domingo, 24 de abril de 2016

14:14

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Entre pistas de um buscar por fora,
surgem evidências de onde estava o tempo todo.
Em estado de se apaixonar.
 
Buscando em outros rostos,
outros corpos, relatos alheios
de fatos em passeios que não são meus,
 
sensação de estar sempre do lado de fora,
esquecida a chave, ninguém pra abrir,
e é sempre gelado, é sempre assustador,
 
percorrer léguas submarinas,
sem perceber o que correto estava o célebre
D I T A D O
 
_ Busque-se a si mesmo!
 
pareciam palavras vulgares de
pouca ajuda,
best-sellers saindo em fornadas,
 
está em você
busque em você
ache-se
aceite-se
ame-se
queira-se
faça-se,
 
 
melodias marteladas refugadas
sem sentido,
palavreado encarcerado
em labirintos descabidos,
perguntando sempre,
 
como
por onde
de que jeito
não tem lógica
é muita retórica
sempre tão fraca,
pobre, sede
do outro,
 
o outro,
sempre o outro,
o socorro, o espelho, o reflexo,
a dependência, a carência, a urgência,
 
[sucessão de dores atrozes, vozes, passagens, velozes]
 
.
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Até que um dia você se nota. E você perdoa toda a podridão vestida, sentida, ferida, todas as milhares de flechas que abriram um caminho até você, que descobre que existe sim, UM VOCÊ. Uma novidade. Uma sensação inusitada de experimentar um ser próprio. Um algo inédito de prazer. Inóspita, desconhecida, linda figura que se pode amar, sem medo de errar.
 
QUANDO VOCE PODE AMAR, E AMAR E AMAR E SE DERRAMAR E SE LAMBUZAR E SE ESPARRAMAR E AINDA HAVER UM MAR QUE TE DIZ SIM, SIM, UMA GALÁXIA INTEIRA DE AMOR POR ESSA CRIATURA QUE ME HABITA.
 
[não é vaidade. é RESTAURO. É reencontro. É aceitação. é a firmeza de um chão que te recebe, e te esperava, e te aguardava por mundos e vidas sem fim]
 
 
Todas as voltas que meu mundo deu me trouxeram até mim. Tateio com suavidade, controlo meu exagero no que seja amar, ou descontrolo, esta é enfim a hora de extrapolar, e mimar, e chamar pra ninar, e acarinhar sem medo de ser excessiva, enfim, não haverá fuga, não haverá rejeição, nem frustração, nem um NÃO, aos carinhos, à proximidade, nenhuma queixa será feita à falta de liberdade porque enfim o cativeiro liberta, dentro da gente existe um portal.
 
Ser meu pão.
Ser minha comida.
Eu, apaixonada por mim mesma,
sem saber, mas sentindo,
eu era a minha saída.
 
 
 
*


sexta-feira, 22 de abril de 2016

17:22

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Tardes solares,
outonos que se recusam,
amarelos perpétuos,
 
tudo pede frescor,
e uma nudez refrescante
suave chama chega brisa
 
 
escancaradas janelas
apressadas preces pra ficar
prolongar
permanecer
a beleza aguda das tardes
de sol de
um outono vadio
adiando o frio de dentro
de fora,
corações aquecidos
querido
outono,
 
tarde,
faça-se tarde a frieza,
a esperteza,
faça a fineza de ficar
e resgatar o que o calor
 
de um verão gelado
onde nada aqueceu,
doeu, vira a página,
guardo os livros pra depois,
 
um xodó pra mim,
tardes de luz,
amarela nudez
que resta, brilha, reluz
 
o corpo que cintila,
há estrela,
há fases, e lua,
há urgência em estado de
paradoxo,
sossegada,
como quem vive sem viver,
 
estado de sim,
estado de flor,
estado de ser oque seria,
amada,
 
mesmo sem estar aqui,
quem, alguém, ninguém,
 
 
toda materialidade presente
pressente
que ausente é só um estar
do não estar,
estás,
 
mesmo que não,
mesmo que além,
 
minha boca,
minha pele,
minha cor,
minha sombra está alegre,
 
lá, de onde está, reflete,
tudo suave e leve como este
verão outonal, casual,
desigual,
 
você é mais lindo de longe
você faz amor comigo
na mente,
não mente,
ardente,
feito a tarde onde faço
da nudez,  poema líquido,
sem busca,
sem sentido de ser, sendo
 
 
sem procura, puxo
pra soltar o ar bem devagar
como quem sabe que
vai amar,
amando,
 
 muito nua. E crua.
 
 
 
*

quinta-feira, 21 de abril de 2016

00:33

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Sempre maior se faz o que já se foi.
Palavras antigas. Vespertinas.
Matutinas.
Mas ainda é noite.
E espreita.
 
Nas noites onde todos os gatos
são pardos.
E todo azul, escuro.
Um manto repleto de estrelas,
enquanto uns dormem,
outros não,
insônias em vão,
 
Rondas.
Silêncios que falam mais,
passos madrugam janelas
cortinas camuflam rostos
rostos que não escondem
delírios repetidos
antigos, repassados,
 
De um tempo a outro,
sonhos,
De um sonho a outro,
convulsão,
De uma paixão a outra,
a permanência de uma
ou outra,
exaustão.
 
Sempre maior é o que resta.
O que foi, não.
O que fica é encanto.
Lavado em cachoeira.
Águas que não lavam,
correnteza que não leva
leva lava leve brisa
sopra outra aurora
 
Noite, meia,
lua cheia de pudor,
quanto amor uivando
ao seu redor
à alguns, já conhece
de cor,
de cores e rumores de
que por ali,
uma alma
duas almas
150 almas
vezes 1000 outras tantas
 
tateiam vidros,
soltam gemidos de dor
algum prazer de supor
em vão, então
ouvem-se passos,
em todo canto uma sombra
sua nuance,
sua sombra,
 
sempre tem alguém ali,
por alguém aqui,
e versos, vices,
versam enredos, desejos,
imensidões,
 
 
debruçam-se parapeitos
trancadas janelas
soltas promessas
o anel, o motor, o avião,
 
que pende,
que ronca,
que voa,
 
e este chão, que é espaço
que recebe e solta e chama
águas,
ventos,
elementos,
passagens,
 
todos prontos pra viagem,
de dentro,
o apito noturno do guarda
que sonha, e lembra
também, de alguém,
denuncia
afugenta
 
 
imperceptível presença,
fantasmas de almas amantes
de dias
de noites
de fins e começos
e danças e tropeços,
 
todos salvos,
todos sãos,
faz-se alta, a noite dos
suspiros não reprimidos
 que serão,
mas exaustos bocejam,
 
é o tempo
que ronda e não traz,
passos atrás, a frente, rente, quase se sente
 
 
insistente o sonho
real, palpável, e um sono
que não é fadiga,
é apenas o alivio de não ter
sido percebido,
 
o íntimo caminho
percorrido.
 
 
 
*

terça-feira, 19 de abril de 2016

17:38

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Peguei a dor pela mão,
A coloquei pra dormir,
Ela sonhou que era flor.
 
Era uma vez uma dor
que desabrochou
e sorriu.
 
 
 
 
 
*

 
 
 


segunda-feira, 18 de abril de 2016

00:00




Me exibi pra paixão. E acabei marcada pela dor. Aí era uma vez. Decidi escrever. Convidei a dor pra entrar, e tirei  dela substância, ainda que parca, para me escrever. Escrevi de mim para mim. E me descobri.  Peguei gosto e segui. Letra por letra me atrevi. Escrevi sobre a dor e suas dobraduras porque aos meus olhos elas me pareciam bonitas... (Ah, olhos meus!, gosto estranho o teu) . Olhos que veem e mãos escrevendo.  Escrevi sobre a dor e suas pétalas caídas. Vi poesia. Vi beleza. Vi o lado escuro aceso.  Escrevi sobre a dor líquida, ouvi seu choro, chorei junto à ela, e deixei a  dor febril dos dias dos descobrimentos arder e queimar e me levar ao grande pequeno espetáculo do sentir. Escrevi sobre as avenidas da dor. E por elas transitei. Me perdi. Me encontrei. E depois afundei sem quase voltar.  Escrevi  sobre a loucura.  Porque dor é uma loucura em graduações. Amplifiquei seus sons. Equalizei seus tons. Aderi ao bloco. E cantei enquanto dançava com a dor seus passos descompassados de uma dança insana de rodopios e meias pontas. Alucinei. Porque é o que a dor e as paixões fazem. Alucinam. E nos visitam sorrateiras, uma tão ligeira, enquanto a outra perpetua-nos em ais. Vi poesia nas chegadas. Vi cenas que queriam partir. E rimei alhos com bugalhos porque escrever quebra um galho danado. Passa-se atestado de insanidade mas nos mantém, porém.   Espiei sua rima estranha com o amor. E me atrevi mais. Fui além. Passei quadras. Errei a mão mil vezes mil, e conheci seu lado vil.  Não me poupei, queria essa beleza estranha da dor. Porque eu a vi. A conheci. Virei íntima da dor pra poder chamá-la de amiga. Amei cada pedaço de dor abstrata que vivi. E criei. E chorei. E parti. Parti a louca dor em pedaços, e depois eu mesmo colei seus cacos. Chamei a dor de loucura por tanto insistir. Excessiva.  Fui. Fomos. Somos. Louca pra escrever toda a dor. Escrevi tentando captar sua extra sonoridade. Ora, vazia, ora odiada, ora caminha, ora me escapa, a reconheço por todos os meus passos, e sobre a dor escrevi pra alcançar seu pico. E nele pulei. E dele caí. Me feri e me curei. Gritei e me calei. Fuji e chorei. Fui e voltei. Morri sem morrer. Amei e me enganei. Nas palavras mergulhei sem saber nadar suas letras. Mas foi tudo pela dor. Muitas, causei. Certamente. Causei e virei as costas como carrasca que também sabe instrumentar. Machuquei as letras. Mas respirei e segui. E cantei pra subir. Com a dor. De correr os riscos. A dor de arcar com os prejuízos. A dor que faz perder o juízo, e ainda sim, ficar. Algo como um pecado original. A dor é raiz. Do primeiro segundo. A dor dos átomos. A sina que precipita-se a cada colisão, que repete-se infinita, se exceção. E, então, acordei um dia e,  eis que surge uma flor, e depois um jardim. Semeado de dor. Um mundo de flor por nascer, ou renascer. O inverso possível. A experiência é incrível, mas a gente só descobre depois.
 
 
 
Novas horas.
Algum Repouso.
Hora de mudar.
 
De assunto.
 
 
 
*