além;
 
porque atento,  enquanto não se encerra o jogo, não há um fim, e não havendo um fim, estamos, somos, juntos, no mesmo jogo, sobre o mesmo tabuleiro reinamos, resolvo cuidar do meu rei protegendo e resguardando minha rainha, e não começo ainda, penso, só penso em dessa vez,  não meter os pés pelas mãos.
 
Uma nova partida. Que ela seja longa. E salvemo-nos os dois!
 
 
* 

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

15:00

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Nível de irritação: GIGA
Se houver mais que giga, considere.
Dá até uma tontura na cabeça. Meu pulso, esquerdo, tem uma veia que palpita. Coisa mais estranha do mundo. Dá pra ver a pulsação, como as batidas do coração, fica pulsando e dá pra ver, literalmente, tipo uma bolhinha, dá um certo pânico, tomo umas gotas de floral, outras de homeopatia, Coca-Cola, toca a campanhia, da loja, abre a porta, sorria, você está sendo filmada, no que posso ajudar, ladainha decorada de atender gente afetada em falas paralelas, não estou nesse mundo, não estou naquele mundo, vago, um recipiente de guardar rolhas de vinho, momentos divinos, mais dois castiçais e velas perfumadas, soma, recebe, embrulha, acompanha, sorri, mecanicamente, deve ser bom trabalhar aqui, confirmo, me salva, deixo escapar, abraço beijo, promete voltar, indicar, falta lugar pra estacionar, concordo, muito carro, muita rua, muita gente, calor, dos infernos, saudade do inverno, do vazio, de antes de você, sento, inspiro, expiro, aperto, decido não mais olhar, BE LOVE, tudo é cognitivo, nada sinaliza, no entanto, arrisco com uma sombra que anseio ser sua, a silhueta é sua, decorei teus contornos, másculos entornos, desejo que seja, não faz sentido, confirma seus segredos, pede perdão por não contar, pede sinal, sinalizo, sigo as montanhas, o barulho das cachoeiras, viro a direita, não, o nome da rua é direita, vou pra casa, faça as malas, vou pra onde, olho, não olho, não olho, só sinto;
 
Sinalizo, irritação, nível batendo a cabeça no chão, você tem que ser feliz e linda, meu!!!!, e eu que sou incoerente, desligo, não ligo, tá possível, tá aberto, sem chave, escancarado, é só entrar, e resolver falar antes que eu verdadeiramente resolva pirar, antes que eu deixe de ser essa vira-latas sarnenta, e mergulhe numa apatia irreversível, não conte com minha eterna inquietação, o limite existe, quer um sinal, avance umas casas, abane umas bandeiras, para de comer pelas beiras, perde você as estribeiras, faz você, dá seu jeito, se vira;
 
seja feliz, seja calma, seja linda, seja flor, seja suave, seja calma, seja doce, seja o caraleo a quatro, faz o estrago, pede o conserto, pra vir e me desacertar de novo, parece esse rio caudaloso, tô com agua até o pescoço, e tenho que me virar, vou ali, regar as flores do canteiro, molho os pés, a barra do vestido, os braços, o rosto, rego a mim mesma desse calor enlouquecedor, sinto dor, amor;
 
você não tá entendendo, eu sou só duas pra dar conta de todas essas personas que você administra com esse seu irritante sossego milenar, não te falta nada, te sobra ar, e nem pra cantar no meu sonho você se põe a prestar...
 
Nível de irritação: não me encosta, não!
funcionário, folgado, funcionária, corpo mole, vai, cobra, chama as falas, favas contadas, vira as costas, volta, tem que ficar no encalço, senão a coisa não rola, e pra que, pra juntar uns trocados que ficam guardados para o dia D, eu quero o dia B, tô por um triz, com tudo, comigo, com sua palavra que não consigo entender, se é pra valer, se é pra esquecer, se é pra voltar mil casas no jogo, e fazer de conta que vamos nos conhecer de novo, pela milésima vez, tudo de novo, tudo de novo, tudo de novo, registra:
 
eu quero um jogo novo, quero novas regras, quero definir alguma coisa, tal seja que não seja um jogo, pelo menos UMA VEZ.
 
 
 
*

14:04

.


podia ser a gente
mas você não colabora...


*

domingo, 17 de janeiro de 2016

20:23

.
 
o
próximo
passo
não me cabe
mais
 
 
*


sábado, 16 de janeiro de 2016

18:00

 
 

 
.
 
Pareciam colados. Os cílios. Os de cima com os de baixo. Dos dois olhos. Na boca, um gosto de terra. Seca. E o corpo, pedaço por pedaço percebido, parecia estar mais que envelhecido. Parecia que nunca tinha existido. Sobre a pele, um vestido surrado. Pôde ver quando, com os dedos removeu todo aquele remelo acumulado nos olhos, e afastou para o lado, os trapos que a cobriam. Uma réstia de luz solar jazia por umas frestas que não reconhecia, mas sabia porque olhava. Não era uma cama. Nem nela havia um colchão. Estava deitada no chão. Sobre um cobertor carcomido. Um lugar desconhecido. Não havia qualquer lembrança restante, desse, ou de qualquer outro instante. Tinha adormecido. Amanhecido. E desaparecido.
 
CACOS NO CHÃO
 
Os primeiros passos se deram sobre os cacos. Um espelho quebrado. Havia uns panos jogados, agora usados para estancar um sangue aguado que escorria dos dois pés cortados. Na peça ao lado, um conjugado, uma pia, de onde não escorria nenhuma gota de água, torneira velha e enferrujada, uma mesa, duas cadeiras, logo mais outra cadeira, quebrada, uma poltrona toda rasgada, onde sentou pra retomar o ar que não existia. Os panos sujos não dão conta do sangue. Troca por outros por ali catados, dá um nó apertado, latejam mil pontos desencontrados como se fossem fios elétricos desencapados.
 
O RELÓGIO PARADO
 
Estava num criado mudo. Manco. Surdo e mudo. Havia parado às zero hora de um dia que não se sabe quando. Que tempo. Que ano. Outro pano. Partículas infinitas pairam e agora podem ser vistas, os olhos acostumam-se à claridade recente, dançam frente aos seus olhos que doem menos que a sensação de ter sido esquecida num pardieiro sujo, longe do mundo, que não lembra se é imundo , nem quem é o dono do mundo, mas distrai-se vendo a porta. A porta era o relógio. A porta poderia mostrar o que sucedeu e devolver-lhe o  tempo.
 
TRANCADA
 
Uma fechadura escura, dura, de ferro muito velho gemeu ao seu toque. Aos seus sucessivos e desesperados toques. Repetitivas tentativas de fazer-se abrir em vão. Trancada. Abaixa-se para ver por baixo, na ínfima fresta que se forma entre aquela enorme porta e o chão, tábuas corridas, um cheiro de madeira antiga, aviva seus ouvidos, cada um dos seus sentidos reacordados, lentamente, urgentemente. Uma saída nem sempre permite sair.
 
CALENDÁRIO
 
Desiste da porta. Assim como o relógio, não marca mais chegadas, nem partidas. Fora trancada. A intenção esquecida. Sem chaves, sem despedidas. Na parede, no entanto, uma distração. Segurado por um prego mal pregado, torto e carcomido resta um calendário. Parece um calendário. Deve ser um calendário. O impulso o alcança, arranca-o da parede com a sede da esperança, uma pista, algo que explique, justifique, rompa o dique dessa água retida, água, a sede é infinita, bebe o calendário que resta em pouca tinta.
Um logotipo desbotado indica 'Auto Posto da Anunciação'. Estrada velha, sem número, bairro Descampado. O nome da cidade está apagado. Mas o ano, e os meses pode-se ver. 1946. Hum mil, novecentos e quarenta e seis. O que isso quer dizer.
 
VAZIA
 
Associações de data nada revelam. Não lembra o ano em que nasceu. Nem em qual ano morreu. Talvez trate-se de um mausoléu, talvez tenha sido enterrada viva, mas suas carnes ainda anunciam-se vivas, não restam memórias, nem histórias, nem lembranças, sabe que foi criança porque lembra apenas de uma canção de ninar, que insiste em sua boca, num mínimo murmúrio vadio. Vaga pelo conjugado feito alma penada. Porta, tenta, não abre, sede, torneira, não jorra, cacos, desvia, sangue, reaperta os panos, calendário junto ao peito, algum alento, a canção repetida, uma voz sumida, os grãos de poeira, senta na cadeira, olhos mais abertos, o vestido revela seus seios, descobertos, cobertos por seus cabelos compridos num pudor incontido.
 
 
RESTA
 
Uma fresta chama-lhe a atenção. As paredes são de madeira. Sem cor. Mofadas e rejuntadas por outras tábuas pregadas, é uma casa abandonada, onde fora jogada após uma partida vencida.
Uma força a alcança, não mais sabia o significado da palavra vingança, de tudo que sabia, ou  poderia, só lhe sobrara a melodia, que alternava com a respiração e uma nova atenção. Percorre a peça conjugada, deve haver alguma coisa que sirva, vê a cadeira quebrada, cinco partes, uma delas, partida, forma uma espécie de lança, toma em suas mãos, muito finas, as veias azuis, como faz-se azul a esperança de conseguir sair dali, para onde, sem saber, sair, se refazer. Montar um novo mosaico. Uma melodia e a cor azul. É tudo que tem. E mais a vontade. Que deve ser usada. Sem demora.
 
DE ONDE VEM
 
Não existe explicação. Há que se aceitar os limites. Os vazios. E continuar. Com o pedaço de cadeira força as tábuas. Os pregos são velhos. Demoram mas cedem. Demoram uma eternidade e toda a força de vontade, um desejo de liberdade, surge-lhe das entranhas a lembrança de um cheiro, um aroma de noite, lembra-se da palavra noite, seu corpo estremece frente à uma lembrança não vivida, um canto de uma cidade, um lugar afastado, um vento quente, seu ventre ardente, um corpo colado ao seu, nus, sós, um homem, uma mulher, um lugar, e o vento, em um movimento de sincronias vitais, dois animais, essenciais, e um grito, surge-lhe um grito visceral vindo de uma dor descomunal, e cede-se a parede, cai sobre ela a estrutura lateral da casa, acerta-lhe a cabeça, pedaços de telhas cortam os restos do tecido daquele velho vestido, o sangue multiplica-se em mil cortes, o que não lhe impede o riso, desvairado riso : a casa ruiu. E ela estava viva. Ainda. Apesar. Contudo. Todavia. Estava viva. Cavou sua própria saída.
 
LIBERDADE
 
Custou caro. Muito. Demais. Mas valia cada gota de sangue que lhe escorria.  Machucada, esfarrapada, abandonada de todas as lembranças, sem lenço pra enxugar lágrimas que não mais existiam, nem documento que lhe concedesse alguma alcunha, era a sua única testemunha. A casa abandonada não era mal assombrada, afinal. Porque se fosse, bom seria, talvez um  fantasma fosse menos mal. Sem lamentos. Olha a casa caída. Ao redor, grama. Mato. E o cheiro do mato. Já se faz noite. Alta. Finalmente lembra que existe céu. E pendurada no céu reluz uma lua, ladeada por um coral de estrelas que lhe parecem todas cadentes. Não há vizinhança. Só ela e sua meia dúzia de lembranças. E a canção de criança que agora é cantarolada em ciranda, roda, gira, grita a agonia de ter ultrapassado e  derrubado suas próprias paredes. Trancaram-lhe para morrer viva, mas escapou. Pouco sobrou, é certo. Mas a liberdade do nada lhe parece a mais livre de todas as posses. Tinha tudo tendo nada. Era toda sua aquela madrugada.
 
 
 
 
 
VAGAR
DEVAGAR
A GENTE ANDA
PRA UM DIA
CHEGAR
 
 
 
*
 
 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

23:17

.
 
 
as noites
mereciam
SER
sempre
acrescidas
de
CHUVA
 
 
e não de despedidas.
 
 
 
*

16:26


.

Estou tímida de falar com você. E assustada. Medo do tudo ou nada. Nem estava querendo seguir nesses relatos, mal elaboradas ousadias, tardias talvez, mas tomei uma ar, outro ar, mais um bocado de ar, e aí, como sempre agarrei-me às palavras pra sossegar.
 
Falar de coisas pequenas . Coisas amenas. Quantos dias. Não lembro mais. Quinze. Dez. Não levou nem isso, talvez cinco pra abrasar. Certas coisas nunca deveriam acabar. Uma palavra criança. Uma palavra novinha. Procuro, procuro, uma pequena palavrinha que fizesse o rumo da prosa mudar.
 
Sino dos ventos. Filtro dos sonhos. Orixás. Tomo um chá, um café, olho pro chocolate, e sinto ânsia. Talvez esteja grávida. De um fantasma. Foi tanto amor naquelas madrugadas que vai que né, não era uma utopia e me fecundou de poesia.
 
De prosa. De agonia. De fantasia. De alegria. De uma inexplicável vontade de voar, de mergulhar no mais alto ponto do mar  de onde não me fosse possível voltar. Fecundada por você. De você. E perdida. Quero gerar uma palavra. Nunca dita. Uma palavra em que se acredita sem precisar de prova, uma palavra nova pra acertar em cheio o coração, a mão, o órgão vital, nada que tenha sido dito igual, mas qual, qual a palavra ainda não nascida faria sumir o gosto de despedida dessa hora meio marcada, se não houver furo, e ao longe a gente deixar o barulho, os ciscos, os cascos, os cacos,  aquelas doses de veneno, os extremos, e só sentar, naquela grama verdinha, brisa passando fresquinha, pés descalços, encostados naquela árvore frondosa, só se deixar levar, pelo que der, pelo que vier, vieiras, não perder as estribeiras, ir pelas beiras do bem-me-quer...
 
DO
BEM
ME
QUER
 
 
( o que eu queria era te roubar daquela estrada vazia,
eu queria te trazer pra perto do meu mar...)
 
 
*
 
 

15:50

.
 
 
A primeira vez que você traga uma cigarro ele tem o pior gosto do mundo. Você engasga, tosse, o cérebro não reconhece aquele gosto estranho de nada bom, até que você vai dando a segunda, a terceira, e as tragadas vão virando outro tipo de fumaça quando você sopra, e é bonito de olhar, as substâncias vão dando um negócio na cérebro, e na dúvida, você  tenta mais um.
 
 
.
 
E um belo dia você garra gosto. Faz uma companhia. Você, aquela fumaça cinza, os pensamentos, o sobe e desce  dos desenhos que contrastam, e aquele momento é só seu. Ninguém com um mínimo de juízo fuma. Fumar é como assumir o risco, ligar o dane-se pra vida, e encarar a fera de frente, eu vou acabar de qualquer jeito. Vou te ajudar. Tenho o fogo. Sempre aceso. Pra facilitar.
 
.
 
Nada nem ninguém te preenche mais do que a solidão. O silêncio. E aquele lugar. Onde você fica, e são as tragadas que gritam a tua dor. Todas as palavras do mais baixo calão são liberadas, tragada pós tragada, sem que se perca o tom. Um riso de canto de boca. Um auto sarcasmo, um auto deboche, uma auto ironia dando banana pra vida, essa bandida, que sabe como ninguém a hora certa de te cobrar. Antes que ela venha vou parar.
 
 
de fumar.
 
 
 
*


15:25


15:21

.
 
 
TANTA COISA
PRA DIZER
E A ÚNICA COISA QUE ME OCORRE
 
É ME ESCONDER
NUM CANTO BEM ESCURO
 
 
OU
 
desaparecer
 
 
 
*
 

14:49

.

tão pequena
que uma única pena
lhe permitia
 
VOAR
 
 
 
*

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

23:54

.
 
 
 
Então está na hora de dormir, e entre exaltações e agitações, e essa confusão de dentro que pode parecer lamento, ou tormento, é apenas um movimento, que nesse momento se faz até receoso: deixa estar, não é pra te assustar, são só palavras, claro que tem os sentimentos que impulsionam essas palavras, mas tem também o gostar de se arriscar nas palavras, tem também a minha cara dada a tapa por querer,  deixa estar, o sono, o sonho, o querer, o direito a não querer, o voltar, o deixar pra trás, o olhar pra mim, o olhar pro mundo, o olhar pra si, o olhar pra quem pintar, deixa estar o continuar, o pesar, o penar, o prosseguir, conseguir rir, deixar estar o partir, deixa ir se for pra ir, deixa ficar, se algo restar, deixa estar, eu só gosto de lembrar, de escarafunchar, xeretar, elaborar, almejar, sonhar, eu gosto, meu verbo é gostar, acrescido de você, imaginar, fantasiar, chamar, gritar, esbravejar, procurar, deixa estar, deixa fluir, se preferir, deixa partir, o coração, a conexão, pode desligar, pode religar, pode me ligar, pode se afastar, de vez, pra sempre, pra nunca mais, ou mais que isso, ou menos que isso, deixa estar, acomodar, se chegar, fazer umas rimas, cantar pra outros ouvidos, duvidar, relaxar, se apaziguar, tranquilizar, deixa estar, sem se importar, continuar, parar, frear, nem lembrar, botar pra fora, jogar fora, dar uma volta lá fora, ir embora, pra nunca mais, deixar estar pra falar, ou pra calar, deixa estar,
mas deixa estar o aceitar que nada vai mudar pra mim.
 
 
*

22:28

.
 
Aí, de repente, tocou essa canção na rádio, e ela dizia palavra por palavra, o que eu pensava em dizer, frente à tua aparente apatia, frente à tua falta de alegria, comigo, ou sem-migo, enfim, é importante que saiba que aqui, sou eu, não é um chamado, não é uma "força-são" de barra, não é dor, não é pedido, não são churumelas, ninguém mandou você atravessar o meu caminho, me encher de carinho, e de pois preferir ficar sozinho, vou escrever o que eu quiser ate gastar todas as letras, todas as palavras, todas as concordâncias erradas, todos os erros gramaticais, todas as rimas, toda prosa, todo delírio, todo a dor, todo o amor, todo o ódio, todo o sentimento que você despertou, que eu despertei em mim, porque eu sou assim, e se te faz mal, muda o canal, desliga a tv, paga pra ver, se eu vou esquecer ou continuar a ser assim, louca por mim, e pelas coisas que eu sinto, lamento, mas não vou parar pra te poupar.
Não é dor. É só prosa metida a poesia. É um ensaio de amor.
 
A canção:
 
 Titulo: Só pro Meu Prazer
(Leoni)
 
Não fala nada
Deixa tudo assim por mim
Eu não me importo
Se nós não somos bem assim
É tudo real nas minhas mentiras
E assim não me faz mal não
 
Noite e dia se completam
O nosso amor e ódio eterno
Eu te imagino, eu te conserto
Eu faço a cena que quiser
Eu tiro a roupa pra você
Minha maior ficção de amor
E eu te recriei só pro meu prazer
 
Não vem agora com essas insinuações
Dos seus defeitos ou de algum me do normal
Será que você não é nada que eu penso
Também se não for
Não me faz mal
Não me faz mal não
 
Noite dia se completam
O nosso amor e ódio eterno
Eu te imagino, eu te conserto
Eu faço a cena que eu quiser
Eu tiro a roupa pra você
Minha maior ficção de amor
E eu te recriei só pro meu prazer
Só pro meu prazer
 
 


19:26

.

 
Nossa!, que aperto que me deu no coração. O que quer dizer isso. Não posso tomar pra mim. Ou devo. Como assim.  Não tô aguentando, quase escrevo teu nome aqui, não o faria, mas quase, sem querer, bem claro, bem exposto, bem definido, bem coração partido, o que quer dizer aquilo... O QUE
 
Engraçado que passei o dia com uma sensação tão doce me percorrendo, cada minuto do dia, uma estranha alegria de te visitar pelo lado lindo, claro que vinham até minha mente as paranóias, as neuroses, os medos, as dores, ( a pergunta: estarei romantizando o inexistente), só que essa minhocas vinham e eram varridas sem demora por uma força contrária que só insistia nas coisas lindas. Criando histórias. Momentos. Futuros. Sorrisos. Beijos. De noite inteira. E de meio de noite. Teu pescoço. Minhas costas. Tuas mãos. Lugares. Mãos dadas. Mais sorrisos. Apego. Afeto. Imenso. Atômico. Supersônico. Suspiros. O que está havendo comigo... perdi o juízo, não estou ponderando, estou delirando de querer, dei um salve à IANSÃ, comprei flores pra Ela, brancas e amarelas, e ela soprou seu elemento o dia inteiro sobre os meus cabelos, soltos, quase podia te sentir, e a razão, ela não achou espaço pra me chamar pra tua falta de presença, pra me lembrar como foi se dando a tua ausência, que de repente, pareceu, ser-me absolutamente necessária para sei lá, aumentar, ou arrumar, ou rearrumar,
 
claro, que só posso falar por  mim... mas quem embalou hoje, e me trouxe doçuras apimentadas e novas madrugadas prometidas por longas estradas, foi Iansã, não me pergunte como, não me pergunte nada, apenas saiba que você habita aí, no seu horizonte, mas habita, uma parte imensa de você habita aqui, bem dentro de mim, assim, do jeito que SÓ VOCÊ sabe, só você pode, só você entende e acende,
 
mas aí eu cheguei, abri as janelas, que continuam permitindo o frescor desse movimento bonito de vai e vem de novas cenas, novos poemas, coloquei-me em poucos panos, e te olhei. Enigmático. Performático. Lindo. Sabe, achei você lindo. No começo. Mas hoje, te olhando, me espanto de o quanto você é lindo. Solto. Pelas barbas de Netuno!, só mesmo uma pessoa sem juízo, eu no caso, em quem não nasceu nenhum dos dentes do siso, que falta gigantesca de juízo, querer alguém como você. Como diria minha vó: sarna para se coçar. Aff.
 
Mas voilá. Se é pra arder de dor e querer ,que seja por você. E se for tudo um engano, bem, eu nem sei, porque essa hipótese é varrida de pronto da minha mente hoje, e assim, nem que eu quisesse, arrumo argumento. Sou louca por você e ponto.
 
Te contei do desmaio aquele dia. Não sei se você entendeu. Não foi metafórico. Foi literal mesmo. Apaguei. E vou esmiuçar aqui pra você.
 Que d e l i c i a !
 
Nunca tinha desmaiado antes. Não cheguei a cair no chão. Foi no café da manhã. Umas 10:00. Estava na mesa, e de repente, me disseram, sumi do mapa, me chamavam e eu não respondia, eu não lembro, só fragmentos, mas foi algo como, sei lá, adentrar numa outra dimensão, mas algo tão bom, tão leve, entrei sorrindo lá nesse tal lugar, tudo leve, suave, parecia uma praia, sei lá, mas a areia era macia, branquinha, muito fresco, muito aromático, muito sei lá, parecia um coração feliz,
 
daí, me pegaram e me levaram, pro chuveiro, me banharam e me deitaram na cama, onde eu sumi de vez. Respirava direitinho, tudo beleza, só que apaguei. Meu... que d e l i c i a . Se morrer for algo parecido, até que eu recomendo. Embora não agora. Não hoje, não neste dia em que mesmo você não estando, está, tão dentro, tão perto, tão tudo.
 
Minha adorada tia avó, ficou assustadíssima, ligou pro médico, ficou ali do meu lado, mas do nada, acordei como se nada tivesse havido, levantei e o resto você sabe que te contei em extensos relatos. Vovó veio com umas histórias de que antigamente era muito comum as mulheres usarem o recurso do desmaio simulado para se ausentarem de decisões difíceis, ou para mostrar uma pseudo-fragilidade estudada, e as donzelas, para poderem ir aos bailes, e as senhoras, para verem seus pedidos atendidos, e as românticas que até hoje desmaiam por prazer.
 
Você, certamente, não é o tipo de homem que se deixaria tapear por um desmaiozinho qualquer. Pra te enrolar, não acharam a linha ainda. Não deve haver recurso pra te levar no bico. Ameaças são uma cilada, sempre dão errado. É feito aquela historinha antiga, o sujeito se diverte gritando _ fogo, fogo!, só pra ver todo mundo correr, e toda vez, o povo corria, até que num belo dia, era verdade, mas ninguém correu e o sujeito morreu.
 
Feito eu, eu acho. Vou sumir. Não vou deixar rastro. Vou te riscar do mapa. Vou te esquecer. Você nunca mais vai me ver. Nunca isso. Nunca aquilo. Nunca aquilo, nunca isso, né --------
 
Nem eu mesma me acredito neste quesito. Espero que esse dia nunca chegue. Espero que muito longe disso, uma belo dia você ache um jeito, e se 'aprochegue', canse de se sentir perdido, palpite meu só, mas é que nesse história só existem duas possibilidades:
_ ou tudo era mentira, e nesse caso, não consigo raciocinar, nem racionalizar,
_ ou era tudo verdade, e aí, em se tratando de ser, tudo pode acontecer, até a nossa historia renascer, e a gente encontrar uma forma de se reconhecer, de novo se conhecer, passo a passo,
sem pressa, ou com toda a pressa de quem ama as estradas.
 
Se existem outras, e devem e podem até haver, não consigo pensar agora, porque está tão bom essa calma, que sei lá, deixa estar.
 
Fui ousada demais hoje.
Coisa de Iansã. Me fez ficar assim, aos meus próprios olhos,
arretada.
 
 
Se precisar da minha mão,
_ VEM!
 
 
 
*

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

22:02

.

 
Precisando trocar de tema. Quando você põe sua mente e sobretudo o seu coração na função de se escrever dá cada escorregão que vou te contar, não é mole não!, pra que tanta exposição, né, mas essa é a minha preferida contradição, exponho sem, sem condição de nada, as palavras vão sendo escritas, aflitas, mas sem responsabilidade, amanhã se eu quiser, apago tudo, passo a borracha, compro logo a passagem pra cidade da luz, e vou ficar zanzando por lá, livre como sou de fato,  embora mais enrolada que novelo de gato, e sobre as coisas que escrevi,  pareceu, eu sei, fui te escrevendo loucuras naquelas noites de praia, sem filtro, se roupa, sem nada,
 
(alguma autora porreta que não lembro o nome disse numa entrevista certa vez que mulheres devem escrever com as pernas abertas, pra acender as letras...)
 
não é ideia minha não, mas registrei, e assim, fui escrevendo insanidades, mas a bobagem mais sem noção que escrevi fez você revidar como se fosse, mas não era, entende, embora, é, bem sem noção, mas a gente não fala uma coisa daquelas pra uma homem, um filho do vento, livre de tudo, pulei a lição do que nunca se dizer a ainda achei que estava mandando bem, pelas flores da Primavera toda, vai ser romântica esquizofrênica lá em Paris, né,
 
enfim, disse que ia mudar de tema, e cá estou, falando com você de novo. Como se sempre. Como se nunca. Como se você me adivinhasse. E eu, à você. E você fosse entender tudo, cada ponto, como se você fosse realmente ler, e gostar, quase esqueço que na verdade, estou falando sozinha, para variar. Vou ali.
 
 
INTERVALO
 
 
21:00
 
Ops!
Mas oras, oras, oras, veja você!
Essa eu tenho certeza que você não vai entender, até porquê, de repente, é ponto pras meninas.
 
 
Nem Freud explica. E olha que li muito Freud. Cursei seis períodos de Psicologia, nem te contei, larguei o curso na metade, fiz outros tantos, comecei, larguei, italiano, fotografia, artes plásticas, e me formei em exatas, miscelânea. Eu também enjoo das coisas. Rá!
 
Voltando à Freud, que grande salafrário. Adorável. Mas salafrário. Nada otário. Mulheres, prazeres, e uns ajutórios alucinógenos porque, ninguém viaja tanto sem um extrinha. Meu melhor trabalho na faculdade foi sobre um texto dele, um dos últimos ensaios dele, Mal Estar da Civilização, depois de farrear e se esbaldar, concluiu plácido, que o Homem, ser, precisa, resumidamente falando, de duas coisas na vida:
alguém pra amar e uma trabalho pra se ocupar.
(hahahahaha) Conta outra, Freud. Isso se chama morrer.
 
O maior de todos, no entanto, pra mim, é Goethe. Esse, sim. Amo de paixão. Teria um caso com ele, fácil, o homem mais interessante que li até hoje. Sua biografia é elegante, densa mas sempre elegante, muito criativa, nada repetitiva, foi reconhecido em vida, coisa rara, porque era centrado, taí um cara pra ser citado. Goethe. Misterioso, bastante, charmoso, demais, o bem, o mal, o preço, quem paga, quem não, as caleidoscópicas escolhas que só unidas vão se revelar.
 
Estou lembrando deles porque,  finalmente, comecei a ler Baudelaire. Estou providenciando os outros títulos pra não julgar precipitadamente, mas... que coisa!, citação é uma coisa bem pouco abrangente, pude constatar explicitamente, fazia uma ideia, mas não é nada do que eu imaginava não. É bem pior. No sentido, bem mais ousado, não vou ser precipitada de novo, mas como amante Baudelaire já era. Retiro formalmente o nome dele do rol dos românticos, ele não é apenas profano, ele é o suprassumo do conceito, pura provocação, mas vou ter que mergulhar mais pra poder argumentar alguma coisa. Por ora, aff!
 
Então é isso.
 
 
(acho que outra das cinco palavras era beijo. Se não era, é ato falho, mas aí, normal, quem não se derrete por um beijo que atire a primeira flor, sem espinho, por favor!)
 
 
 
*