quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

20:20


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Se existe algo mais chato do que PENSAMENTO, eu desconheço. Bichinho mais temperamental não existe igual. Você quer pensar coisas boas, quer livres voos, quer um tempo, e lá está ele, o bendito pensamento marcando seu lugar.
 
Não tem um botão, não tem distração, não tem abstração que controle, ele é absoluto, é uma luta desleal, porque ele, o pensamento, é de temperamento animal. É tipo uma sucursal da Divina Comédia, céu, que quase nunca, purgatório, coisas práticas da vida, e inferno, o dominante, que te faz arder seus pecados, te faz queimar os neurônios, eles se achegam anônimos, e vão te minando, te cercando, uma coisa dando a mão pra outra, as mágoas se alimentando das raivas se alimentado das palavras recebidas, ofensas proferidas, coisas caras, findas, e a chama, vermelho intenso de um firmamento sem chão.
 
Pobre razão. Divina ponderação. Obsessão. Dominação. Frustração. O nome da rosa. Não tem flor neste canto de dor. Dor, no entanto, tem raiz. Avança pelas entranhas, ruas estranhas, a gente só quer um descanso, e nessa altura do jogo, qualquer descanso já é ser feliz.

inferno
 
 
Lembrei de uma frase que me foi dita. Só queria dizer que concordo inteiramente, em número gênero e grau. A  frase dita nem vem ao caso. Ao caso é o som dessas risadas bonitas que vêm da rua. Paro a escrita pra ver, três crianças crescidas, uns dez, onze anos, duas meninas e um menino, correndo soltos, e rindo. Eita! coisa mais linda.

purgatório
 
Com certeza não chegaram aos desenganos ainda. Só correr bem louco, pelas calçadas, criançada solta, bateu saudade, lado do céu, correr no final da tarde antes que a mãe chamasse pras chatices, banho, lição de casa, jantar, escovar dentes, rezar, dormir.
 
Pensamento era pequeno. Decorar a tabuada, combinar o piquenique, convencer o pai de levar a gente pro circo, pro cinema, lembrar o que significa fonema, fazer as pazes com o menino bonito, ops, aí já havia complicação, coisas do coração nem criança dá conta, não.
 
 CÉU
 
Tenho duas pitucas na minha vida. Uma de oito. Uma de quatro. Minhas sobrinhas. Quando elas vem me visitar, a gente brinca de desenhar, de aprender novas palavras, fazemos sempre uma merendinha, que elas adoram, e nessas horas calminhas,  elas me fazem confidências. Os nomes do perigo. Um se chama Guilherme. O outro, Caetano. E eu morro de rir das dores pequeninas das minhas meninas que já se acham enamoradas, elas nem sonham o quanto é cilada as travessuras da paixão.
 
Vão brincar de esconde-esconde, meninas! Vão pintar o sete pelas paredes, tocar campanhias e sair correndo, vão fazer cabaninha, mas nada de fazer comidinha, sonhem mais alto, minhas meninas, sonhem-se livres, sonhem-se no comando das suas vidas, sonhem viagens, profissões, multipliquem suas paixões para amplos campos, sejam idealistas, façam listas e listas, lugares, passeios, façam anseio ser um termo suave, deixem de lado as cinderelas, pulem as janelas, sigam na contramão dessa educação dantesca, sonhem alto, e corram pro abraço do eu. Façam de vocês mesmas o seu amor maior.
 
Não ensinam isso na escola. Tem que ter uma tia que descola a visão e convida pra o outro lado da história. Lembrei que pegamos todas as estórias da carochinha, e mudamos tudo, começo, meio e fim, e elas adoram, cada encontro mudamos a retórica, e nessas horas sou feliz. O pensamento dá um tempo. Meu lugar no céu.
 
É, Dante, quem disse que seria fácil... Sucessão de pensamentos, acontecimentos, um pé aqui, outro ali, desistir, resistir, prosseguir, e o verbo sorrir, porque de vez em quando a gente faz o pensamento ficar contrariado, consegue mudar de lado, um barulhinho no telhado, chuva caindo, uma coisa boa surgindo, e de devagar em devagar, a gente vai aprendendo a se dominar. E isso também é parecido com ser feliz.
 
 
 
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

20:44

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E se a rosa fosse prosa, e se a prosa fosse verso, e se o verso fosse dito, e se dito fosse findo, e se findo fosse engano, e se o engano, resolvido, e o resolvido fosse quisto, e se quisto fosse lindo, e se lindo, o destino, e se o destino fosse tanto, e se o tanto fosse livre, e se livre fosse junto, e se junto fosse ninho, e se ninho fosse colo, e se colo fosse cura, e se cura fosse calma, e se calma fosse a fala, e se a fala fosse hoje, e se hoje fosse o dia, e se o dia fosse noite, e se a noite fosse rosa, e se a rosa fosse estrela, e se a estrela fosse brilho, e se o brilho fosse dito, e se o dito fosse verso, e se o verso fosse o inverso, e o inverso, caminho, e se o caminho fosse volta, e se a volta fosse flor, e se a flor fosse uma rosa, e se a rosa desse prosa,
 
tudo virava POESIA
prosa e verso.
 
 
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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

17:52

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Choveu sexta. Choveu sábado. Choveu domingo. Segunda e terça e ainda chove. Novembro. Dezembro. Chovia naqueles dias também. Janeiro. Fevereiro. Águas de Março fecharão o verão. Nova estação. Outono. Retorno da calma. Uma coisa mais lenta pra dar tempo pra alma. Pro coração.
 
Esse órgão vermelho. Da cor das paixões. Logo as folhas das árvores seguirão. É muito chão. Pra um só coração. Percebidas mudanças se perfazem. Tudo é fase. Metamorfose. Muitas faces. Pra um único ser. Quantas caras já tive...
 
O rosto. Tem coisa mais linda no mundo do que um rosto... Os olhos, a boca, a composição tão harmônica, e única. Essa barbaridade de gente que tem mundo, gente que já partiu desse mundo, CADA UM com sua face. Diferente e especialmente original.
 
E para cada rosto único, fases. Rosto de bebê. Tem coisa mais flor do que um rosto que acabou de nascer... a cara da novidade no mundo, minha mãe sempre fala que eu era cor-de-rosa, com chuquinha, que é aquele punhado de cabelinhos  amontoadinhos no alto da cabeça. Minha vó, minha madrinha, sempre dizia, a menina mais linda que o mundo viu nascer em Maio. O mundo dela no caso, que fique claro.
 
O rosto da infância. Aquele par de olhinhos arteiros, descobridores de uma coisa nova por segundo. O sorriso sem dente. Banguelas criancices. Olhar as fotos e ver tantos rostos e um único rosto ao mesmo tempo. A gente passando pelo tempo a se transformar no presente, na coisa de agora, um mesmo rosto pra tanta história.
 
Rostos que se cruzam. Olhos que se olham. Mundos que melhoram nas esquinas dos encontros, e alguns rostos que nunca mudam, ficam retidos na memória, guardados num canto do coração, não o vermelho órgão, mas aquele que deve existir no meio dos olhos, no campo pineal, onde ninguém é igual e onde a vida contempla o permitido. É quase surreal. Senão, pensa...
 
Assim passa-se a vida. Entre faces, entre fases, entre rostos que vimos hoje e  não mais veremos amanhã, ou sim, depende, do que resta, do que embeleza, do que se mantém, do tanto de amorosidade que se preserva, do tanto de suavidade que se cultiva, do tanto de delicadeza que faz-se roda, viva, rostos que amamos, em alguma fotografia bonita, sempre estará lá, no canto esquerdo do peito, a pulsar.
 
Pulsar novembros, dezembros, anos, inteiros, estações, todas, chuva sol, rostos, todos, no mundo, únicos, passando ao sabor do tempo, esse elemento que nos muda. Nos muda. E há de ser para melhor!
 
 
 
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domingo, 21 de fevereiro de 2016

20:22

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Achar um novo tom. Permitir-se continuar. Sob a condição de mudar. De dar uma nova cara pra coisa toda. Sem mudar tanto.
 
O tempo é hoje, e hoje, todo mundo fotografa. Todo mundo escreve. Todo mundo lê. Todo mundo é poeta. Todo mundo faz prosa e verso. Todo mundo é réu confesso. Da sua loucura. Da sua bravura. Da sua fúria. Da sua feiura.  Da sua própria loucura. Talvez a coisa toda até nos cura. Da realidade. Nos acrescenta alguma habilidade pra tocar o bonde, já que dentro e fora nunca se acharam tão longe. Tão distantes.
 
Escrevo por lucidez. Faço o caminho inverso. Revelo sem nada revelar. Aqui e ali. Só eu me completo. Porque conheço o trânsito. E imagino ser parecido pra todo esse mundo dessa gente que tira fotografia da alegria, que escreve fantasias e faz rimas e prosas e abusa do direito de se expressar no que fazem é muito bem.
 
Eu gosto da loucura. No escrever. Mas tem quem, nem. Sempre tem aquela fiscalização que é o cão. Dia desses veio um "disinfeliz" me cobrando o seguinte:
 _ mas tu só pena no virtual!. PQP!, eu devo merecer, né. Em tempos em que tá todo mundo pelado por dentro e fora pra todo lado, criatura vem me cobrar que eu escrevo sobre penar.
 
Meu!!!! Tu quer que eu escreva sobre o que... sobre as minhas facilidades adquiridas ao longo da vida, quer eu escreva sobre a linda sacada de onde escrevo agora, sentada sobre um monte de almofadas macias e coloridas, uma linda árvore de fundo, frondosa, imensa, e as luzes bonitas da cidade onde me encaixo sem precisar correr mais do que uma quadra pros afetos, pros concretos, papo reto, felicidade a gente vive, se fosse pra falar amenidades eu estava no tal FB postando fotinhos de viagem, de festa e os escambáu a quatro...
 
O que mais me espanta é a audácia das pessoas em se sentirem a vontade pra te questionar, enquanto a pouca vida que levam nada tem a expressar.
 
Desabafo. Nem era pra isso que ia escrever. Mas aí você pensa em escrever e lembra da vigilância, vem a irritação e quando vê, fala demais. E não quero, além do mais.
 
Quero ficar aqui bem tranquila, falar as abóboras as couves as batatas que eu quiser, e amanhã acordar pro meu dia e assim sucessivamente até quando Deus quiser.
 
Oras, pois!
O fato é que a crítica foi contundente. Gargalhada. De novo. Again!
Estava, anterior a essa chatice, decidida a perceber a poesia nas coisas mais simples. Dar um tempo na loucura, me permitir a frescura de escrever, por exemplo, que mudei os cabelos.
 
Cansei deles rebeldes. Lavava, batia com os dedos e deixava secar ao natural, o que revelava uma cabeleira rebelde e louca. Cansei. Estavam parecendo minhas ideias. Rebeldes e loucas. Agora estão lisos. Uma seda. Compridos. Acastanhados com reflexos dourados. Bem comportados. Como por dentro. Tentando me comportar.
 
Ontem fui ao salão. Mãos e pés. Depilação. Sobrancelhas. E banho de luz nos cabelos. Enquanto chovia uma chuva calma de tarde inteira. Delicia de frescura. Uma tarde toda no salão. Um exercício interessante de observação de comportamento. As mulheres chegam com seus rostos já exaustos de uma semana toda em suas lidas, pra se entregarem aos tratos, e quando saem, saem tão bonitas, o sorriso volta, toma-lhes as mãos até a porta.
 
Melhor coisa de ir a um salão. ALGUÉM LAVAR SEUS CABELOS. A coisa mais calma e relaxante da vida. Quer dizer. Tudo bem, tem outras coisas, mas não vem ao caso. Ou vem... Na intimidade de dois amantes, coisas inusitadas, delicadas, como fazer a barba do seu amado, ele lavar os seus cabelos, massagem de olhos vendados, opa!, nada de enveredar pra esses caminhos, só queria escrever um pouquinho, ainda que tão fútil pareça, até que o melhor aconteça, e me faça relatar a loucura engrandecida de uma história que deseje ser contada em prosa e verso, dentro e fora, imaginária ou real. Paradoxal.
 
Licença de Domingo, perdão aos incomodados, um beijo à quem passar. Espero não incomodar. Mais. Ninguém. Amém.
 
 
[Olhando bem, você vê além]
 
 
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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

12:59

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O universo das coisas. O universo dos versos. O universo das pessoas. O que faz uma pessoa feliz. O que faz duas pessoas felizes ao mesmo tempo. O que faz um grupo de pessoas rirem juntas. O que faz a felicidade querer ficar. Quanto tempo ela pode aguentar. Sem que suas asas inquietas a chamem pra voar.
 
Felicidade borboleta. Felicidade beija-flor. Felicidade terra. Calçada. Estrada. Felicidade momento. Nascimento. Onde ela se demora. Ninguém aprende na escola. Não tem como passar cola. Argola. Corrente. Prender. Só ver. Seus detalhes.
 
 
Alguém sempre está feliz nos arredores.
Observo do meu posto sentinela a felicidade de um menino. Que trabalha comigo. Nem trinta primaveras mas um sabedor de felicidades intuitivo. Gosta de futebol. Gosta de jogar futebol com os amigos mais do que tudo. Exceto um tudo que se chama Romeu. Seu filho. E exceto sobretudo a sua amada menina. Fico imaginando que romântico o momento em que decidiram chamar o seu lindo menino de Romeu. A felicidade ao lado...
 
Esse menino está feliz. Vai se mudar pra casa nova. Uma casa novinha. Pequena e linda. Um ninho pros passarinhos. A menina dele gosta dele. E gosta das coisas bonitinhas. Cada coisa no seu lugar. O Romeu tem quatro anos, de felicidades genuínas. Gosta do homem aranha, de ver o pai jogar bola, e de chocolate. Sobretudo gosta do pai. E da mãe. E dos avós. E da escolinha onde ele entra sorrindo e sai dormindo. Bem sossegado.
 
A felicidade se demora. Constato. A felicidade se demora na coerência. Na insistência. Na inocência. Na paciência. Nas almas tranquilas. Que apreciam jogar futebol com os amigos. Que apreciam ver o seu querido jogar futebol com seu amigos. Na criança criada sem frescura, só com amor e água pura. Felicidade, pelo visto, sem rende às ternuras.
 
 
Daí, lembrei dos velhinhos. Tão tranquilos. Velhinhos gostam de pescar, de merendar, de cochilar, de contar causos, não andam mais descalços, seus pezinhos tem calos, seus cabelos são ralos, suas rugas apertam os olhinhos, mas o sorriso resta num cantinho, no outro, tão leves, seus ossinhos frágeis, suas artérias delicadas, e as lembranças viram um tempo de filme, preto e branco, deixa pra lá as imagens!, vamos lembrar o estilingue, as tardes de Domingo, todo mundo reunido, a felicidade aparecendo sem ser convidada, não se faz de rogada frente à essa gente que não espera sentada a sua nobre chegada, felicidade ama atrevimento, e como parecem felizes os atrevidos. Os velhinhos no café do outro lado da rua. O meu amigo do trabalho. O Romeu. Que gosta de abraço. Apertado.
 
_ Que a felicidade não saia do seu lado!
 
 
 
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

19:00

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Muitas palavras rondam o pedaço. Aéreas palavras em descompasso. Tem coisa que é difícil de falar. Mas nem por isso, dá pra evitar. Muitas palavras poderiam ser usadas, muitas, foram usadas em excesso, num saldo de nada, a vida é engraçada porque, acaba que cada um usa o que tem a seu dispor. Especialmente no quesito dor. E amor. E desamor. Vou te fazer um favor.
 
Inconveniência. Nunca me imaginei transitando pelos arredores desta palavra pouco simpática. Inconveniente. É estranho colocar o afeto ao lado dela. Mas é um fato. Não é por se tratar de algo transbordante de intenções quentes, doces, urgentes, por serem ternuras, sonhos e planos e coisas tão afim de fazer feliz a dois, que isso seja garantia de significar o mesmo ao objeto-ser do seu bem-querer.
 
Pode não ser. E acontece de acontecer. Seu afeto ser inconveniente. Ser um peso. Acontece de não bater. De se esbarrar com alguém e esse alguém correr do esbarro. Acontece de demorar pra gente perceber. Ou reconhecer o estrago. Você embarca no outro de olhos fechados. Sempre. Tateia com as mãos crente que o outro par de mãos está ali, do teu lado. Mas nem sempre. E até lá, até perceber, cabe essa coisa de ser inconveniente.
 
Sou ré confessa. Fui inconveniente até o último fio de cabelo. Em todas as palavras de fúria e paixão. Ultrapassei o limite do bom senso, mas quem lembra de senso, quando todo seu parco consenso só fazia deslizar, fluir, flanar, desejar e acreditar erroneamente que o voo era à quatro mãos. Asas. Só que não. Demora um pouquinho. E faz-se peso. Pra quem fica. E pra quem vai. Fica aquela aura velando um chamamento, vira tormento, o que sonha possibilidades remotas, e o que já foi faz tempo, porque por dentro restam conexões, emoções que se interligam, que não se desligam assim, da noite pro dia, até que num susto, chega esse dia.
 
Hoje foi o meu primeiro dia da fase inconveniência percebida. Sabida ela era, sempre é, no fundo a gente sabe, mas quando se dá conta de fato, surge uma palavra renegada, palavra que quase não faz rima, precisa ser escrita em letra mínima, vergonha, estou sinceramente e de forma constrangedora envergonhada, faz parte da vida, mas não é uma sensação muito bem-vinda, não!.
 
Foi o primeiro dia depois de tantos dias que foram somando semanas e já viram meses que eu finalmente respirei. Metaforicamente falando, claro,  foi só hoje que eu me dei alforria dessa coisa tão vazia de alegria que é querer sem poder. A utilidade da inconveniência causada e da vergonha sentida se faz por finalmente achar um cabimento para a palavra PARAR.
 
Simbolicamente, peguei o vestido novo, lindo, as rendas da lingerie macia e sem uso, o par de sandálias de salto altíssimo, (queria que meus 1,67 se alongassem para mais perto da sua boca e dos 1,82 de você...), e os coloquei numa caixa bonita. Dei de presente a uma amiga, que acabou de se apaixonar. Ela não queria aceitar. Não contei nada, espero que não dê azar.
 
Não há de dar. Cada centímetro de tecido daquele lindo vestido guarda uma intenção tão amorosa que não poderia deixar para as traças fazerem-se prosa. Foi. Há de testemunhar uma noite de chuva. Embaixo de alguma marquise. Há de sentir os ardores de amantes que haverão de dar certo, ainda que incerto seja o amor.
 
Siga livre pela sua floresta. Tiro meu sinal da sua testa. Não procurarei mais argumento para o seu afastamento, não mencionarei mais seu elemento, é todo seu o tempo e o vento, ficarei com a chuva por testemunha que neste momento cai, ela chora só mais uma história que se findou, acabou,  tome sua liberdade, se era esse ínfimo fio de lamento que te constrangia, alegria, alegria, não há mais porque olhar pra trás, o estrago foi remendado, mudei de fase, escreverei outras frases, e nelas não haverá mais você.
 
Você aqui agora é pronome, é só personagem. Passou.
Tudo não passou de MIRAGEM.
 
 
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

11:57

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Por dentro,
na maior parte do tempo,
o que a gente tem

é o que a gente INVENTA.



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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

23:22

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Tá certo. Tá tudo certo. O mundo tá girando, as ondas estão dobrando, a lua não caiu do céu, as estrelas estão lá, todas alinhadas, já é noite nas calçadas, do lado de cá, do planeta, enquanto do lado de lá, já é amanhã, e o mundo não acabou. Ainda.
 
Tá certo. Tá tudo certo. Deu sol. Fez calor. Depois choveu. E era água. E a água era fresca. Atenta. Ninguém vem com marca na testa. A vida continua uma festa. Todos estão ligados. Alguns como eu, equivocados, os sonhos continuam a vagar, e o ar, ainda resta, enquanto pela fresta se confirmam, enganos, encantos, e a eternidade de cada um.
 
Tá certo. Tá tudo certo. Houve tropeço. Houve o avesso. Houve o suspense. Sempre travesso. Houve verso. Houve o controverso. Houve o inverso do que poderia ter sido. Houve o que não foi. E houve o que poderia ter sido. Em alguma onda gravitacional que na recombinação, cedeu à emoção e fez feliz algum coração.
 
Tá tudo certo. Tá tudo certo mesmo que pareça errado. Mesmo que a coisa não tenha rolado. Mesmo que o joelho esteja ralado por mais uma queda, mesmo que o carinho venha em forma de espinho, mesmo que tenha doído, mesmo que o moinho tenha rodado pro outro lado, o lado que não vai ser contado, porque o planeta roda, gira sem parar, e ninguém vai se importar se a dor é sua, se a lágrima molha a face, e a face é sua, se sua alma fez-se nua, e crua ou duramente, ela muda,  sua mente chama, cansou da chama:
 
 _ se aquieta!, deixa passar, deixa ir, tá tudo certo, tudo está no seu devido lugar. A lua no céu. As estrelas. A noite. E o amanhã. Que não deve tardar.
 
 
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17:14

 
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A gente nunca sabe quando vai tropeçar na sorte. Tem que estar distraído. Suponho. Bem distraído. Às vezes, pode ser até bem no meio do mato. Subestimei o valor dos caminhos. Superestimei o valor de outros. O meu pra menos. O seu pra mais. E você me avisou, além do mais.
 
Nunca se sabe onde nos aguarda a sorte. Ou se ela existe. Ou se ela virá. Ou por onde ela andará. Nem pra mais, nem pra menos, seguimos a balançar os cabelos que é o que de mais perto da sorte o vento nos traz. Uma pequena sorte por vez. Um dia, talvez, uma maior. Quem sabe... ( 12:26) Seria a sorte. Não seria. Desconhecidos são os momentos. Reconhecer o momento. Sob qual argumento. Ganhar é reconhecer. E se ela resolve aparecer... 
 
 
O certo é que se a  sorte pintar, não há o que negociar. Não há liberdade que dê conta do mais livre dos atos: Se prender. Terá sido. Não sei. Não tenho como saber. Sei que logo mais cedo o vento passou pela flor do mato, e de súbito, parou. Todos os seres miúdos pararam pra ver o vento suspenso.
 
Não dá pra ver o vento. Ainda mais parado. Mas dá pra perceber, mesmo sem ver o seu rastro. É tipo um perfume. Uma coisa que se forma em torno de onde ele está. Um hiato. Em frente ao canteiro que se fez sozinho, uma mistura de matinhos e flores minúsculas, entre elas a flor miúda,  subestimadas criaturas verdes e fortes, TREVOS.
 
Não trevas. TREVOS. Trevinhos de três folhas. Um leve balançar anunciava. Era por ali que o vento estava. Procurando. Analisando. Cheirando. Uma rajada faz com que algo se revele mais ao fundo. Do canteiro que se fez sozinho. Nem um pio se ouvia. Todos junto com o vento. E aí se viu: um trevo de quatro folhas.
 
Um trevo de quatro folhas. O vento atrás da sorte. Quem diria... No meio deste matinho nos confins atrás de um mundo qualquer, vento que é vento não abre mão da sorte. Mas ele foi gentil. Em apreensão, todos os seres miúdos pensaram: lá vem vendaval!, o vento vai levar a sorte com ele. Mas, não!.
 
Ele ficou ali. Parado. Enamorado da criatura trevo. De quatro folhas. Chamava-se sorte. E vimos isso de perto, marcava o relógio vinte e seis minutos para além do meio-dia. Mais, ninguém soube, nos coube a discrição de deixa-los a sós.
A sorte e o vento. No meio do mato. Onde ninguém imaginava.
 
*



segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

00:26

 
 
 
sem sorriso não há amor.
sem amor não há sorriso.
 
sorriso não há sem.
sorriso não há.
sorrio não.
só.
 
 
 
*
 
 
 
 
 
 
 

19:24

 
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Outros jardins. Ai ,de mim! e minhas margaridinhas pequenas e pouco amarelinhas, quero olhos pra vê-las enquanto gasto-me em apelos sem o cultivo cumprir. Vez ou outra cai um retrato apropriado no meio das nossas fuças para o olhar ganhar foco. Olho. Não sei avaliar. É quase como se eu mesma não visse. Possível que não exista. Tô levando no grito uma não existência, sou eu o jardim sem aparência.
 
 
Sonhei com um ente querido a noite passada. Pai de uma amiga de infâncias imorredouras. Um tipo de tio, vô, mágico, nos chamava à todas, as meninas, de 'senhorinhas', e a gente se ria por alcunha tão excepcional. Quando resolvíamos fazer nossas incursões pelos terrenos vizinhos que ainda se faziam existir com árvores, muitas, campos, arbustos, ele nos lembrava:
 
_ Não se esqueçam, senhorinhas, de pedir licença para os passos.
 
E a gente repetia o que ele nos ensinara: _ Licença, compadre, licença, comadre!. Ele nos garantira que sob este mantra estaríamos resguardadas de mordidas dos bichinhos do mato, de imprevistos e sinistros, porque pedindo licença para nossos passos, o respeito seria recíproco. E a gente saia correndo, com cestinhas, as senhorinhas, colher mimosas, jabuticabas, moranguinhos, coquinho verde, umas flores de nome engraçado 'maria sem-vergonha', que a gente amava porque coladas às unhas, nos fazia parecer moçoilas de unhas cumpridas e coloridas, e nunca ninguém se machucava, voltávamos sempre felizes, sãs e salvas.
 
Metáfora pra vida. Licença pra tudo. Licença pra existir. Licença pra falar. Licença pra passar. Licença pra sentir. Licença pra pedir licença, licença pra expressar. Sem censuras. Sem ataques. Sem achaques. Sem mordidas. Sem feridas. Licença pra se sentir querida. Licença prometida. Licença pra vida.
 
Junto tudo numa cesta, flores miúdas, flores graúdas, morangos vermelhos vivos silvestres, morangos ínfimos, meio verdinhos, sujos de terra, bichinhos passando, um besouro, uma abelha, formigas, amigas de tempos idos, tempos floridos, carinhos colhidos, encolhidos sentimentos de passar, sem incomodar, pelos caminhos, pelos matinhos, pelo mundo que cerca, e as cercas que  não existem mais. Só prédios. E seus aços colossais. Só gente que se pretende, sejam todos iguais...
 
Sentido. Licença por não fazer sentido. Licença para as flores caipiras. Aquelas que nascem sem plantio. Vão nascendo onde der. Nos vãos das calçadas. Em torno das árvores velhas das cidades de concreto. Vão se esgueirando aqui e ali, só pra existir. Não lhes cabe um jardim. Um cuidador. Água fresquinha de um regador de fim de tarde. A água é a chuva. A semente é o vento. O cuidado é a sorte. A colheita é a inexistência. E o perfume é a resistência.
 
Coração. Coisa que sai assim, tipo flor sem nome, tipo letra sem sentido, tipo poesia sem rima, tipo prosa sem charme, tipo amor sem dom, tipo desejo sem jeito, tipo querer sem poder, tipo transparência sem intenção, tipo atração sem culhão, tipo vontade e frustração, essas,  não precisam pedir licença, convivem bem com os miúdos entes transformáveis, não servem pra nada, mas existem porque é assim.
 
pergunta-se
 
De que serve uma flor miúda de calçada. Nada. Não será colhida, não estará num buquê bonito de alguma vitrine linda, nem verá o sorriso de alguém ao receber dos braços de outro alguém, as belas vestes de um buquê, não enfeitará quartos, nem salas, nem saberá o que é ser admirada, conservada, regada,  e bem guardada quando secar, em algum livro de poesia, de onde será, pra sempre recontada. Amada.
 
me perdi...
 
Misturei tudo. Me perdi. Onde eu estava. Licença. Compadre. Comadre. Vida. Adulta. Flor miúda. Jardins. Existir. Coração. Frustração. Permissão. Liberdade pra ser. Sem ter que parecer. Ser. Simplesmente ser. Ser miúda. Cair na real. Não há jardim aqui. Aqui é mato. Flor  aqui nem é bem flor, é só flor do mato. Jardim bonito é logo ali. Do outro lado.
 
Obrigada, compadre! De nada, comadre!
 
 
*

domingo, 14 de fevereiro de 2016

23:23

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O que a gente tem que aprender
aprenderia se botasse atenção
às calmarias,
 
AO RITMO
 
do que não resiste,
entrega, desapego, sem atropelo
nada, nenhum movimento de exagero,
 
só existir,
deixar-se cumprir,
as órbitas,
as gravidades,
os giros,
 
 
pra que serve mesmo tanto delírio
ansiedades, desejos, paixões, dores,
onde se escondem os alívios
aqui dentro
não!
ali fora
não!
 
 
não é de alívio que se vive
é de suspensão,
viver é um verbo muito metido a besta
 
 
esqueça
esqueça
esqueça
essa mania de grandeza dessa raça nossa
humana e tediosa
que se crê imensa e quer  mais que viver
mania de querer ser
de ir além
de permanecer
de enlouquecer com alguma substância
que se faça mágica
e nos faça vibrar delirar exasperar por tanto
que nem é tanto
quando
 
o espanto
está
na calma
 
entoa o canto,
 
 
ALMA
só quer um canto
dentro da paz.
 
( todo resto, tanto faz)
 
*


16:41

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Foi só um toque. Rápido. Talvez, distraído. Contido, não, porque o verbo conter não te cabe. O vento. Este, sim! Ou algo assim.
 
Fiquei acanhada. Sem saber o que fazer. Ideias ingênuas são perigosas,  li isso logo cedo. É que ficou tudo suspenso. Fiquei no suspense daquele vácuo entre uma chamada combinada e não cumprida.
 
Se fechei algumas portas não foi na sua cara. Foi pra me proteger. Esperar é um verbo irritante. Altamente corrosivo. Quem espera vê a demora se alongar. Feito um gato em dia de banho de gato, nunca acaba a demora.
 
E você espera. E demora. E você espera. E demora. E você espera, já sabe, né. Demora. Aí você percebe sua respiração em suspense, suas mãos em suspense, seus pensamentos paralisados no suspense, as falas ensaiando revidar o suspense, e de repente se dá conta de que dói. Dói esperar. Dói quando é a demora quem vem.
 
Então, por um mínimo de sanidade mental, você para de esperar, e fecha o canal pra poder respirar. Pra não pirar dentro desse único verbo que domina a mente da gente que espera.
 
Enfim, tem por onde, no entanto.
 
 
 
Lembro de um dos seus sonhos. Relatados pra mim com detalhes. Uma noite. Um bar. Um vento. Uma tempestade colossal. Lembra a musica de Alceu, " e deixou os meus nervos de aço no chão", rio sozinha, nervos de aço, os tenho, só isso justifica a incontida alegria do seu segundo distraído.
 
Foi uma semana difícil. Umas críticas pesadas. Um cansaço animal.

Irritação com gente que toma o que é teu, no caso seu, VOCÊ aí, que nem sei se vem aqui, mais, ademais, e faz confusão. Só existem dois aqui. Você e você na minha imaginação. E eu. Que não conto. Só proso. Nem verso. Vale também o inverso.

Foi uma semana difícil. Por pouco não me explodo. Essa aqui. Que vive aqui. O meu outro lado da moeda. Que você conhece. Um lado só. O outro, nem sabes. Um lado bom. Um lado ruim. Os dois lados bons. Os dois lados ruins. Dualidade me irrita. Lados se complementam, e aumentam na medida que irrestrita se faz a progressão.

Dos teus lados, adivinho. Não!, Suponho. É estranho a paixão fragmentada. Ou talvez justo por isso, justificada. O desconhecido. O almejado. O idealizado. Superado. Decepção. Medo. Suspense.
Era uma vez, é inicio. Ou fim. Ou o que...
 
Lembro de uma coisa por você pensada: nossos defeitos talvez sejam o que mais nos aproxima e possibilita. Sempre me vem à mente essa frase codificada, que na verdade não traduz nada porque somos uma história interrompida pelas montanhas, pelos eventos, pelos excessos, pelos inversos, e por alguma coisa muito óbvia que eu não consigo acessar.

Tudo que é muito óbvio guarda algo mais. O que me faz pensar sobre a grande descoberta da semana. A confirmação da Teoria das ONDAS GRAVITACIONAIS de Albert Einstein, que já a cem anos atrás, apaixonado e visionário, deleitava-se sobre possibilidades só naturais aos grandes apaixonados. Vi tanta correlação com a gente essa coisa toda. Não entendi nada de nada na verdade da teoria, tô estudando, voltando aos poucos às pequenas pesquisas sobre os grandes mistérios, as conspirações, minha piração preferida, mas a experiência foi desenvolvida e confirmada pela LIGO.

É a sigla do centro de experimentos lá: LIGO.
Achei tão gravitacional essa correlação de paixões. Ondas que se confirmam através de um LIGO.

Eu ligo. A LIGO liga as ondas. As ondas nos ligam. Ligações.
Interrupções. As ondas se ligam. Se esticam. Se religam. Ligam.

Olha como é poético:

Todo corpo emite ondas.
(Ondas: feixes de energia que distorcem o tecido tempo-espaço)
Essas ondas produzem perturbações no espaço. Qualquer massa em movimento, um corpo, dois corpos, produz ondulações, ondulações, pra lá, pra cá, vai , e volta, balança, balança, nesse tecido espaço-tempo.
Quando essas ondas passam aqui pelo planeta, o tempo-espaço que a Terra ocupa se alterna entre SE ESTICAR E SE COMPRIMIR.
 
Quanto maior a massa, e note que PENSAMENTO também tem massa, maior o movimento  e maiores são as ondas. Que chegam e de novo, esticam e encolhem, para que novamente se recombinem.
 
RECOMBINAÇÕES.
 
Eu não sei o que isso quer dizer cientificamente, mas na questão poesia eu achei lindo. Estica, encolhe, se recombina, estica e puxa pra perto. _Puxa!, dizem que é uma nova janela para o Cosmos. Um espectro totalmente novo. E tudo que é em cima, é igual aqui embaixo. Ou seja!
 
Estamos à  caminho de algo inimaginável. De bom. É o que sinto no meu coração. O pedaço do meu coração que se liga ao Infinito. E disso, eu tenho certeza. Estamos à caminho de algo inimaginável de bom. Sei que as ondas que comprovadas se fizeram essa semana sugerem um mundo novo a ser visto. Lá em cima. e AQUI. E nesse caso,  não resisto à associação:
 
Minhas ondas te beijam para além do tecido espaço-tempo.
Em alguma dobra do tempo, o espaço pra você, é sempre, e se você quiser,  pelas ondas alcanças o meu BEIJO.
 
 
 
 
[p.s. licença para escrita solicitada. É só um ensaio de flauta]
 
 
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

00:33

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Sonhem-te os beijos,
e que não sejam em vão
nem os sonhos nem os beijos.



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22:28

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o sonho
da chuva
é
 
que se dance
enquanto
 
ela
canta
 
 
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16:11


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Há males que vêm para o bem. Há bem que vem para o mal. Dualidade. Parece tão pouco resumir em apenas dois lados. Progressão. Abrir o pensamento e multiplicar os lados. Muitas coisas se abrem vindas de outras tantas que se abrem, ou se fecham, ou se bastam, ou se completam...
 
A gente vai se apequenando com o tempo. Vai se apegando às coisas pequenas. As bem pequenas, mesmo. Observar vira mais do que uma distração, vira uma abstração. Só que com os olhos bem pequenos. Tudo vai diminuindo, ficando diminuto não no sentido deteriorar, ou inferior, vai é apenas adquirindo o verdadeiro valor.
 
Talvez fosse dessa matéria que o saudoso Manoel tanto poetizava. Descer até a grandeza das coisas pequenas. E deixar as grandes, as gigantes intenções, os imensos sonhos, as não exclusivas frustrações ao espaço que lhes cabe: O infinito. Ou algum buraco negro para onde devem migrar as expectativas quando sossegadas.
 
 
Pequenos passeios.
 
 
Janelas de casas antigas sempre deixam escapar o movimento discreto das suas cortinas, que por detrás, mostram pares de olhinhos, olhos cansados, olhos pequeninos, um velhinho, uma velhinha, ali por horas, olhando o não visível, assistindo a passagem das suas tantas coragens, as lembranças, que vão ficando crianças, lugar para onde a gente deve voltar.
 
 
Algum princípio. Algum alívio. Algum cantinho sereno. Onde não hajam mais dores. Nem amores. Nem grandes vaidades, apenas amenidades, talvez por fora se tratem até das mesmas, ou talvez a alma não precise mais dessas coisas pra expandir, pra que se possa sorrir pra qualquer um, sem medo algum, talvez haja um lugar só pra se estar, se demorar, apreciar, se gostar, um lugar onde pequeno não seja um sentido pra menos, mas a essência de alguma coisa maior, algo bem perto do que penso poderia ser o amor, um tempo amigo do tempo, um lugar onde viver, esse verbo sim, seja uma coisa maior. Um lugar onde finalmente apareça, o nosso lado melhor.
 
 
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

20:31

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Sobre ESCREVER.
 
 
Houve um tempo em que o que havia era a pena. Ao lado dela, o tinteiro. Havia a pena, a tinta e o papel. Sobre uma mesa. Em frente à um ser estranho  que fazia-se voz  neste conjunto. Talvez a luz fosse a vela. Talvez a cor fosse a amarela. E talvez o tom das coisas escritas lembrassem mais a pátina de uma aquarela do que a explosão de cor que ninguém suporia, iria haver. Nesse tempo o que havia era o tempo passando mais lento. Fora isso, havia o nada, o amontoado de nadas que se multiplicam até hoje, em tempos de letras rápidas, pensamentos lépidos, raciocínios intrépidos, e o ontem. Tanto nada e já é ontem.
 
Um amigo usou o termo. "O que escrevemos não passa de um amontoado de nadas". E mais o pressuposto que de fato, somos nada. Viemos de um nada que ninguém sabe explicar. Voltaremos para algum nada que ninguém se atreve sequer a pensar.
 
 
Há quem fale. E saiba bem falar. Há quem cante, e saiba bem cantar. Há quem dance, há quem construa, há quem cozinhe, há quem cuide, há quem cure, nadas e nadas na tentativa de trazer algum sentido ao vazio. Não fui quem criou o vazio. O vazio nos criou. Muitos fazem bem o que fazem. Outros apenas o fazem. Porque é o que nos cabe. Fazer. Bem ou mal feito, fazer.
 
Cantam-se nadas em chuveiros, mas há o direito a cantar. Dançam sem graça muitos nadas na avenida, mas há o direito a dançar. Aprender faz-se no tentar. Cozinhar com maestria não desmerece o arroz que saiu uma papa, pois há o direito a tentar, aprendizes, amadores, estamos todos de passagem, prezados, fazer bem, _ que sorte você tem!, mas há quem faça meia-boca mesmo, se atrapalhe, tenha que refazer muitas vezes, e há quem tente e tente e não aprenda, mais nem por isso é-lhe privado o direito de fazer.
 
Como escrever. A pena, o tinteiro, o papel, as máquinas de fazer as letras voarem mais rápido do que o som, estão a disposição dos que bem fazem, e dos que nada fazem além de amontoar nadas sobre nadas, mas ainda assim, cabe-nos, e nesse caso me incluo por repetir o vazio e o nada de forma desconsertada, cabe-nos o direito de escrever, sim! Foi paga a pena, a tinta e o papel com os níqueis que saíram dos nossos bolsos. Se não escrevemos nenhum colosso, é só porque não somos esse talento estrondoso, somos os tímidos, os reprimidos, os não escolhidos, os que fazem da escrita um nada que nos abrigue nesta estrada cheia de nadas.
 
Porque no final, bem feito ou mal feito, bem escrito, ou um lixo, voltaremos ao pó, nossos papéis, nossas tolices, nossa completa falta de sentido, voltaremos ao que somos todos, os mais lindos, e os desmerecidos, um amontoado de nada, relatando lindamente ou de forma errada,  que o que resta é o que é, e o que  sempre será,   um monte de nada sobre nada, e mais nada.
 
 
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[Afora isso, a porta da rua, é a serventia da casa. Perdão!]
 
 
 
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

17:27

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Daí o assunto LIBERDADE entrou no salão para dançar. Não houve quem não parou pra olhar. Suas vestes, seu caminhar, seu olhar a desafiar quem sem atreve, suspiros, espanto, como pode tanto encanto por aqui se aproximar. Dança só. Não escolhe ninguém como par. Liberdade é uma miragem pra quem tem coragem de olhar. E todos olham. Embasbacados de vontade de tocar.
 
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Um paizinho lindo de barba clara. Uma bicicleta de dois lugares. Uma menininha linda, vestido cor-de-rosa, cabelos cacheadinhos, claros como os do pai, na garupa, agarrada naquele ser que seus olhos declaravam herói, passeando contra o vento, a favor do vento,  rindo os dois, às gargalhadas, divertidos,  bonitos, nem acredito no que meus olhos veem, uma poesia sobre alegria em frente aos meus olhos passando, desfilando em um ensolarado feriado de carnaval.
Ecoa nos meus ouvidos um terceiro riso. Feliz, feliz.
Sim, um terceiro riso!, o paizinho, a garotinha linda e a LIBERDADE.
 
 
Pude vê-la ao vivo e em cores. Eram só amores. Babava até de se ver viva na espontaneidade do momento daqueles dos amáveis seres que mergulharam no amor sem medo, vi a  liberdade mudar de nome, FELICIDADE.
 
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Por outro passeio, desta vez na rede, passei por um jardim esquisito, cactos, bonitos mas, ásperos, fazendo-se valer da liberdade de se expressar. Um dos espinhos se ardia em palavras contra o direito do escritor ser prezado somente quando não fala de suas particularidades e  quando não se expõe de forma pessoal. Tomei a pedra por todos os autores que fazem uso da palavra de forma absolutamente pessoal, Clarice, Manoel, Rubem, Raquel... Eis a LIBERDADE, de uma forma ou de outra, visões são sempre pessoais. A palavra não é nada desprovida de vida. De energia. De detalhes. De exposição. De enredo. De algo que agregue à ela uma substância infalível: a experimentação.
 
Vi a liberdade ali também. Arrogante. Pretensiosa. Toda prosa no palavreado, e vi a mesma liberdade instigar-me aqui, exercida no direito de quem escreve, não uma artista, mas uma equilibrista que dança na corda bamba com as palavras,  quero expor,  expor que horas acordei, o que sonhei, a cor da minha calcinha, no caso, hoje, preta, de renda combinando com meu sutiã de alças finas, e ainda falar das dores, dos bálsamos, das simplicidades que de tão simples fazem-se complexas como só a liberdade saberia explicar.
 
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Penso ainda mais sobre a liberdade. Nos seus extremos. Onde a sua realidade se faz. Efêmera, linda, reluzente, toda gente já teve um ou mais instantes que permitem relembrar.
Porque desconheço sensação mais livre do que mãos que se dão. No começo de uma estação. Na primavera de um romance que se inaugura. É tanta liberdade que ultrapassa a possível sensação de prisão que uma paixão possa sugerir. Livre querer de juntar os corpos. Livre delírio de alcançar juntos um prazer onde a liberdade se confirma, e geme tanto ou ainda mais, porque a liberdade é quase isso, uma felicidade. Ao menos quando se decide assim. Liberdade não é exatamente uma opção. Muito menos a felicidade. Mas quando a circunstância faz-se vizinhança, abram-se os portões.
 
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Aí lembro do preço. Não há nada na vida que não cobre seu valor. Correspondente. O paizinho e sua linda menina passeando de mãos dadas com a liberdade, e claramente  com a felicidade, têm mais responsabilidades do que eu possa supor admirando-os e morrendo de amor. A pessoa que critica provoca o atrito, paga o preço do conflito que toda palavra, quando é dita, livremente, instiga, e a resposta, e a palavra, e o compromisso que poderia ser livre à todos, aquele de fazer-se livre pra o que conta, liberdade pra cabeça, abraço, beijo, festa, floresta, orquestra, ballet, o sabor daquela comida delicia, os cabelos cheirosos no afago das mãos de quem se quer, e que te quer também, correr na chuva,  livres se sentem os pingos quando precipitam-se em queda, assim como livres são as flores que engolem os pingos para livres virarem seiva, essência, liberdade justifica-se na felicidade que se alcança.
 
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Esperança. Não sou livre. Ninguém é. A gente se faz só. Assim como feliz não se é, se está. Quando se quer. A roda é maior. A música que toca define os passos da ciranda. Sonhamo-nos livres. Mas estamos presos. Presos no corpo, presos nos desejos, presos nos amores, presos nos receios. Estamos presos nos vícios, presos à beira de abismos, presos nos pensamentos, nas dores, nas esperas, nas demoras. Presos nas chegadas, presos de partida, estamos presos na gravidade do mundo, da órbita, dos costumes, das morais e ditames, estamos presos nos julgamentos, presos dos sentimentos que nos aprisionam em tristezas, em fraquezas, somos livres sem grandeza.
 
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Feito a lua. Só parece. Feito as estrelas. Só parecem. Feitos os astros. Só parecem. Feito as partículas que compõem o Infinito. E só parecem. Livres. Felizes. Somos espiões da aparente liberdade alheia. Somos observadores da felicidade que paira breve, nossa, do lado, passeando agarrada ao pai, cabelos ao vento, nem o vento, o elemento de aparência tão livre, refém também, das correntes, dos comandos, dos controles. Nada sobre controle. Tudo nos escapa. Tudo nos detém.
 
 
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E o que convém. Não me convém sair. Não me convém me arrumar pra sair. Me convém me perfumar pra ficar. Minha liberdade é ínfima. Mas eu a exerço do avesso. Flerto com versos. Com palavras que me revelam comum, a mais comum das mortais, minha liberdade se faz escrita, lida, vivida nos pequenos gestos, no amor que invento, na lamento da paixão que aguento, nos meus objetos, nas minhas músicas, quando quero danço, quando quero choro, quando quero sonho, quando quero mando às favas, quando quero me iludo que posso, mas não posso, e sou livre pra saber que o limite não existe pra mim. Ele existe pra você.
 
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Daí eu lembro do mar. O mar imenso. Azul. Sempre azul em tons. A onda vai. A onda vem. Lembro da sensação quase erótica de entrar em suas águas, as águas  penetrando todo meu corpo, um mergulho, o corpo solto, boiar com azuis por cima, com azuis por baixo, avanço, mar adentro, não tenho medo, e copulo com o mar suavemente, sem que ninguém veja, sem que ninguém perceba, exceto ela, a LIBERDADE.
 
A liberdade de não querer ser livre. A felicidade de não querer ser feliz. A livre felicidade de me aceitar cativa de mim.
 
 
 
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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

22:12


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Recebi um poema de presente. Um encaixe de rimas expressivas, vibrante composição de sentimentos, ponto a ponto enlaçados, desenhos delicados e coloridos que me fizeram sentir querida, e como é bem vinda a sensação! Um afago em meio à tormenta.
Junto ao poema, metáforas de coração. Num bem feito pacote de presente, laço de fita, caixa bonita, um mundo de novas palavras pra eu usar. Um bilhete que dizia:
_ Todas as palavras são suas.
 
Quase encabulada, agradeço. E me comprometo à usá-las com mais suavidade. Curiosa que sou, abri sem cuidado o presente, um mundo de palavras só minhas, antes de abrir já pressentia a alegria de subirem à minha frente as cortinas para novos atos. Experimentar novas sensações através das palavras. Fazer delas novidade. Explorar a variedade infinita que uma única palavra é capaz de navegar. Palavra é mar de possibilidades, precisa é habilidade para fazê-las tocar. Palavra que vire toque. Tentar tocá-las sem desafinar. Ouvir-lhe a melodia. Uma por dia...
 
Então, encontrando-me em meio desse mundo de palavras, fiz o sorteio de uma, ao acaso. Uma palavra para o dia. Uma palavra para expressar algo que ultrapasse a agonia dos dias recentes. SUAVIDADE foi a sorteada. Sorte apreciada. O dia transcorreu suave como suave estava o gosto dos pastéis de Belém, saboreados sem pressa no Doce Fado.
 
Começo do dia.

Não lembro o que sonhei. O que já é uma vantagem. Sei que chorei no sonho porque o travesseiro estava úmido. Mas como devo experimentar novas emoções, posso considerar um choro de alegria, o choro por alguma coisa genuína, algo que de tão bom,  fez-se molhado, mas não quis ser lembrado, pra não ser maculado de expectativas.
 
Acordei tarde. O café da manhã foi servido tarde. E já era tarde quando resolvi bater pernas pela cidade. Um banho, e os cabelos soltos ao vento. Não deu tempo de saber como você os preferiria: soltos e rebeldes, ou lisos e comportados. Eu escolhi soltos e rebeldes, e cada fio vibrou de alegria pela liberdade de sacudir-se ao carinho do vento, acrescendo ao meu rosto uma rebeldia delicada, um ar de expectativas, porém, controladas.
 
A curiosidade reside nos olhos que avisto. Deixei que meus olhos sorrissem um pouco, dar-lhes um tempo, cansa ser olhos de lamento, ardem  de tanto  tormento, dei-lhes folga, saí pra ver o mundo em recreio, e creio que fiz bem. Meus olhos à tempos não se sentiam tão bem. Zanzei sem compromisso. Deixei o relógio em casa. Não fazia diferença nenhuma as horas, de vez em quando é bom não marcar o tempo que insiste em tiquetaquear que não sou sua.
 
Pelas ruas da cidade um sossego raro. Todos nos litorais. Restam os contidos, os recolhidos, os tímidos, os introvertidos, meus preferidos, que na pausa não falam, sussurram sem pressa, como se o mundo lhes fosse de uma calma secreta, uma confraria de prazeres discretos. Nada contra os baderneiros e seus pandeiros na cadência do samba, mas bamba é esse silêncio bonito, nada de atrito, o acesso é restrito, há que se ter um coração aflito pra se aliviar enquanto os alegres saem pra viajar. É um alívio. Os gatos saem e os ratos fazem a festa.
 
Voltei já era noite feita. Um calor quase carinho. Uma brisa suave, e um chá geladinho de gengibre, tudo aberto, tudo livre, a noite também quer ver o desfile da suavidade passar.
 
No meio desse devaneio suave, agradeci as felicidades. Tenho tanta coisa pra agradecer, e não se trata de esquecer, mas só fiz me aborrecer nesta falta de você,  entristecer faz a gente desconsiderar o que há de bom. Inclusive na perda. Inclusive na rejeição. Inclusive experimentando o chão.
 
Reconhecer. Enquanto zanzava pelas ruas da cidade pude refletir sobre mim. Sobre essa nova que surgiu em mim. Que você trouxe. Pelas mãos. Já te agradeci por isso. Nos relatos enviados quando você se refugiava nas suas montanhas. Lembrei do que escrevi. E não menti em nenhuma palavra. Você me acresceu. Minha ideia de vida cresceu. Meus pontos de vista. As emoções. Talvez se justifique essa resistência em te esquecer justamente porque o melhor que a tempos em mim não via, tenha vindo através de você, e foi tão bom, tão vibrante, tão delirante me ver nos seus olhos refletida como a mais bonita, a mais querida, como não lamentar perder um sol desse tamanho, um sol que me acendia e deixava minha pele em chamas, enquanto por dentro a alma era só  dança,  alma que canta, a alma não se reconhecia tão cheia de encanto e o pranto, de quando acaba, é o mínimo porque literalmente tudo vem ao chão. Corpo, coração, mente, e a alma, ah, a alma!, foi um baque, ela ainda não aceita, segue contrariada, tão boba, se sentiu amada, e agora somos eu, meu coração e minha mente tentando fazer com que  ela, a alma, volte a ser uma menina animada.
 
Alma minha. Suave na nave. Um dia de cada de vez. Uma palavra por dia. Os olhos haverão de enxergar novas alegrias pra te fazer consolar, devagar, até que chegue um dia em que não mais haverás de chorar. Ganhamos de presente todas as palavras. Farei todo o possível pra escolher as mais delicadas, aguenta minha alma, se não nos é possível esquecer,  pelo menos vamos desanuviar a tristeza, vamos nos lembrar da beleza que tanto nos encantou, quem sabe um belo dia, haveremos de acordar refletidas dentro de nós mesmas, bonitas, eu você o coração a mente, tudo junto, quem sabe até o moço chega junto, e a tristeza resolve passar. Um dia ela vai passar, um dia ela vai passar.
 
 
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

17:21

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É que se a beleza não vem, você tem que embelezar. Se a alegria não vem, você tem que alegrar, se a saudade não passa, você tem sentir, e se a paixão não cessa, você tem que sangrar, se o acaso não conspira, você aceita e pira, se a lágrima quer cair, você não tem como reprimir.
 
Porque existem as ventanias. E elas são de ir.
Porque existem os temporais. E eles são colossais.
Porque existem os amores. E alguns, oceânicos.
 
E você tem que se afogar. Deixar cada gota te levar.
É que se tem vida, você tem que viver. Se não tem acolhida, tem que correr. Se não existe a fome, é quase um morrer. É na sede que não se pode ceder. É que quando é pra acontecer, a gente só precisa comparecer.
 
Porque existem as vontades. E elas são fome.
Porque existem os destinos. E eles são norte.
Porque existem os avisos. Asas de sorte.
 
Ou não. É que quando existe a dúvida, você tem que escutar. É que quando dá bandeira, você se ajeita, mas se alguém te rejeita, você faz que aceita, porque existem as escolhas, e em alguma delas você vai sobrar. E se arder, tem que soprar. E se for de entristecer, a gente tem que fazer sementes pra renascer.
 
Porque existem os caminhos. E eles não param.
Porque existem os carinhos. E eles falham.
Porque existem os enganos. E como eles falam...
 
 
É que quando o coração bate, você tem que respirar. É que quando está frio, você conhece o arrepio. É que quando um coração se abre, você tem que ser doce. É que se existe o abuso, você tem que suspender o uso, é que quando fica escuro, você tem que se acender pra iluminar.
 
Porque existem os medos. E eles não tolos.
Porque existem as manipulações. E elas não são máquinas.
Porque existem as asperezas. E elas ferem as delicadezas.
 
 
É que realmente existe a beleza. E dela a gente quer a cama e a mesa. Precisa saber fazer sobremesa. Com calda de framboesa. Servir com a proeza de uma fina meretriz, sem perder a classe naquele triz que desperta as cenas, sereia, princesa, submissa, agressiva, ordinária, extraordinária como uma atriz.
 
Porque existem as fantasias. E elas são reais.
Porque existem as loucuras. E elas são divinais.
Porque existem as urgências. E não há tempo, elas são terminais.
 
 
É que existe a vida. E não tem como evitar as armadilhas. Os lobos uivam, eles precisam  seguir com a matilha. É que existem os sonhos. E eles devem ser acordados. Devem ser realizados. Os sonhos precisam ser superados para serem alcançados.

porque existe o sonho.
 
Porque existe você. E você é imenso
Porque existo eu. E eu sou mínima.
Porque existia um NÓS. E os nós, às vezes, nos largam à sós.
 
É que existe a vida. E a vida é assim. Porque existe o fim.
 
 
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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

21:36





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Tenho tido sonhos ruins. Dias ruins. Sensações ruins. Estou ruim agora. E é muito ruim se sentir assim. Tive um sonho especialmente ruim na noite passada.
 
Sonhei que acordava no meio da noite. Ao acordar, acendia uma pequena lâmpada azulada do abajour de cristal que ganhei no natal. Ao acender, no entanto, a luz não era mais azul, mas cinza. Um cinza assombrado. Estranhava a cor no abrir dos olhos, quando percebia que o quarto estava todo pichado. Todas as paredes, todos os lados, tudo riscado à carvão. Pelo chão, tocos de cigarros, alguns ainda mal apagados, misturados aos pedaços que restaram do carvão. Assustada eu corria pra sala, e mais daquela palavra pichada. Rabiscada. Em todas as formas de letra, de todos os tamanhos, estranho presságio. Era a palavra o que mais me assustava, mais que todo estrago que percebia. A noite estava fria, a pele arrepiada fazia  perceber que a chuva fina respingava pra dentro pelas janelas vazias de imagens e cortinas igualmente marcadas e rasgadas.
 
Tua foto, que guardava no porta retrato de prata, estava rasgada em mil pedaços, e o vidro quebrado revelava que alguém se cortara. Havia gotas de sangue no chão. Então me dei conta, dentro do sonho, de um som. Sinistro eco da palavra reverberava estridente numa repetição alucinante em vozes multiplicadas como um coro desarranjado de maestria. As portas estavam todas abertas, as chaves sumiram, corria de um lado para o outro, desci de pronto a escadaria, e lá fora, o eco se alastrava pela calçada, onde todos os anúncios repetiam a palavra.
 
Placas de trânsito, placas de lojas, placas de carros parados, placas de propaganda, panfletos esquecidos no lixo, um jornal largado no banco do ponto de ônibus trazia, em letra garrafal, a palavra em plural, por toda parte, tudo igual, a palavra, insistente, um ônibus parado trazia como destino a palavra, na porta da loja de flores, a palavra, no açougue, na locadora, na padaria era a oferta do outro dia,  no jardim de infância, e uma ânsia desesperada de entender me fez correr, a rua ao lado, a rua acima, a rua abaixo, tudo vazio, tudo repleto desta única palavra.
 
Meus ouvidos, minha cabeça, latejam com o som que só aumenta o eco de palavra, quanto mais me distancio de casa, mais vozes entram no coro, mil tons, fantasmagóricas notas anunciavam a palavra, volto pra casa, em disparada, são três horas da madrugada, olho pro céu tentando uma súplica, vejo que as estrelas sumiram, uma nuvem gigante resta apenas, um desenho mal formado da maldita palavra.
 
Na sala, onde tudo é esta palavra, num segundo de distração, olho minhas mãos e percebo que estou toda marcada, mãos, braços, pernas, ventre, seios, meu rosto, olho no espelho maior, dou-me conta da nudez vestida por esta triste palavra em mim riscada, uma de cada vez, a ferro marcada.
 
A palavra que mais me assustava, a palavra que eu tanto evitava, a palavra que eu jurava não ler, não querer, não considerar, não aceitar, refutar com todas as minhas forças, a palavra que não tinha cabimento, o atrevimento da palavra que não permitia o arrependimento, a palavra que tornaria o afastamento definitivo, todo seu teor aflitivo, a palavra que eu não queria ouvir, a palavra na qual me negava refletir, a palavra que te tirava de mim, assim, por todos lados, anunciada, a palavra mais odiada pelo meu coração, a palavra que superava o não sequer pronunciado, definitivamente, revelado,
 _foi justo esta a infeliz palavra que a minha mente acumulava:
                                     .NUNCA.
 
Nunca, nem nos meus piores sonhos, houve palavra mais fria.
 
 
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